Vivendo a fantasia para não encarar a realidade

Este título pode parecer tema de livro filosófico ou de autoajuda, no entanto trata-se de uma prática comum entre nós. Diante da realidade da vida, nossa mente pode criar fantasias, conceitos e crenças para tentar dar significados, sentido ou alívio às situações que nos deparamos. Cada pessoa, conforme seu ponto de vista, poderá interpretar uma mesma cena com significados diferentes.

Por exemplo: para alguns, uma agulha de injeção não significa muita coisa além de um medicamento; para outros a agulha é o elemento mais aterrorizante da terra. Neste caso encontramos uma interpretação ligada à realidade e outra envolvida com possíveis medos ou fobias, resultando numa percepção amedrontadora que pode fazer a pessoa sentir e agir para evitar a agulha.

Assim como este processo de dar significados para uma agulha, há semelhantemente processos mentais para criação de sentidos fantasiosos, que por um lado nos ajudam a encarar certas realidades difíceis de maneira mais amena.

Este processo mental tem suas utilidades, mas também existem armadilhas junto a ele. Certas interpretações que nos fazem fugir da realidade podem nos impedir de administrar questões na vida e até podem acabar se voltando contra nós. Tipo quando diante de situações que precisam da nossa atuação equilibrada e sóbria, fugimos severamente da realidade.

Esta fuga pode se manifestar também através de diversos sintomas, tais como pensamentos e conceitos: não encarar a realidade como ela é; achar que nem é tão ruim assim (sendo realmente grave); achar que não é contigo; ignorar a necessidade de intervenção no problema, e daí em diante. E, se ampliado o processo fantasioso, podemos partir para o âmbito dos vícios como consumo de drogas, álcool, excêntrica necessidade de divertimento, jogos, múltiplos relacionamentos e etc., sendo, nesses casos, todas relacionadas às compulsões.

A coisa então, quando elevada a este nível de fantasia, parece até aliviar a pessoa do problema que vive, no entanto torna-se um reforço para o problema e soma-se agora aos possíveis efeitos danosos que as fantasias de “negação da realidade” e vícios podem desencadear na mente da pessoa. Pois ao passo que a coisa vai se prolongando no tempo, parece ficar cada vez mais difícil a pessoa voltar a si, olhar para seu mundo real e identificar que sua vida está uma “M”, ou melhor dizendo, uma desgraça.

Semelhante àquela situação familiar que é um problema terrível, mas quando se fala com as pessoas envolvidas, parece que elas não estão nem aí, ou até ficam chateadas com quem alertou por acharem que se está “inventando problema onde não tem”.

É como não encarar a realidade ou fugir dela, achando que se mexer terá mais problemas ou dará muito trabalho, ou então simplesmente porque não se sabe lidar com a coisa. Por isso existem pessoas que preferem negar que existam problemas sérios a ter que mexer neles.

Como numa terapia, onde pessoas podem chegar com inúmeras queixas, mas no decorrer do trabalho identifica-se que tais questões envolvem coisas que elas consideram indigestas e trabalhosas de mexer, e assim algumas pessoas preferem desistir da terapia e conviver com problema do jeito que está, mesmo que isso seja debaixo de angústia.

A vida é complicada sim, faz parte, e fantasias são ótimas para aliviar momentos tensos e descontrairmos em meio às lutas, mas embarcar nelas permanentemente para fugir da realidade pode tornar a vida ainda mais tensa e cruel quando a fantasia for desmantelada.

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