Violência contra a mulher

Voltamos a falar neste assunto esta semana, para complementar a matéria passada. O assunto é preocupante, e por isso quero enfatizá-lo

Um dia, Flávia da Silva apanhou por horas de um homem que conheceu na internet e terminou a noite com o rosto desfigurado. Dias depois, outro homem foi detido por ejacular sobre uma passageira dentro de um trem. E aí?!

Não foram casos isolados. Nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, enquanto 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Dentro de casa, a situação não foi necessariamente melhor. Entre os casos de violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Após sofrer uma violência, mais da metade das mulheres (52%) não denunciou o agressor ou procurou ajuda. Os dados são de um levantamento do Datafolha, feito em fevereiro, encomendada pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) para avaliar o impacto da violência contra as mulheres no Brasil.

O levantamento divulgado levou a Diretora-Executiva do Fórum, Samira Bueno, a questionar a existência de espaços em que a mulher possa se sentir efetivamente segura no país. “Ela está sofrendo violência dentro de casa, aí ela pega o metrô para ir para o trabalho, onde também vai ser assediada. Qual é o lugar seguro, então? Ele existe?”

Os novos dados corroboram o que outras pesquisas já mostravam. Grande parte das mulheres que sofreram violência dizem que o agressor era alguém conhecido (76,4%). Mulheres pretas e pardas são mais vitimadas do que as brancas; as jovens, mais do que as mais velhas.

27,4% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses, diz pesquisa

Bueno comentou o resultado da pesquisa e a situação da violência contra a mulher no Brasil de modo geral. Para ela, o país avançou em muitos aspectos, apesar de as taxas de assassinatos de mulheres terem mudado pouco.

O padrão de violência contra as mulheres no Brasil é muito parecido há anos e Bueno relata: “Há uma série de números impressionantes. Há 536 casos por hora no Brasil e quase a mesma proporção de mulheres que dizem ter sido vítima de algum tipo de violência sexual. O número de mulheres que sofreram espancamento é assustador (1,6 milhão). Todos esses dados remetem à violência doméstica: 76,4% das mulheres conheciam o autor da violência, a maior parte aconteceu dentro de casa. Mas quando olhamos para o assédio, o espaço público tampouco é seguro. O número de mulheres assediadas fisicamente no transporte público, quase 4 milhões, é enorme. Não tem um espaço onde a mulher efetivamente está segura. A mulher está sofrendo violência dentro de casa, aí ela pega o metrô para ir para o trabalho, onde também vai ser assediada. Qual é o lugar seguro, então? Ele existe?”

A Diretora Executiva ainda nos conta: “No caso do homem que ejaculou na menina no transporte público, ela pediu ajuda dentro do trem e ficou todo o mundo olhando para a cara dela sem fazer nada. Depois, um guarda perguntou a ela se ela tinha certeza que a mancha na roupa dela não era de água. Como isso ainda acontece? Ela tinha acabado de sofrer uma violência como essa, que é humilhante, que te faz sentir violada. Foi à delegacia, ficou uma hora e meia esperando, foi mal atendida. Isso precisa acabar! A mulher que foi espancada ficou quatro horas sofrendo agressão e pedindo ajuda e levou quatro horas para alguém fazer alguma coisa. Isso tudo mostra como ainda somos coniventes com a violência contra a mulher. São tantos tipos de violência, em tantos espaços distintos, mas as respostas que nos são dadas são as mesmas em todo lugar.”

37,1% das brasileiras relatam ter sido vítima de assédio no último ano; 7,8% foram assediadas fisicamente no transporte público

Muitos se questionam como isso ainda acontece, mesmo diante de tantas publicações nas mídias e rede sociais, e concluímos que a origem é cultural. Podemos ter as melhores políticas públicas, de punição a agressores, mas se elas não incorporarem uma perspectiva de prevenção, pensando em como é possível alterar normas sociais e culturais, não vamos resolver o problema.

Temos a Lei Maria da Penha, a alteração na lei do estupro, a lei do feminicídio, a de importunação sexual, são todas boas, mas a lei por si só não resolve o problema. Um menino que vê o pai batendo na mãe, vai bater na esposa. A menina que sofre violência sexual dentro de casa e muitas vezes nem sabe que aquilo é uma violência, mas se eles ouvirem falar sobre isso na escola, vai identificar que talvez sejam vítima e mudem os pensamentos e quando estiverem maior, saberão que estas atitudes são criminosas e que jamais poderão serem praticadas. Precisamos conscientizar nossos menores através da educação social. Com certeza esta é uma das maneiras de prevenção. A educação precisa intervir nesta cultura.

Todos nós precisamos entender que os agressores têm que ser presos, mas também têm que passar por processos que não ocorrem, mas deveriam, como os grupos reflexivos. Eles precisam entender que aquilo é uma violência, repensar seu comportamento. Temos que levar às escolas um ensino de igualdade de gênero, do que é a violência. No caso da violência doméstica, o homem vai repetir esse comportamento. É um padrão que precisa ser rompido. A gente pode apostar na prisão como punição que vai alterar isso, mas sabemos que, se a ameaça de prisão fosse uma forma de evitar que as pessoas cometessem crimes no Brasil, estaríamos numa situação melhor, pois temos a terceira maior população carcerária do mundo. Temos a lei do estupro há dez anos, mas não temos menos estupros por isso. O mesmo vale para a lei de drogas. Legislação é um instrumento importante, mas, por si só, não resolve o problema.

Samira Bueno complementa em sua fala que a Lei Maria da Penha é uma grande conquista. No papel, é muito boa. Não é só uma lei penal, é quase uma política pública inteira de violência contra a mulher. Ela engloba muitos aspectos como prevenção, medidas protetivas, trabalhos com autores de violência. Num caso como esses, o desafio é sempre o da implementação. Tem, por exemplo, o obstáculo do pacto federativo para a lei funcionar, você depende de Prefeitura, Estado, União, do Executivo, do Judiciário, e muitas vezes a política não conversa. Fazer com que o serviço em rede funcione é desafiador. Fazer com que esse serviço chegue para além das capitais (8% dos municípios têm delegacias da mulher) também é um desafio. Vemos que também falta institucionalização de boas práticas. Quando projetos funcionam, não é por institucionalização, mas porque indivíduos lutam por eles.”

‘A menina que sofre violência sexual dentro de casa e muitas vezes nem sabe que aquilo é uma violência, se ouvir falar sobre isso na escola, vai identificar que talvez ela seja vítima’

Precisamos de educação social mais avançada. Onde Instituições podem ajudar muito nos esclarecimentos as crianças, como: menino não bate em menina, onde menina não pode ofender o menino, e por aí vai! Só assim, ele(a) vai entender que a prática vivenciada em casa (se for o caso), não é normal, não é a certa! A educação vem de casa sim, mas muitas vezes de forma errada, e uma instituição educacional pode ajudar com esclarecimentos.

Mesmo que as leis ainda não sejam totalmente eficazes neste aspecto, precisamos ter em mente que nossos filhos precisam de bons exemplos, e se a violência em seu lar clama por socorro: grite!

E se a violência surgir dentro de um meio de transporte, também peça socorro. Não fiquem com medo, eles é quem precisam passar vergonha e serem punidos, não você!

Seja em qualquer lugar, se a violência contra você chegar, não se cale. Este tipo de silêncio, mata!

Grite, Clame, Denuncie!

Eu acredito em você!

Por

* Radialista, Fotógrafa e Palestrante Motivacional.

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