Plásticos oxibiodegradáveis e sua saúde. Um pesadelo ambiental de grandes proporções

O Parlamento Europeu, no esforço de diminuir a poluição provocada pelo plástico, entre outras medidas, proibiu o uso de materiais oxibiodegradáveis a partir de 2020. Além disso, diversos outros países apontam para o mesmo caminho. Nosso país é o quarto maior produtor de plástico do mundo. Seu impacto ambiental é enorme, e por isso tem chamado à atenção cada vez mais de autoridades, cientistas e sociedade civil que buscam alternativas e soluções para este problema. Neste sentido, diversas cidades no Brasil debatem o tema e o colocam na agenda da administração pública como uma das principais atividades a ser tratada com urgência. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, desde o início de 2019 por medida legislativa, está proibido o uso de canudos, que não sejam biodegradáveis ou recicláveis. Veja a entrevista exclusiva sobre os oxibiodegradáveis dada ao jornal O Estado RJ por Rebeca Oliveira Castro, Doutoranda em Biologia Marinha e Ecossistemas Costeiros; Mestre em Biologia Marinha pela Universidade Federal Fluminense e colaboradora no projeto de educação ambiental Praia Limpa é Minha Praia! 

O Estado RJ – O que exatamente são microplásticos e materiais oxibiodegradáveis?

Rebeca Castro – Microplásticos são fragmentos plásticos menores do que 5mm. Esses fragmentos podem ser de origem primária, quando eles chegam no ambiente com esse tamaninho. Por exemplo, micropartículas, microesferas, os próprios pellets das indústrias que são usados como matéria prima na produção dos produtos plásticos. Mas a maioria dos produtos plásticos encontrados na natureza são fragmentos de origem secundária, quando ocorre a fragmentação de um produto de plástico maior. No ambiente, ele vai se deteriorando e torna-se então o microplástico. O material oxibiodegradável é um tipo de polímero plástico, que contém nele aditivos. Geralmente são sais metálicos: de níquel, ferro, manganês. E aí esses sais aceleram o processo de fragmentação se estiverem em condições ideais, como por exemplo, boas condições de oxigênio, temperatura, luz, humidade… Então esses materiais são ditos como oxibiodegradáveis.

Oerj – Quais os males e como eles ocorrem na saúde humana, causados pelos chamados bisfenóis, que são os materiais plastificantes presentes nos microplásticos resultantes dos produtos classificados como oxibiodegradável?

Rebeca Castro – Os riscos que os plásticos podem causar a saúde, tanto do homem quanto da biota, é o acúmulo de poluentes orgânicos, porque durante o processo de fabricação são aditivadas várias substâncias que ficam no ambiente durante muito tempo, que os seres vivos não conseguem digerir, processar, como também metais pesados (eles podem aderir, acumular esse metal pesado na sua superfície) e também biofilme bacteriano. Vários trabalhos mostram bactérias, algumas delas potencialmente patogênicas, aderidas à superfície do microplástico. Um desses aditivos que é um dos mais famosos e que vários estudos comprovam os seus efeitos nocivos à saúde humana, são os bisfenóis. E aí alguns polímeros plásticos acabavam usando esses aditivos pra adquirir algumas das características. Desde então houve um apelo da sociedade e alguns produtos tem VPA(um dos aditivos usados no processo de fabricação dos plásticos), livres desse bisfenol. 

Oerj – A acidificação oceânica, com morte de corais e toda fonte de vida na terra, também tem ligação com o microplástico?

Rebeca Castro – A acidificação dos oceanos é quando ocorre um aumento do pH na água. E esse aumento do pH é decorrente do aumento do CO² na atmosfera. O microplástico em si não tem uma ligação direta, mas indireta com essa acidificação, porque os produtos plásticos são oriundos do petróleo Então, quando você queima esses combustíveis, quando você retira esse petróleo e coloca ele de novo na superfície terrestre, você tem um aumento da produção de CO², que consequentemente ocasiona a acidificação dos oceanos.

Oerj – Hoje em dia sabemos que a reciclagem é um processo muito importante para proteção do meio ambiente. Materiais oxibiodegradáveis podem ser reciclados? E caso sim, os novos grãos de plásticos gerados não estariam comprometidos?

Rebeca Castro – Os materiais oxibiodegradáveis contém os aditivos que vão acelerar esse processo de fragmentação pra que nesses pedaços menores, microrganismos decompositores, possam terminar de fazer esse processo. Quando eles são usados na indústria da reciclagem, acabam se tornando um novo produto com pouco tempo de vida útil. Ele fica com pouco valor. Então, por isso a indústria brasileira plástica diz que esse tipo de material não é indicado pra reciclagem, ele não é muito valorizado, apesar desses produtos conterem o selo de que são plásticos biodegradáveis.

Oerj – A grande maioria das cidades brasileiras utilizam aterros sanitários para depositarem o lixo gerado. Neste tipo de ambiente, que não possui oxigênio, estes materiais oxibiodegradáveis ficariam inertes? Ou seja, eles preservariam as mesmas características poluentes de um plástico comum?

Rebeca Castro – Como os materiais, os produtos plásticos oxibiodegradáveis são formulados para fragmentar em certas condições de boa luminosidade, temperatura, humidade, oxigênio… as condições do aterro sanitário e de compostagem não são ideais para que esse processo ocorra. Então, nesses locais, o plástico oxibiodegradável acabaria então tornando-se similar ao plástico convencional porque não iria se fragmentar devido as condições desses ambientes.

Oerj – Os fabricantes destes materiais no Brasil, afirmam em seus sites e materiais publicitários que o oxibiodegradável é 100% biodegradável. Existe base científica para esta afirmação? As pessoas que de boa fé usam e oferecem a seus clientes este tipo de material, não estariam sendo enganadas ao pensar que estão fazendo um bem ao meio ambiente, quando na verdade é exatamente o contrário?

Rebeca Castro – Bom, existe um certo equívoco, quando tratam os produtos plásticos oxibiodegradáveis como boa solução pra gestão do resíduo sólido na gestão do nosso país, como é feita nos aterros sanitários. Então, vários estudos mostram, tanto internacionais, quanto nacionais e várias pesquisas apontam que o material oxibiodegradável, esse tipo de plástico, dentre tantos outros tipos lançados no mercado tentando minimizar esse problema, que nessas condições eles acabam não sendo fragmentados, então eles não cumprem o seu papel. Há um equívoco também pensar que eles são biodegradáveis. Pode até existir algumas espécies de microrganismos que são capazes de degradar alguns tipos de polímeros plásticos, dentre tantos tipos de polímeros. Mas o plástico em si não é possível de ser biodegradado pela natureza. O plástico oxibiodegradável, na realidade, está fomentando a criação de microplásticos no ambiente.

Oerj – Na sua avaliação, os legisladores e gestores públicos brasileiros, através da promulgação de Leis e apoio a proibição do uso deste tipo de material no Brasil, estariam dando uma contribuição verdadeira ao meio ambiente e a nossa população, assim como aconteceu aqui na cidade do Rio de Janeiro com a proibição do uso de canudos plásticos?

Oerj – Na sua avaliação, os legisladores e gestores públicos brasileiros, através da promulgação de Leis e apoio a proibição do uso deste tipo de material no Brasil, estariam dando uma contribuição verdadeira ao meio ambiente e a nossa população, assim como aconteceu aqui na cidade do Rio de Janeiro com a proibição do uso de canudos plásticos?

Rebeca Castro – As leis tem sim um papel importante na gestão dos resíduos sólidos, tratando-se especificamente dos resíduos plásticos, mas ela não é a única solução. Ela é uma das ferramentas e que precisa estar atrelada a outras ferramentas, como educação ambiental, como divulgação pela mídia para que essas leis tenham sentido para a população. Quando nós sabemos da problemática, quando nós temos o conhecimento do que esses produtos geram, a lei passa a ter sentido e na realidade ela nem é necessária, quando nós temos consciência do nosso hábito. Então, qualquer lei que pense e que enfatize a não geração de resíduos é uma lei importante, mas que precisa sim estar atrelada à outras ferramentas, como fiscalização, como educação ambiental, como divulgação científica. E aí, unindo tudo isso, pensando em um novo tipo de gestão desses resíduos, em um novo tipo de consumo da população. Nós não podemos continuar consumindo da forma que temos consumido, tudo isso sim atrela e soma pra tentar minimizar os problemas gerados por resíduos sólidos.

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