Cardápio do dia: microplásticos! A poluição invisível dos oceanos

Na pauta das principais discussões sobre sustentabilidade e economia circular, a poluição e danos ambientais causados pelo uso de materiais plásticos tem merecido grande destaque na mídia, principalmente pelos impressionantes números negativos, como é o caso dos divulgados pela ONU, que se mantida a projeção da produção de plásticos no ano de 2050 deveremos ter mais plásticos do que peixes nos oceanos. A situação é de tamanha gravidade, que cientistas norte-americanos encontraram microplásticos até no gelo do ártico. Se por um lado, o tamanho e gravidade do problema é unanimidade, por outro a solução ou alternativas para resolver o problema tem sido motivo de debates e discussões controversas.

As cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, apenas para citar as duas maiores do País, em 2018 e 2019 respectivamente, aprovaram leis que proíbem o uso de canudo de plástico pelos bares, restaurantes e comércio em geral. Mas será que isso será suficiente para realmente resolver o problema? Para alguns especialistas no assunto essa solução ainda esta longe de ser alcançada, bem como apontam o surgimento de muitos produtos e empresas que se aproveitam deste momento, para oferecem “soluções mágicas” e ou “promessas falsas” para combater os problemas da poluição plástica.

Para tentar responder estas e outras perguntas sobre este complexo tema, O Estado RJ convidou a pesquisadora da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Fernanda Reinhardt Piedras, que possui graduação em Oceanologia, mestrado em biologia em ambientes aquáticos, doutorado em Oceanologia Biológica e pós-doutorado pelo IEAPM (Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira).

O Estado RJ – Dra. Fernanda, a imagem de uma tartaruga com canudo de plástico na narina, somada as imagens de ilhas de plásticos nos oceanos, “correram” o mundo e chamaram a atenção para a poluição do plástico nos mares e oceanos. Qual a real dimensão deste problema e suas consequências?

Fernanda Piedras – As propriedades que tornam o plástico tão útil e tão amplamente utilizado, como a grande resistência e a baixa degradação são também os responsáveis pelos problemas que eles estão causando. Esses plásticos já são encontrados hoje em dia muito longe da fonte humana através das correntes, tanto marinhas, como as de ar, que podem levar as pequenas partículas de plástico. Hoje a gente encontra os plásticos nos lugares mais remotos, ou seja, muito longe da origem, muito longe da costa.

Os plásticos já são encontrados desde as regiões polares até a região do equador. Qual é o problema destas partículas? Além de elas irem ao longo do tempo – com essa ação das ondas, com a erosão – diminuindo de tamanho, se fragmentando, elas estarão sendo disponibilizadas para toda a cadeia alimentar dos oceanos. Então, essas cenas que chamam muito a nossa atenção em fotos de grandes animais marinhos, grandes mamíferos e aves muitas vezes estranguladas ou com o estômago cheio de plástico, tampinhas, etc… Isso é muitas vezes apenas uma parcela do problema, porque tem toda a parte microscópica que é invisível pra gente, que vai gerar consequências nos organismos menores, que vão ser vetores para os maiores, e nos quais são alimentos tanto pra eles, quanto pra nós. Então, esses fragmentos devem estar entrando na cadeia trófica via alimentação pelo zooplâncton, que são animais muito pequenos. Esses zooplânctons comerão essas partículas e podem estar bioacumulando e biomagnificando esse problema através da alimentação dos peixes e nós nos alimentando de peixes. Então, hoje a gente já sabe, através de estudos, que o plástico já está tanto distribuído na grande quantidade da água potável, assim como em grande quantidade dentro da carne de vários peixes e também já foi encontrado em fezes de humanos. Então, já está provado, que esse plástico, que sai às vezes de um rio mesmo sendo de uma região muito distante do mar ele pode servir de alimento para um peixe, que será pescado e um humano se alimentar dele. Então, está tudo muito ligado, relacionado.

É inegável essa consequência negativa. E agora a gente tem que saber lidar, evitar e diminuir já que a expectativa é que esse problema ainda aumente.

Oerj – As pesquisas apontam que a maior parte do lixo plástico encontrado nos oceanos tem origem em terra. Como se resolve esta questão?

Fernanda Piedras Essa questão deve tentar ser resolvida com a união de todos, principalmente o poder público, que deveria levantar essa questão e ampliar campanhas de educação ambiental, para que todos possam estar conscientes das consequências. É fato que nós devemos diminuir o consumo, principalmente dos plásticos que tem a utilização de uma vida, que seria o clássico “canudinho”, uma “sacolinha”, uma “garrafinha” d´água. Embora estes não sejam os campeões, são os mais encontrados nas praias e seriam os itens mais fáceis de serem substituídos.

Assim como já existe um pouco da educação ambiental por causa da polêmica do canudo, muitas pessoas deixaram de usar e tem pessoas que tem seu canudo próprio. A gente pode fazer isso também com uma sacola, uma garrafa. Cada um pode carregar sua sacola de pano, usar sacola de papel, carregar sua garrafa de vidro, de inox, de um material retornável, que não seja o plástico ou até um plástico, mas que você use a sua própria, que não use só uma vez, que não compre a garrafinha. Na verdade, são pequenos gestos que estão à disposição de todo mundo que tiver consciência e quiser mudar. Além disso, é claro, o ideal é a questão do tratamento do esgoto, de todos os efluentes, do tratamento do lixo. O ideal é que a economia circular fosse aplicada, ou seja, aqueles que produzem o material plástico se responsabilizassem por coletar e por reutilizar, fazer com que aquele produto seja mais uma vez usado para o mesmo fim ou reciclar. Um dado mundial: apenas 9% do lixo plástico produzido até hoje foi reciclado. Sabemos que no Brasil esse percentual é de apenas 1,2% em média. Então, a reciclagem ainda não está sendo uma solução. O que a gente pode fazer é diminuir o consumo. Os poderes públicos tem que criar uma legislação que coíba isso, que cobre das empresas uma mudança rápida de comportamento.

Oerj – A educação e conscientização ambiental nas escolas, como ensino extracurricular, seria uma alternativa positiva para amenizar o problema?

Fernanda Piedras A educação ambiental como forma de uma disciplina extracurricular ou de um assunto que entre nas outras disciplinas na educação básica e mesmo na média e superior é muito importante. Aproveitar mais na educação básica, pois as crianças aprendem muito rapidamente e são vetores para toda a família, para todo o círculo delas. Muitos passos da educação ambiental não são difíceis. É só a gente inserir esses conceitos de consumir menos ou de consumir materiais alternativos e não desperdiçar, além de saber do seu direito de cobrar atitudes e iniciativa dos órgãos responsáveis. Também é possível desenvolver ações como tratar e utilizar o lixo orgânico como adubo. Então, essa seria uma forma de separar o plástico do restante do lixo e empregar uma utilidade concreta nessa atitude.

Oerj – Em matéria exibida pelo Jornal Nacional de 19 de setembro de 2018, que teve a sua participação, nos foi revelado que algumas “pretensas soluções” fazem, na verdade, é apenas retirar o resíduo plástico do mundo visível para o invisível, gerando como consequência o chamado microplástico, como é o caso dos plásticos produzidos com materiais “oxibiodegradáveis” mostrados na citada matéria. Quais os principais prejuízos ao meio ambiente provocados por estes materiais?

Fernanda Piedras Desde o ano passado existem algumas ações que visam substituir sacolas de plástico normais, por sacolas de plástico “oxibiodegradáveis”. A maneira como foi inserida essa lei, acredito que fez com que grande parte da população pensasse que era um problema que estava sendo resolvido. Acontece que esse material “oxibiodegradável” significa que ele pode ser degradado um pouco mais rápido do que o plástico normal. Mas ele ainda é plástico, ainda é feito de derivados do petróleo, muitas vezes tem derivados de cana de açúcar também, mas ele precisa de condições específicas para ser biodegradado pelos organismos, geralmente são altas temperaturas entre outras questões de pressão, a presença de microrganismos em elevada quantidade, etc…  E essas condições, geralmente feitas em estudos, são realizadas em reatores, em locais específicos. Então, ali, com todas essas condições controladas a gente vê uma degradação mais rápida. Mas, sabemos que o que está sendo feito é apenas uma troca – ou de canudos, ou de sacola ou de outros elementos – de um produto por outro. Porém, quem é que fica com a responsabilidade de coletar essas sacolas, levar para essas condições e fazer essa reciclagem?

Qual é o tratamento? Qual é o posterior? Depois de feita essa sacola, a população as usará da mesma forma. Então, a gente imagina que esse lixo, esse plástico “oxibiodegradável”, vai seguir o mesmo rumo das outras. Vai chegar até o aterro sanitário, em condições que não vai ter tudo que se espera para essa degradação rápida. Muitas vezes vai chegar no oceano e não vai ter essa temperatura ideal, essa concentração de organismos, ou seja, está sendo feita uma troca que não significa que haverá alguma vantagem para o meio ambiente, e a população é levada a crer que está fazendo uma troca “verde”, uma troca saudável, uma troca inteligente, mas não tem nada garantido que isso vai acontecer. Então, o ideal mesmo é que a população possa ter acesso e conhecimento dessas informações de forma ampla, clara e transparente.

Oerj – Quais as principais soluções e medidas os poderes legislativo e executivo nas esferas municipais, estaduais e federal, precisam tomar para resolver definitivamente este problema da poluição causada pelo plástico nos oceanos?

Fernanda Piedras – Principalmente deveriam ser feitos projetos de educação ambiental, assim como foram feitos para outras questões importantíssimas, como a prevenção ao fumo. Por que não fazer uma ação de educação, de conscientização com toda a “força” na televisão e em todas as demais mídias para que as pessoas se sintam impelidas e tenham conhecimento para mudarem comportamentos?

Oerj – Quais as atitudes que a população pode tomar no seu dia-a-dia para evitar ou reduzir a poluição plástica de rios, mares e oceanos?

Fernanda Piedras Felizmente, eu já tenho visto muitas pessoas utilizando algumas alternativas, principalmente no seu dia a dia fora de casa, carregando a sua sacola, por exemplo, a sua sacola reutilizável, retornável de pano. Muita gente carregando a sua garrafinha, muita gente reciclando, por exemplo, vidros. Tudo o que a gente compra de vidro em casa dá pra lavar e reutilizar. O plástico mesmo é inegável a sua necessidade para muitas coisas, por exemplo, eu uso potinho de plástico para guardar comida em casa. Não é o ideal. O ideal é o de vidro, mas ele é ainda mais caro. Não digo para cortar isso, mas cortar sim os plásticos que a gente usa só uma vez. Não utilizar, realmente recusar a sacola plástica, canudo plástico e a garrafinha.

Nos restaurantes que você frequenta pode sugerir: por que você não troca o saquinho dos talheres por papel? Por que não deixa simplesmente solto como era antes? Então, eu já estou vendo essas atitudes serem incorporadas de forma mais fácil. Agora, tem outras, principalmente nessa questão microscópica, dos microplásticos, que muita gente não sabe, mas que também é fácil de mudar. Tem muitos produtos, por exemplo, de higiene que vão estar mais no seu dia a dia em casa.

Muitos produtos de higiene tem microplásticos como alguns esfoliantes, que  utilizam micropartículas de plástico tanto em produtos de beleza, como em pastas de dente, o pessoal tem que tentar não usar isso, assim como os cotonetes, que foram feitos de plásticos, mas já existem cotonetes feitos com papelão. Vários utensílios de plástico hoje em dia já possuem versão em outros materiais, como escova de dente, que é um utensílio que tem baixíssima reciclagem.

Existe hoje em dia escova de bambu. Claro que todas as alternativas ainda são mais caras, o que dificulta e até mesmo inviabiliza. Então, custa para o pessoal incorporar e aceitar a mudança. Mas acho que vale a pena. Outra coisa também para fazer na rua é fazer compras a granel. Essas são questões que a pessoa pode usar no seu dia a dia.

Carregar kits e poder fazer escolhas. Preferir ir num bar que serve a cerveja num copo de vidro do que no de papel. Às vezes é uma questão de escolha mesmo. Mas acho que tem muitas ações que são muito acessíveis.

Oerj – Na sua visão, qual o tempo de vida sustentável, se podemos assim dizer, a humanidade dispõe, se estes impactos negativos a estes ecossistemas não forem paralisados?

Fernanda Piedras – Nos últimos anos, principalmente em 2019, saiu um relatório com uma compilação de dados e o que se imagina é que até 2030, se as coisas continuarem como estão, vai dobrar a quantidade de plástico que tem nos oceanos. Então, já está comprovada a degradação de muitos habitats. Já é visível as consequências negativas em rios na região costeira e regiões oceânicas bem afastadas da costa. A gente já sabe de estudos que mostram o comprometimento da vida em vários níveis tróficos (de nutrição) em relação à saúde humana. Nesta altura, a gente já está bebendo água com microplástico e tem estudos que mostraram que em todos os continentes a maioria da água potável tem microplásticos. Então, o plástico já faz parte do nosso cotidiano, é uma coisa que não tem mais como voltar atrás. O impacto negativo já começou e agora não tem mais volta, o que precisamos fazer é tentar diminuí-lo.

Oerj – Qual o papel efetivo dos departamentos de Oceanografia nessas questões alarmantes à sobrevivência humana e quais apoios governamentais e do capital privado, nacional e internacional, tem recebido?  

Fernanda Piedras – Na faculdade de Oceanografia da UERJ o nosso grupo do laboratório de pesquisa do fitoplânctom tem participado de pesquisas aqui na região relacionadas com microplástico. Em 2018, fizemos algumas coletas na região da Ilha Grande, para conhecer melhor a ecologia de vários aspectos dessa região. As analises das amostras, coletas na coluna d´água de vários pontos encontrou-se muito mais plástico do que se imaginava e com uma grande variedade de microplásticos.

Microplástico é toda a parte de plástico menor do que 5 micrômetros, então são aqueles que são produzidos já de tamanho pequeno ou são aqueles que foram fragmentados e estão nessa fração.

Além desse estudo que foi realizado na Ilha Grande, estamos fazendo outro estudo, que inclusive é o objetivo da monografia de uma aluna do curso de Oceanografia, que objetiva entender a relação da maré com o aumento ou diminuição do aporte de microplástico na Praia Vermelha.

A praia vermelha é um local aqui na zona sul do Rio de Janeiro onde tem bastante atividade de recreação e turismo. Neste sentido, há diversos trabalhos na baía de Guanabara por grupos de pesquisa que apontaram uma grande concentração de microplásticos.

Além disso, tem outro projeto desenvolvido pelos alunos aqui da faculdade que se chama “Stand up Patch”, que também leva informação e utiliza as garrafas patchpara fazer pranchas de stand up. É uma forma divertida, lúdica, útil de fazer a própria reciclagem.

Então, é um grupo de alunos que a gente tem muito orgulho, que está fazendo algo bem legal para conscientizar a população, pois é um dos eixos mais importantes, para que todos juntos, além dessa necessidade urgente de legislação, é claro, todos possam fazer alguma coisa melhor.

Por

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e