Vaga, vaga-lume. Só abaixe a luz para ninguém te ver

Vagando pela vida como um pirilampo descontrolado? Tenho a resposta, não a solução

Um dia, um vaga-lume entrou na minha sala. Eu era pequena e nunca tinha visto uma coisinha com lâmpadas na cabeça. Ele era tão fofo, mas tão fofo que eu queria colocá-lo num pote. Peguei, pus e fechei o pote. O carinha começou a apagar sua luzinha e eu, imbecilzinha que era, fiquei olhando, olhando e olhando. Cansei. Fui embora, mas antes que ele secasse, porque achei que eram bichinhos acesos por fogo, o soltei. Mas não vi seu farolzinho de novo.

Anos se passaram, muitos na verdade, e nunca mais tranquei essas criaturinhas fofas como ele num pote. Anos depois, voltei a vê-lo, só que sempre com dois faróis, tipo bi-iodo, não mais o de luzinha mono. E então vem o pirilampo e o vagalume. Qual é o quê? Titio Google explica: os pirilampos geralmente são de cor marrom escuro e possuem esse nome porque suas luzes ficam na cabeça.

Para esclarecer, eles têm dois pequenos órgãos de luz bioluminescentes na parte de trás da cabeça e uma sob o abdômen. Já nos vaga-lumes, entretanto, a luz é emitida somente pelo abdômen. Então fui enganada por toda a minha existência e aquilo que prendi num pote era um pirilampo? Descobri, então que o de farol bi-iodo é o pirilampo. Uma luz só de baixo do capô é o vaga-lume.

Dois faróis: pirilampo. Anotado

Ultimamente não tenho mais visto vaga-lumes vagando por aí à noite. Aqui, no meio do mato onde moro, deveria vê-los, mas só vi dois até agora. Fui pesquisar, como sempre: os vaga-lumes estão ameaçados de extinção em todo o mundo por causa da perda de seus habitats naturais, uso de luz artificial e pesticidas. E não gostam de luz, porque a iluminação das cidades interfere na reação química do corpo deles, então a bioluminescência é anulada e interfere no ciclo reprodutivo destes besouros. Aí acaba o amor.

Ainda acredito que os vaga-lumes estão escondidos, não ameaçados de extinção, porque as pessoas, todas, decidiram que quem brilhar mais alto será o dono do mundo, não importando a inteligência, que isso nem o Google resolve. Não. Nada disso. Quem ameaça a vida de um vaga-lume pode ameaçar uma cidade, ou um país, quiçá, o mundo. Dizem que ter um vagalume dentro de casa e vê-lo, pode ser um sinal muito positivo e de boa sorte. Não apenas isso, mas pode indicar amor, felicidade e luz em sua vida nesse momento. Dessa forma, ver um vagalume sempre é um bom sinal e pode sim indicar oportunidades.

Eba, um vaga-lume! Dia de festa!

Afinal, qual a finalidade do vaga-lume, além de vagar sua luzinha pífia pelas noites? Ora, ora, os vaga-lumes são indicadores da saúde do meio ambiente, se estão sumindo é porque o seu habitat está sendo degradado com a poluição dos rios, com o aumento dos pesticidas e com a iluminação artificial das cidades. E por que a luz das cidades afeta tanto essas lampadinhas aladas? Simples, meu amor, a fêmea usa a sua luz para atrair o macho, mas apenas quando a luz do ambiente está mais baixa do que a da lua cheia. Com o excesso de luz que produzimos, a fêmea quase nunca encontra as condições ideais e o futuro da espécie se vê ameaçado. Ou você acha que aqui é só você que quer um escurinho? Temos, assim, uma série de providências para que os vaga-lumes voltem à festinha do iê-iê-iê:
– Evitar o uso de pesticidas químicos;
– Não eliminar vermes, caramujos e lesmas – assim, as larvas dos vaga-lumes podem se alimentar;
– Desligar as luzes sempre que possível.

Ter grama alta em casa é ótimo para atrair vaga-lumes, pois são noturnos e geralmente ficam no solo durante o dia. À noite, a balada vai para o topo da grama mais alta, sinalizando para os amigos que a festa começou, acendendo-se. Safadinhos…

Um dia, esses que se acham vaga-lumes/pirilampos que vagam pelas telas de TV, pelos palanques e entrevistas diárias perceberão que a sua luz podre e ridícula de hoje não é a vida do vaga-lume de amanhã, nem de longe! E que as oportunidades possam ser mais reais do que fechar um pote e esperar a luzinha se apagar. Para esses inúteis, meu amplo e total desprezo com uma vassourada só, bem dada.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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