Umas boas verdades sobre ser chato

Diz a má, e verdadeira, língua que chato não nasce, aparece. Quem nunca teve um chato no seu cangote, não teve vida

Em primeiríssimo lugar, quero deixar claro que essa coluna não tem o intuito de ofender ninguém, tampouco enxotar qualquer leitor das minhas singelas linhas. Tenho uma memória infernal para tudo aquilo que ninguém quer se lembrar. Acho que esse deve ser um dos carmas que devo carregar e nunca reclamar.

O fato é que os chatos sempre estão no meio das conversas, roubando suas ideias, tirando você do foco, azucrinando nas ruas, nos banheiros, na sala, na cozinha, no celular, na vida. Quando o chato aparece na sua casa e você, educado que é, abre a porta. Já era, perdeu um dia inteiro, um churrasco, uma soneca numa tarde de sábado, um dia de silêncio. Sim, porque o chato não para de falar, adora ouvir sua própria voz e sempre tem uma solução para um problema que ele mesmo causou. É a mascote inversa.

Tive alguns chatos que absolutamente foram excomungados da minha vida, mas nunca antes de fazerem as coisas mais bizarras, o que, obviamente, me deu carta branca para a vingança branca. Branca no sentido de não machucar ninguém, nem fisicamente, muito menos psicologicamente. Só se comer um pacote de bolachas caninas entrar no rol de danos psicológicos. De qualquer forma, o dano foi apaziguado, pois biscoito de cachorro é balanceado, deixa o pelo viçoso, as fezes firmes e o caráter apurado. E o chato sumiu para nunca mais latir na minha casa.

Eis que surge entre nós a internet e seus chats, cheios de chatos. Sem trava-língua, chatos entravam nos chats como carrapatos querendo se pendurar na sua conexão discada, usando todas as teclas de uma só vez, querendo ser o máximo, para não dizer o mínimo. Chato pra caramba! Nasceu, apareceu, conectou. Já era.

E aqueles chatos que chegam na sua casa num domingo qualquer, bem cedo, só com o intuito de pedir uma ajuda para uma coisinha boba qualquer, nadinha, total bobagem. Pode entrar? Na sua educação familiar, pode sim, aceita um cafezinho? Sim, claro. tem um biscoitinho também? Água? E essa cerveja na geladeira, é de alguém? Não, a gente gosta de estragar as cervejas! E qual era a ajuda que precisava? Nenhuma. Dor de corno, precisava de um pouco de companhia (???) para lavar a alma. Assim, o chato vem com sua alma de bom samaritano e quer ajudar a lavar carro, quintal, cachorro, cozinha. Qualquer coisa. E não vai embora nunca. Lá se foi seu domingo de preguiça embora.

De acordo com um site meio de psicologia, bem chato aliás, existem quatro tipos de chato:

  1. Chato maquiavélico: aquele que se concentra apenas no interesse e no ganho pessoal e, por isso, costuma ser desagradável basicamente por não se importar com os outros. É o tipo de chato que reconhece seu mau comportamento e sequer tenta parecer uma pessoa melhor. Cable Guy, por exemplo, era um.
  2. Chato estrategista: ele também reconhece que se comporta de forma inadequada, mas, ao contrário do maquiavélico, tenta esconder as suas características desagradáveis. No trabalho, é o tipo de chato que vive elogiando chefe e, se puder, puxa o tapete dos colegas. Seu coleguinha faz assim?
  3. Chato objetivo: é o tipo que se sente superior aos demais e simplesmente ignora quem considera pouco digno de sua companhia. Ele não reconhece as vontades e o sucesso alheio e gosta de se mostrar “intocável”. Sabe aquele “coleguinha nerd” da classe? Pois!
  4. Chato sem noção: provavelmente o tipo mais comum, que sequer faz ideia de que os outros consideram suas brincadeiras e atitudes desagradáveis. É basicamente o “mala” que não pensa antes de falar e, invariavelmente, causa desconforto aos demais. Aquele cara que comeu biscoito canino e pediu bis, só pra não perder a pose. Trouxa.

Os tempos mudaram e os chatos se aperfeiçoaram; agora eles usam o whatsapp, o telegram, o instagram, o facebook e todas as redes sociais, que logo mais serão antissociais, tamanho volume de chatos invisíveis que aparecem. Ou surgem. Perigo à vista? Bloqueio neles, sem dó. E o chato do telemarketing, da cobrança inexistente? O chato da vez. Ele pode ser atualizado como O MALA, O PENTELHO, A CASCA DE FERIDA. Esse deve ser Ph.D. em pentelhice.

Chatotorix que se cuide

Oswaldo Montenegro, o Chatotorix da nossa época, descreve o chato com a perfeição de quem é um deles:

Ah, todo chato é bonzinho / Nunca nos faz nenhum mal / E arranha um violão / Diz que inventou uma música / E toca as seiscentas que fez / E quando você abre a boca e boceja / Ele toca tudinho outra vez / Ah, todo chato é gosmento mas não há como evitar / Eu sou um chato e meu Deus não me aguento / Só me tacando no mar

Acredito que chato não devia ser taxado de chato, a chatice é um problema sério. Pros outros. Aguentar a chatice é pior que aguentar uma dor de barriga num lugar em que não tem banheiro, nem papel. Aguentar chato no seu calcanhar é pior que aguentar uma coceira ou um pernilongo no seu ouvido a noite toda, porque pernilongo você tem como matar.

É verdade, chato não nasce, aparece. Posso, então, tacar no mar?

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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