Uma sociedade esquizoide do Século XXI

Bolsonarismo é uma seita de fanáticos. Não se resolve os diversos problemas do Brasil isolando as ciências em nichos

Sendo eu mesmo um apreciador de longa data das obras de ficção especulativa, assevero que o Brasil de 2020 é um lugar tão distópico que até Masamune Shirow encontraria dificuldades para idealizar algo semelhante. Por quê? O atual inquilino do Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro, ignora o fato de que o seu governo está sem ministro da saúde há praticamente um trimestre e que a hecatombe do COVID-19 segue alquebrando o país diariamente.

O líder do Poder Executivo Federal se manifesta incapaz de aplicar as verbas extraordinárias que o Congresso permitiu que fossem utilizadas no intuito de resgatar a sociedade durante essa turbulência que multiplica o caos na saúde pública, com o Tribunal de Contas da União (TCU) exigindo que o superintendente do Palácio do Planalto justificasse tamanha desídia em uma audiência oficial.

Diagnosticado com o vírus SARS-CoV-2, o trigésimo oitavo Presidente da República Federativa do Brasil sequer obedeceu a quarentena recomendada pelos médicos. Ao contrário: descartou o uso da máscara de proteção; trafegou por ruas e avenidas cumprimentando transeuntes; incitou aglomerações e exibiu para as guaripés uma embalagem do placebo hidroxicloroquina. Galhofa? Escárnio? Motejo? Não é correto rir dos acometidos por transtornos psicóticos.

Se tantas demonstrações de insanidade compusessem uma piada, seria de extremo mau gosto. Devido ao medo de uma ameaça comunista inexistente somado à rejeição da política, o Brasil terminou elegendo um bufão que se vangloria da própria estupidez e que, apesar dos discursos em função da ordem, transgride intencionalmente as medidas de segurança. O país não tem um Chefe de Estado, e sim um protozoário forjador de maledicências e avesso ao trabalho. A “inocência” da sociedade (aspas pelo eufemismo) certamente fez com que os brasileiros acreditassem que optar pelo nome de Jair Bolsonaro puniria algum inimigo da pátria, mas a navalha da direita pós-moderna também retalhou o curral de fanáticos que apoiam o ex-militar demagogo.

Como se já não bastasse todo esse afluente de desatinos em território nacional, os principais veículos de mídia do planeta divulgaram imagens do Presidente brasileiro erguendo cartelas do alcaloide como um ostensório perante uma legião de romeiros fascinados com os ritos sacrossantos. Para estes, a cloroquina é o objeto litúrgico que salvará a humanidade da COVID-19 milagrosamente.

Qualquer pessoa mentalmente incólume e com o mínimo de instrução científica acaba se perguntando os motivos que fazem Jair Bolsonaro responder que a solução de todas as adversidades pandêmicas incide no composto heterocíclico e em seus derivados. Pior: como é possível que haja uma caterva de obtusos depositando fé incondicional em uma substância ratificada como inócua pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por laboratórios e centros de pesquisa altamente conceituados? Ora, se o povo venera ou abomina locais hipotéticos — Paraíso e Inferno — e jogos de cartas esotéricas, qual razão impediria tal sociedade de endossar um item abençoado pelo “redentor da nação”? A ciência jamais neutralizou as superstições dos brasileiros.

O elemento que conecta o fármaco à religião é a simples crença bolsonarista de que tal produto é indiscutivelmente benéfico e ponto final. Essa ideologia, oriunda do campo neopentecostal, é uma forma de extremismo vulgar que possui a idolatria e o credo absoluto na figura de Jair Bolsonaro como escopo. Seus caudatários devem aquiescer com todos os seus hebetismos. Questionar as atitudes ou suspeitar dos juramentos do Comandante Supremo das Forças Armadas do Brasil é expressamente proibido. Caso Bolsonaro resolva substituir as drágeas quinolínicas por broas de milho ou soda cáustica, a litania de seus devotos sofrerá uma transmutação instantânea. Nada obstante, a fervorosidade e o suicídio gnosiológico dos bolsonaristas permanecerá em voga. Isso faria com que a inveja provocasse um aneurisma em Tertuliano de Cartago.

É válido ressaltar que toda seita contém um jirau de oráculos e sacerdotes. Pseudointelectuais como jornalistas que abandonaram o compromisso social; filósofos desprovidos de ética e raciocínio holístico; juristas que menosprezam a deferência que a Carta Magna brasileira demanda e professores que nunca contribuíram na educação de indivíduo algum são os maiores fomentadores dessa expedição contra as informações fidedignas. Segundo essa quadrilha de inúteis, a evidência científica de que os antimaláricos destroem os vetores da COVID-19 é a propaganda de Jair Bolsonaro sobre as dádivas do invólucro farmacêutico e que, se a imprensa vêm tecendo críticas à ambrosia neoconservadora, é sinal de que o pancresto detém qualidades celestiais.

Essa farândola de apedeutas busca transmitir um perfil erudito, refinado e multisciente; contudo, suas divagações são repletas de calúnias e estroinices, com dados espúrios e intencionalmente deturpados via malabarismo silogístico. Isso é feito até que o material distorcido se encaixe nas lacunas do senso comum a fim de homologar suas opiniões rasas e intolerantes A “dedução lógica” que esses mesossauros confeccionaram provém do morbo que atingiu Jair Bolsonaro com o SARS-CoV-2 e que o dirigente do Gabinete Presidencial não veio a óbito após a ingestão do hidróxido de cloroquina. O reducionismo metodológico involuntário foi convertido em realidade científica incontestável! Quem desconfiar é um herege que anseia pela ocultação da fórmula mágica consagrada pelos hierofantes do neoliberalismo.

O que essa malta de ignaros denomina como “racionalidade” é prontamente esfacelada nos quinze primeiros minutos de uma aula de noções básicas de filosofia, onde se explica o que constitui as falácias de afirmação do consequente e de negação do antecedente. Para ilustrar a banalidade dessas alocuções, é como recitar que todo inglês é fã da banda King Crimson porque Robert Fripp, mentor do grupo, nasceu na Inglaterra. Em resumo, são teses ridículas!

A demência que fragiliza o Brasil de maneira acintosa é tão corrosiva que decisões salutíferas adquiriram rótulos conforme as preferências ideológicas de cada um. Portanto, não interessa o que a ciência alega no tocante à proteção facial em ambientes compartilhados; vacinas preventivas ou isolamento físico se o rancor e a presunção dos mentecaptos que odeiam o conhecimento verídico é sobressalente ao mundo factual.

A liquidez pós-moderna que trespassa a sociopolítica brasileira neste átimo proporcionou meios do dogmatismo extrapolar os círculos hermenêuticos que deveria atender com exclusividade, isto é, a metafísica do além-túmulo e o sentido da vida. Os demais obstáculos que circundam o espírito do tempo não se desintegram com a restrição das ciências exatas, humanas e biológicas em nichos. A economia; a sociologia; o direito; a medicina; a estatística e mais uma série de outras disciplinas retratam uma nítida coalescência e ajustam a política. O espectro da direita, por sua vez, almeja a implementação de uma teocracia sob as rédeas de Jair Bolsonaro: um presbítero estulto que zomba da nação com uma postura inerte diante de centenas de milhares de cadáveres hauridos pela COVID-19 e que ainda é elogiado por tamanho descaso. Que as divindades tenham misericórdia deste povo esquizoide — isso se houver concretude em tais abstrações.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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