O cupim nosso de cada dia

Aleluia, içá, siriri. Ou somente cupim. Aquele que derruba nossas árvores. E a nossa paciência

Mudamos de estação. Primavera, essa linda, com todas as nuances de cores de flores variadas. Esse plural também combina com a variedade de insetos, sejam eles rasteiros ou alados. Todos inescrupulosamente voam no seu nariz, ouvido, boca e qualquer orifício exposto. Está certo que a Primavera já está quase no fim, em breve teremos o Verão a pino sobre nossas cabeças e sob nossos mosquiteiros.

Enquanto o calor máximo não chega, vem à tona uma praga de um inseto pentelho além do normal: os siriris. Esses bichinhos irritantes, para nossa alegria, quando perdem as asas se tornam cupins e, pasmem, comem todas as madeiras que aparecerem na frente. Mas tudo tem sua compensação e nenhum inseto está aqui na Terra para nos azucrinar. Na verdade, todos têm sua função. Menos a barata, que essa está aqui com o intuito único e exclusivo de meter medo nas meninas mais frágeis e em alguns meninos também. Essa cidadã um dia vai merecer uma coluna especial. Não hoje, dia de falar dos nossos ‘amigues’ cupins.

Fernando Gonzales, sempre genial!

Insetos sociais, são capazes de criar cupinzeiros que são extremamente úteis às plantações. Obviamente o são depois de descobertos, desapropriados, derrubados e moídos. Dessa maneira, o cupinzeiro pode aumentar a durabilidade de batatas, feijões, vagens e outros alimentos recém-colhidos, permitindo que fiquem estocados por muito tempo, sem pegar brocas. Isso ninguém mostra. Nem a Globo.

O cupim, ao perder as asas, tem que procriar, senão acaba morrendo sem saber e conhecer todos os prazeres da vida terráquea e terrena, já que uma não tem necessariamente nada a ver com a outra. Pois bem, caindo as asas, podem-se ver casais desesperados por um cantinho escuro pra poder perpetuar a espécie. É um tal de ver duplinhas de patinhas dadas andando pra lá e pra cá até que encontrem um muquifo e já era: “Vem cá, mulher, ‘vamo arrancá’ umas farpas.”

Esquecendo o sexo um pouco, os cupins ajudam, e muito, na agricultura. Eles cumprem funções importantes na natureza. Como usam a celulose das plantas para obter alimento, ajudam a decompor madeira morta. Também colaboram para aerar e drenar a terra, tarefa indispensável à fertilidade das florestas. É como um urubu de madeiras. E como eles fazem aquelas montanhas de terra? Essas são feitas de partículas de solo retiradas pelos pequenos cupins operários e misturadas à saliva para formar uma substância dura semelhante ao tijolo, resistente a tudo, exceto a um predador persistente. Um tamanduá, por exemplo. Que nojo, casa feita de cuspe.

Em suma, um cupim não atrapalha em nada, mas uma revoada deles é como um arrastão do MST, quando descobre terras ditas “improdutivas” para construir os seus acampamentos. Péssima analogia, cupim é povo trabalhador. Imagine, se uma colmeia já é lotada de afazeres, assim é o cupinzeiro, com suas Rainhas, que fazem muito pelos seus, como elas conseguem invadir terras alheias?

A sua rainha, por sinal, vive de 25 até 40 anos, longe de ser uma Elizabeth, mas ela apronta bastante e por muito tempo, afinal, procriar fulltime deve dar um trabalhão. Por causa dessa sua longevidade, já que 50 anos deve ser o equivalente aos nossos 100nto e poucos anos, ela é enorme, quase umas 100 vezes maior que o operário, o qual tem que tratar diuturnamente dos caprichos de Vossa Alteza praga.

Comida (que não deve ser pouca), limpeza do salão, contas a pagar e a receber, criar as crianças todas e atender aos chamados diários da madame é tarefa hercúlea para os pobres operários. Não é a toa que as revoluções dos ativistas acontecem. Enquanto isso não acontece, porque eles não têm o dia todo, vamos nos irritando com essas coisas que voam sem destino, nas nossas cabeças, nos nossos pés e cabelos. Até caírem as asas e a festa começar de novo. Aleluia!

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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