Troy Kotsur faz história como primeiro ator surdo a ganhar o Spirit Award

Kotsur teve poucas oportunidades na TV e no cinema, ele acabou encontrando liberdade e estabilidade no teatro

Troy Kotsur fez história como o primeiro ator surdo a vencer o Film Independent Spirit Awards 2022 no domingo (27). O ator ganhou o prêmio de melhor coadjuvante masculino por seu papel em No Ritmo do Coração, no qual interpreta o pescador surdo Frank Rossi.

Kotsur discursa no Film Independent Spirit Awards 2022

Depois de agradecer ao público, Kotsur disse que ficou emocionado por estar na mesma sala que tantos outros artistas.

“A diferença entre Gloucester, Massachusetts, e aqui em Santa Monica é que um pescador surdo não pode pagar uma cerveja em Santa Monica: é caro”, disse o ator surdo por meio de um intérprete no palco. “É realmente interessante comparar os dois lugares.”

Ele acrescentou que está “muito grato a toda a comunidade pesqueira de Gloucester que apoiou o filme”.

Kotsur concluiu seu discurso agradecendo à esposa e à filha, que não puderam comparecer ao show, mas estavam lá em “espírito”.

Nos bastidores, Kotsur agradeceu à Emilia Jones, que ele esqueceu de mencionar no palco, e refletiu sobre o significado de seu reconhecimento por seu papel no filme.

“Sinto que recebi um doutorado honorário como indicado por causa da minha longa jornada”, disse Kotsur. “Sabe quanto tempo demorei para chegar aqui? E leva muito tempo para os médicos obterem seus doutorados, então eu sinto o mesmo. E realmente, foi uma jornada extremamente difícil. E o resultado final são as escolhas que fiz me levaram a onde estou hoje. E a vida é um jogo; é como um jogo de xadrez. Requer muita estratégia, e se você atingir barreiras e frustrações, você tem que encontrar o caminho de volta, mais ou menos como o cavalo no jogo de xadrez pulando nas outras peças até que você finalmente consiga dar o xeque-mate. E para mim, é o reconhecimento. E então era apenas uma questão de tempo antes de acontecer e eu realmente tive que confiar no meu instinto, meu instinto e meu coração e, realmente, essa é a coisa mais valiosa que eu tenho.”

Mais tarde, ele agradeceu aos produtores de No Ritmo do Coração por terem a confiança de lançar atores surdos.

“Às vezes me sinto como um pequeno inseto no chão e agora sou um grande inseto”, disse Kotsur. “E agora eles podem finalmente me ver… nós crescemos e os surdos podem mudar para melhor. Hollywood pode ter corações e mentes abertas e começar a trabalhar e dar oportunidades e inclusão a grupos mais diversos. E é isso que é tão importante no cinema independente por causa de sua tomada de risco e sua crença e sua paixão e seu trabalho em equipe e colaboração que fazem tudo acontecer.”

A vitória do ator na categoria vem depois que ele fez história como o primeiro ator surdo a ganhar um prêmio individual do Screen Actors Guild no mês passado.

No Ritmo do Coração:

No longa, ele interpreta Frank Rossi, um homem surdo que lidera um pesqueiro, em Massachusetts, e lida com a filha Ruby (Emilia Jones), intérprete da família que planeja mudar de vida e estudar em uma faculdade de música.

A atriz Marlee Matlin, que interpreta sua esposa, foi a primeira pessoa surda a ser indicada e vencer um Oscar. Ela concorreu em 1987 e ganhou o prêmio de Melhor Atriz pela atuação em Filhos do Silêncio (1986), de Randa Haines.

Kotsur e Marlee Matlin em No Ritmo do Coração

Por No Ritmo do Coração, Kotsur foi nomeado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Na categoria, Kotsur concorre ao lado de Ciarán Hinds (Belfast), J.K. Simmons (Apresentando os Ricardos) e a dupla Jesse Plemons e Kodi Smit-McPhee (ambos de Ataque dos Cães).

Em sua excelente atuação, Kotsur tem apenas uma frase falada, mas, felizmente, é uma frase maravilhosa. Ao incentivar a filha, interpretada pela talentosa Emilia Jones, a perseguir seus sonhos de cantar e ir para a faculdade diz emocionado em voz alta: “Vá!”.

Para ele, essa única palavra exigiu muito ensaio e coragem para pronunciar algo que ele mesmo não podia ouvir em um set de filmagem. Mas ele já havia feito isso antes. Anos atrás, como Stanley Kowalski em uma produção do Deaf West Theatre de Um Bonde Chamado Desejo, exclamava “Stella!”, noite após noite.

“Às vezes eu pergunto ao público como é a minha voz”, disse Kotsur em linguagem de sinais em entrevista à Jake Coyle.

Historicamente falando, Kotsur é apenas o segundo ator surdo a ser indicado ao Oscar. E, com o “Vá!”, ele espera que sua conquista ressoe como inspiração.

“Espero que os jovens surdos ou com deficiência auditiva possam se tornar mais confiantes e inspirados a perseguir seus sonhos”, comentou Kotsur. “Quero que essas crianças não se sintam limitadas.”

“Ser indicado e receber prêmios, torna-se histórico. Muitas gerações podem olhar para trás e ver isso como um momento de destaque”, disse Kotsur ao portal The Hollywood Reporter recentemente. Na ocasião, ele relembrou que sua colega de elenco, a atriz Marlee Matlin foi a única surda a ganhar o Oscar de Melhor Atriz – Kotsur é o primeiro ator surdo nomeado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

“Filhos do Silêncio foi o primeiro e esperamos que No Ritmo do Coração seja o segundo”, pontuou. “Depois que eu estiver morto e enterrado, gostaria de ter esse legado”, concluiu Kotsur ao portal The Hollywood Reporter.

No Ritmo do Coração ascendeu Kotsur à grande cena hollywoodiana, enquanto faz história para a comunidade surda. Felizmente, a enxurrada de elogios tem sido desconcertante. Vale lembrar que quando foi nomeado para o BAFTA, comemorou tanto que caiu da cadeira. Aceitando o prêmio Gotham de melhor ator coadjuvante, ele falou à multidão que não estava sem palavras, mas “absolutamente incapaz” de se expressar no momento.

“É simplesmente avassalador”, afirmou Kotsur sobre a aclamação. “É impressionante. Sinto que posso morrer feliz, com um sorriso no rosto”. Como citamos acima, a única pessoa que passou por algo semelhante foi sua colega de elenco Marlee Matlin.

Caminhada ao estrelato:

A longa caminhada de Kotsur até o Oscar começou, segundo ele, na escola primária. Com pouca programação de televisão acessível a ele, adorava desenhos animados altamente visuais como Tom e Jerry e os contava alegremente para seus colegas surdos no ônibus. Seu pai, um chefe de polícia, mais tarde o chamaria carinhosamente de “temerário” por começar a atuar. Kotsur estudou atuação na Universidade Gallaudet e depois excursionou com o Teatro Nacional de Surdos.

Frequentando a Universidade Gallaudet, a única escola de artes liberais para surdos dos Estados Unidos, Kotsur encontrou um departamento de teatro forte e acolhedor. A partir daí, ele começou a fazer turnês com grupos de teatro, acabando por desembarcar no Deaf West Theatre uma companhia de teatro sem fins lucrativos de Los Angeles, fundada em 1991. Ele esperava entrar no cinema e na televisão enquanto morava em “Hollywoodland”, como ele diz, mas isso não aconteceu, e depois de décadas de tentativas, ele e sua família se mudaram para Phoenix.

Pois é, apesar de ser formado em atuação, Kotsur teve poucas oportunidades na TV e no cinema – havia poucas vagas disponíveis para atores como ele, nisso, ele acabou encontrando liberdade e estabilidade no teatro. Sua carreira nos palcos iniciou com Of Mice and Men em 1994, ao longo dos anos, ele atuou em cerca de 20 produções da Deaf West – em uma dessas peças, conheceu sua esposa, a atriz Deanne Bray.

Entre os destaques no teatro, ele interpretou Cyrano de Bergerac, na peça Cyrano de Bergerac e estrelou American Buffalo. A diretora Siân Heder viu Kotsur pela primeira vez em duas peças do Deaf West, em At Home in the ZooNossa Cidade.

Luta por visibilidade:

A nomeação de Kotsur ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante chega num momento em que pessoas com deficiências e limitações estão sendo cada vez mais incluídas em produções hollywoodianas, como exemplo, em filmes: “O som do Silêncio”, de Darius Marder, “Eternos”, de Chloé Zhao e “Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski e nas séries “Estação Onze”, da HBO e “Gavião Arqueiro”, da Disney +.

No mundo, estima-se que 360 milhões apresentam algum grau de surdez. Essas informações são muito relevantes e refletem a necessidade quanto ao desenvolvimento de ações inclusivas, capazes de atender milhões de pessoas. Nessa perspectiva, o caminho para a inclusão mais efetiva em expressões artísticas como o teatro, o cinema e a TV ainda é longo. Os motivos são vários, entre eles estão o preconceito, a falta de oportunidades, de acessibilidade e, por consequência, a sensação, por uma parcela dos deficientes visuais e auditivos, de que não haveria espaço para eles.

Kotsur e Marlee Matlin no The Gotham Awards 2021

O próprio Kotsur estava acostumado a ver personagens surdos vitimizados e unidimensionais, mas No Ritmo do Coração apresentava algo que ele raramente tinha visto. Os Rossis de No Ritmo do Coração podem ter de trabalhar um pouco mais, mas são uma família como qualquer outra, com conversas divertidas à mesa e brigas casuais. O Frank de Kotsur também é um pouco libidinoso e profano. Em uma cena em que fala à filha sobre sexo seguro, ele imita um soldado colocando um capacete.

Kotsur que sempre viu outros atores xingarem, se divertiu com a vulgaridade de seu personagem. Ele orgulhosamente se lembra do cabo de guerra do filme com a Motion Picture Association of America (MPAA) depois que No Ritmo do Coração quase recebeu uma classificação R (exigindo que menores de 17 anos assistam acompanhados de um dos pais ou responsável).

Mas para Kotsur, Frank é como um surdo de verdade: “Um surdo trabalhador que simplesmente sobrevive”, disse em entrevista concedida à Jake Coyle.

“Quero que o público tenha uma perspectiva diferente. Quero que eles se livrem de suas noções preconcebidas de como são os surdos”, aconselhou Kotsur. “Existem médicos surdos. Há advogados surdos. Há bombeiros surdos. Muitas pessoas ouvintes não percebem isso”, concluiu Kotsur à Jake Coyle.

Pós-No Ritmo do Coração:

Podemos ver Kotsur na série The Mandalorian, da Disney +, como um Tusken Raider, para o qual desenvolveu sua própria linguagem de sinais. Outros papéis aguardam, assim como uma esperada turnê de palestras para crianças e aspirantes a atores surdos. Mas, por enquanto, ele absorve tudo o máximo que pode.

Por fim, Kotsur é um pioneiro. Graças a ele e a Matlin haverá mais trabalho para atores surdos.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

Jornalista, comentarista de cinema, correspondente no Brasil para alguns veículos portugueses e bacharelando em Geografia pela Universidade Federal de Alagoas.

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