“Tô certo? Ou tô errado?”

Ligo a TV em tempos de pandemia e vejo reprises de novelas que me trazem perguntas que não querem se calar. Afinal, a arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Eis que me pergunto isso todos os dias e não consigo chegar a uma conclusão. A verdade é que elas andam tão juntas que nos dias de hoje fica impossível não fazermos um paralelo. Existem milhares de folhetins e filmes que nos deixam a cada dia mais confusos. Eu mesmo já não sei o que é real e o que é ficção. Um loucura não é? Sempre me pego com essa dúvida, mas é claro que como um aficionado por teledramaturgia e pela sétima arte, sempre encontro um tempo para viajar em suas histórias e tentar fazer um elo ou mesmo uma linha tênue sobre o tema.

Sassá Mutema, o boia-fria que chegou ao poder e mobilizou o Brasil, misturando ficção e realidade.

Às vezes o paralelo é fundamental para se obter uma resposta conclusiva. Hoje me peguei numa chamada na TV de uma reprise do “O Salvador da Pátria”, aquela mesma do Sassá Mutema e a famosa professorinha, vivida pela linda atriz Maitê Proença. Na mesma hora fiz uma pequena viagem no tempo e me coloquei naquele cenário. Não me assustei com o que vi, pois não difere muito do que vivemos hoje em dia. Sempre o poder falando mais alto que os interesses públicos. E o povo, ou melhor, os menos favorecidos sempre sofrendo nas mãos dos grandes vilões cobertos de educação e linhagem.

Nesse momento parei e comecei a viajar por outras tramas que por incrível que pareça traziam à tona todas as mazelas e sofrimento do povo e a manipulação feita pelas “mentes” brilhantes de seu algozes. O pior é que eles os colocaram lá. Nesse instante fiz um regresso para os anos de 1970 e me deparei não com vastos coqueirais e sim com um turbante de um vidente chamado Herculano Quintanilha, jovem ambicioso que vivia de falcatruas e fez sua fortuna às custas da boa fé alheia. Qualquer semelhança é mera coincidência.

Herculano Quintanilha, O Astro, sedutor e carismático. Usou seus truques para subir na vida.

Entre boinas e turbantes adentramos num mundo onde a religião é o ar que se respira e o fruto que ela traz é algo ainda mais assustador. Seria triste se não fosse cômico, ou seria cômico se não fosse triste? Fica a interrogação. O que a novela “Roque Santeiro” nos mostrou foi a forma de enganar toda uma população com histórias de “salvadores da pátria” e “heróis” que vez em quando nos são lançados como tábuas de transposição para o imaginário, pois não passa disso. E o povo acaba elegendo aquele “benfeitor” que se espera levá-los ao bem maior.

“Um Sinhozinho Malta no poder e uma Porcina no ministério”, disse Lima Duarte uma vez.

No final, bem, nessas histórias, em sua maioria, o bem vence o mal. Mas como disse antes, são apenas folhetins bem escritos e roteirizados. Na vida vida continuamos esperando por Sassás Mutemas, Roques Santeiros e quem sabe que os nossos “Herculanos Quintanilhas” enfim passem a nos respeitar um pouco. Viajei por um tempo e olha que o que não faltam são personagens que são tudo que os telespectadores não desejam que tenham similares na vida real. mas ao que tudo indica é justamente o que não falta por aqui. Fico me perguntando quando o jogo vai virar? Quando a ficção irá criar modelos mais dignos com o sofrimento da população e com isso talvez ensinar a seus telespectadores o verdadeiro significado de herói, mito e líder.

De “O Astro” a “O Salvador da Pátria” passando pelo “Roque Santeiro”, o que não faltam são exemplos que desejamos esquecer que fazem parte constante de nossas vidas tão reais. Em tempos de pandemia e vacinação gostaria de saber se os enfermeiros que as aplicam na população estão seguindo as orientações de Herculano ou de Sinhozinho Malta. “Tô certo? Ou tô errado?”

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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