Teve festa no céu, o Dia dos Namorados passou e ninguém o sapo beijou

Engolir um sapo por dia, só um sapo por vez, faz bem para o coração. Dele

Todo ano é a mesma história: Dia dos Namorados, meninas procurando seu príncipe, cada vez mais desencantado. Quando crescem, não sabem mais que porcaria de conto foi esse e, pior, mal sabem a cara que um sapo pode ter. Pois eu vos aviso: o sapo do vizinho pode ser maior e mais bonito que o seu.

Pergunte a você mesmo: quantos sapos você viu durante sua vida até hoje? E quantos deles podem ter virado príncipe e você, de novo, nem viu? Vos digo novamente: sapo bom é sapo de brejo, daqueles bem nojentos, que andam pelas ruas como um saco de cimento. Esses são os sapos de verdade. Engoli-los também faz parte e cuspi-los não é nada aconselhável.

Se procurar um pouquinho só no Google, vai achar ao menos 15 tipos de sapos. Tenho certeza de que existem muito mais, principalmente aqueles sapos diários, que surgem do nada e se transformam a todo momento. Devem ser de outros contos. Acredito que, da minha geração, 95% de nós, quando crianças, tivemos aulas de Ciências e, nessas aulas, aprendemos a evolução dos sapos: ovos, girinos, sapos. Tenho certeza de que em nenhum momento dessa metamorfose tem espaço pra um príncipe. Sapo cururu? Nem na beira do rio. Esse também secou de frio.

E os girinos, coitadinhos, que não sabem o que são, pretinhos, cabeçudinhos, com um rabinho? Parecem mais um espermatozoide estragado do que com um bebê sapo, coitados. Levando em conta que as aulas eram muito mais que aulas, eram aprendizados com aulas práticas, todos nós, de um jeito ou de outro, íamos buscar nos nossos pântanos particulares, um girino que fosse. Por incrível que isso possa parecer, o bairro ao lado do Aeroporto de Congonhas, hoje forrado de prédios, há 55 anos atrás era forrado de chácaras que rodeavam a pista de decolagem.

Minha avó morava ali, e eu vivia passeando com ela pelas chácaras. Obviamente, chácaras remetem a água e a sapos. Girinos não tinham muita chance ali, pois nós 6 (4 irmãos e 2 primos), além de um arrastão de moleques do bairro, íamos ali nas poças d’água achar girinos, para jogar num pote nojento de água velha, só pra ver se eles cresceriam e se tornariam sapos assim, a olho nu, de criança inquieta.

Espécies de rãs e sapos tão estranhas que parecem de mentira - greenMe
Sapo, perereca ou rã?

Será que alguma menina teria essa paciência de esperar o sapo crescer a olhos vistos, para ser *eca* beijado e assim se transformar naquele príncipe sonhado? A vida segue, crescemos, nos tornamos adultos. A bruxa que enfeitiçou o príncipe não envelheceu, só mudou de formato, com recursos 3D cada vez mais apavorantes. Sapo Barbudo, Falante, Perninha Justa contam, Sapo Chuchu e perereca também. E a princesa, que pensava naquele batráquio, não existe mais. No lugar dela temos princeses, príncipxs, reixs e rainhxs. Ou nenhumxs.

Me lembrei de uma esquete do Moacir Franco na TV em que ele jogava palavras ao léu e precisávamos decifrar o enigma. Esse ficou gravado na minha memória, antes da minha senilidade precoce, e dizia assim: OS APOS SAMBA TRAQUE OSO NAM. A resposta fica a seu critério. A minha eu já sei.

Feliz daquele que tem um brejo pra chamar de seu.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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