Ter ou não ter Carnaval, eis a questão

Nos últimos dias vêm aumentando polêmicas e discussões sobre a realização ou não do Carnaval em 2022

Este debate se intensificou esta semana, principalmente por causa das notícias que envolvem o surgimento de uma nova variante do vírus da Covid 19, a ômicron, no sul da África. Há pessoas que, sinceramente, temem por uma nova onda da pandemia.

Mas por que nesse debate só se fala no Carnaval, um evento a ser realizado daqui a três meses? O mais sensato é que o primeiro questionamento se desse em torno do réveillon, uma festa que acontecerá em menos de trinta dias e que do ponto de vista da sua realização e planejamento envolve muito mais riscos de contaminação pela doença.

Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura já decidiu pelo cancelamento das festas da passagem de ano na Avenida Paulista. No Rio, por enquanto, o poder público aguarda o desenrolar dos acontecimentos para tomar uma decisão.
É fato que neste cenário a realização do Carnaval corre risco. Entretanto, como os próprios cientistas afirmam, não há motivo para pânico. Se até janeiro, os índices da pandemia estiverem sob controle, a vacinação seguir aumentando e esta nova variante for mais conhecida, não há razão para retroceder com o Carnaval.

Acontece que este debate sobre cancelamento da nossa maior festa popular vem permeado por questões ideológicas, morais e religiosas, e não baseado em Ciência. Além disso, muitos prefeitos, principalmente, os de cidade do interior, adotam uma postura demagógica ao anunciarem o cancelamento do Carnaval.

Muitas dessas cidades, há anos, não realizam mais a festa. Em outras, o velho discurso de “jogar pra galera”, dizendo que os recursos economizados serão usados na saúde e educação. Um clichê que já não convence grande parte da população. Em alguns locais, por exemplo, rodeios e festas de peão de boiadeiro continuam sendo realizados, com uma multidão presente. Nas grandes capitais, trens, metrôs e ônibus andam superlotados. Centros comerciais como a 25 de março em São Paulo e o Saara, no Rio de Janeiro vivem aglomerados de gente. Não seria também o caso de fechar cinemas, bares, igrejas, boates, shoppings e estádio de futebol? Afinal de contas, o perigo nos ronda agora.

Há cerca de 15 dias houve uma “Marcha para Jesus Cristo “, promovida por igrejas evangélicas no Parque Madureira, no Rio, que contou com milhares de fiéis. Quantidade maior do que os foliões de blocos como o Simpatia é Quase Amor ou a Banda de Ipanema. Será que o questionamento do Carnaval é realmente com a saúde da população? Ou será que o vírus não canta louvores e só gosta de samba?

Muitos dos que são contra o Carnaval não têm dimensão do potencial econômico e da quantidade de empregos gerados pelo evento. Veem apenas como uma festa profana, de arruaceiros, bêbados e devassos. Um equívoco motivado por preconceito.

É preciso lembrar, também, que não houve Carnaval em 2021. As escolas de samba e demais agremiações foram extremamente cuidadosas e paralisaram suas atividades por cerca de um ano e meio, só retornando agora em condições seguras e seguindo todos os protocolos.

Enfim, é preciso levar esse debate a sério, baseado em evidências científicas, longe do moralismo e da demagogia ideológica. Afinal, neste país há um vírus para o qual ainda não se descobriu vacina e que nos assola a séculos, que é o vírus da hipocrisia e do preconceito.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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