Telefones burros

Telefones celulares simples, sem conexão, estão ganhando espaço no mundo hiperconectado

Em 2003, quando trabalhava em uma empresa de telefonia, tinha um telefone 3310 da Nokia. Ele era simples, sem internet, mas atendia bem os propósitos a que se destinava. Às vezes passava horas em ligações com amigos. Esse era o motivo de ficar mais tempo nele, mas não ultrapassava uma hora. Ele não tomava tanto de meu tempo, então todo o resto era dividido entre trabalho, faculdade, família e amigos. Tenho certeza de que se o apresentasse à minha filha de 11 hoje, ela ficaria assustada achando que ele estivesse faltando alguma coisa. Ou alguns aplicativos.

Conhecidos como “tijolos”, os telefones, que fazem basicamente ligações, alguns permitem ouvir rádio, eram muito presentes no final da década de 1990 e início de 2000, estão ressurgindo e conquistando o coração das pessoas. Os números de vendas são difíceis de encontrar, mas um relatório afirma que as vendas globais estavam próximas de atingir R$ 1 bilhão de unidades no ano passado. Segundo a empresa de software norte americana Semrush, as buscas por eles no Google saltaram para 89% entre 2018 e 2021. Além de um estudo feito pelo grupo contábil Deloitte concluir que no Reino Unido, um em cada dez usuários de telefone possui um “telefone burro”.

Algumas vezes me sinto estafada de tantas tentativa do meu smartphone de chamar minha atenção. São tantos aplicativos me acionando com notificações que, por vezes, sinto uma enorme vontade de silenciar todos. Às vezes, em especial no final de semana, deixo ele de lado e só volto a pegá-lo na segunda feira. Se observarmos bem, perceberemos que antes de dispormos de celulares tão inteligentes e capacitados, tínhamos uma vida mais ocupada com atividades mais interativas na prática. Hoje, sinto que, na maioria dos casos, nosso tempo é ocupado por um bombardeio de atividades programadas para nos fazer consumir produtos, baseados na navegação que fazemos pelas redes. Me sinto às vezes caindo em uma teia, que prende e não nos deixa sair daquele meio de tantas opções que são ofertadas.

E você, se tivesse a possibilidade de trocar seu telefone por um “celular burro”, o faria? Estaria disposto a abrir mão de saber das notícias em primeira mão e de suas notificações das redes sociais? Resistiria a tentação de postar aquela foto que você achou linda, e dar uma espiada no que está acontecendo na vida dos seus amigos? Acredito que às vezes é preciso reduzir a marcha para vivermos a vida de maneira mais leve, com menos pressão por parte de nossos celulares. Talvez em alguns casos, não precise de algo tão radical como uma substituição, mas o pé no freio pode ser preciso para valorizarmos o que mais importa. Outro dia uma grande amiga, que já não usa as redes sociais a algum tempo, me contou de tantas coisas que passou a fazer depois que passou a ficar menos tempo com seu celular. Que aproveitemos essa pandemia para repensar e dar ao nosso celular o devido lugar em nossa vida.

Por

cristiane.lopes@oestadorj.com.br

* Jornalista e especialista em Gestão Cultural. Amante da cultura e das artes.

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