Tata Londirá é um grito contra a intolerância

A escola de samba Acadêmicos do Grande escolheu, na semana passada, o seu samba enredo para o Carnaval 2020. A obra vencedora foi a dos compositores Derê, Toni Vietnam, Robson Morateli e Rafael Ribeiro, e confirma, mais uma vez, a máxima de que um grande enredo sempre dá em um bom samba.

O enredo que a tricolor caxiense levará para a avenida é “Tata Londirá, o canto do caboclo no quilombo de Caxias”, que contará a história de vida de Joãozinho da Gomeia, o pai de santo que se tornou celebridade nas décadas de 50 e 60.

Joãozinho saiu de Salvador, na Bahia, e se estabeleceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Seu terreiro de candomblé foi frequentado não somente por uma multidão de anônimos, mas também por políticos, artistas, gente da alta sociedade, intelectuais, presidentes da República. Até a rainha da Inglaterra, mesmo de longe, era sua admiradora, concendedo-lhe o título de Rei do Candomblé.

A fama do babalorixá extrapolou o terreno religioso. Ele era visto em palácios, era recebido com pompa por autoridades, atuou no teatro de revista e foi figura marcante no carnaval carioca. Participou de desfiles de fantasias no Teatro Municipal, foi bailarino da Companhia de Mercedes Batista e desempenhou o papel de Ganga Zumba, no enredo campeão do Salgueiro em 1960. Um personagem midiático, sempre aparecendo em capas de revistas e matérias jornalísticas.

Mas a vida de Joãozinho também é uma história de luta para vencer preconceitos. Homossexual, ele foi obrigado a deixar a Bahia, fugindo da discriminação. Outra quebra de paradigmas dele foi o sincretismo que ele faz entre as várias vertentes das religiões afrobrasileiras, misturando candomblé nagô-yorubá, com os de nação Angola, a umbanda e os rituais de caboclo de origem indígena.

Este enredo da Grande Rio, entretanto, não é apenas a história de Joãozinho da Gomeia e a riqueza simbólica de resistência e superação que ele representa. Por tudo isso é também um apelo pela paz e a convivência entre diferentes. Um grito contra a intolerância que está explícito no refrão do samba: “Salve o candomblé / Eparrei Oyá / Grande Rio é Tata Londirá/ Pelo amor de Deus / Pelo amor que há na fé / Respeito o seu amém / Você respeita meu axé”.

Por

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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