Supressão científica é um puro ato de lesa-pátria

Indo na direção contrária das nações desenvolvidas em virtude do investimento maciço em educação e pesquisas — e por conta de suas invasões e saques em diversos outros territórios —, o Brasil permanece reduzindo o montante destinado a essas áreas. Dando continuidade a uma ação que vem sendo praticada desde o advento da PEC 241/55, em 2015, os dois setores amargaram com uma redução de verbas em mais de 55% neste ano. Um absurdo dessa magnitude não destrói apenas a condição do ensino e da desenvolução tecnológica, mas compromete também a soberania nacional e a autodeterminação do povo brasileiro.

Durante o período da campanha eleitoral em 2018, todos os presidenciáveis receberam uma gama de perguntas enviadas pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, mais conhecida pelo acrônimo SBPC. A entidade, que se distingue por se preocupar seriamente com a verba exígua que é direcionada para os ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Telecomunicações e da Educação, solicitou a todos os candidatos que respondessem de forma bastante clara e honesta a respeito do comprometimento para com a inovação científica e tecnológica através do financiamento que as pesquisas demandassem. Jair Bolsonaro, candidato eleito e atual Presidente da República, remeteu uma missiva plácita onde afirmou que fornecer recursos para tais esferas não era um custo, mas sim investimento. Além disso, Bolsonaro prometeu extensivamente que alocaria valores fantásticos às mesmas instâncias no decorrer do seu mandato.

Como já era de se esperar, o juramento do trigésimo oitavo Chefe do Executivo não passava de demagogia barata. Devido ao corte de verbas aprovado pelo Legislativo, as concessões de bolsas para mestrado, doutorado e iniciação científica serão indiscutivelmente mais difíceis do que antes, bem como o registro de patentes. Isso acabará mantendo a falsa propriedade intelectual que tanto atrasa o progresso industrial brasileiro, com suas decisões ocorrendo por intermédio de negociatas entre políticos ineptos e corporações multinacionais. Para completar o desastre, as reformas de modernização objetiva e ampliação que os laboratórios das universidades e centros de pesquisa clamam há tempos simplesmente não vão acontecer.

Esse contingenciamento — eufemismo para sucateamento do bem público — vai terminar jogando o país em situações ainda mais terríveis que as atuais, dado que essa medida insana vai prejudicar as instituições de aporte, como, por exemplo, a Financiadora de Estudos e Projetos; a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, abreviadas pelas siglas FINEP, CAPES e CNPq, respectivamente.

Agredir a ciência dessa maneira certamente levará o país a um futuro pior do que o já mensurado, pois o esforço aplicado na resolução de crises e mazelas, como a econômica e o desemprego — ambas em pleno vigor —, será infinitamente maior. O mundo inteiro já verificou que é impossível realizar qualquer progresso tecnológico quando as pesquisas são derruídas e a formação de cidadãos qualificados é menosprezada. Se esse plano macabro não for interrompido, o destino do Brasil será obscuro, haja vista que, além da estrutura acadêmica e pedagógica, a organização sociocultural, a produção nacional, a saúde pública e o meio-ambiente do lugar estarão completamente ameaçados.

A eclosão alarmante do fenômeno identificado como “fuga de cérebros” já pode ser muito bem observada no momento presente da nação. Sem recursos para as pesquisas, suportando meses de atraso no estipêndio das bolsas de estudo (isso quando há subsídios disponíveis) e baixíssimo incentivo para a carreira e colaboração social no país, os estudantes que se destacam estão se mudando para o exterior, carregando um gigantesco acervo de instruções e conhecimentos específicos que aprenderam nas universidades brasileiras — fundamentais na implementação dos processos científicos — e que deveriam ser praticados em território nacional, caso a realidade do Brasil fosse diferente. Também há alunos que já se encontram fora por motivo de cursos adjacentes e programas de intercâmbio, e que não pensam em retornar. Até os pesquisadores com mais experiência já seguiram para outros países em razão desse cenário aterrador.

Não obstante, é perfeitamente compreensível que os acadêmicos busquem locais que ofereçam mais garantias aos seus projetos. É absolutamente desmotivador retirar o auxílio pecuniário que se emprega na compra de equipamentos, materiais para estudo e na locomoção. Se os órgãos de pós-graduação já padeciam anteriormente por culpa do orçamento, desde sempre bastante escasso, agora é que o ambiente científico nacional poderá ser retalhado de vez, isso porque os conselhos de stricto sensu já anunciaram que não dispõem de verba suficiente para arcar com todos os compromissos até o final deste ano.

Desamparar as pesquisas de uma forma tão violenta assim é colocar a soberania nacional em risco, uma vez que os locais sem progresso efetivo não produzem tecnologia e acabam sendo alvo da interferência geral dos países hegemônicos. E assim também se perde a identidade cultural do lugar, pois os novos colonizadores irão substituí-la por outra que atenda os interesses deles. É por isso que a ciência não deve ser macerada! Incentivar os estudos sempre foi uma atitude escolhida por todas as nações industrializadas em períodos de crise, e a razão disso está no fato de que uma infraestrutura analítica sólida é capaz de promover uma sucessão de fatores positivos, tais como a elaboração de novos itens; a redução de custos em outros setores; o desenvolvimento de matrizes energéticas menos poluentes e mais acessíveis; o conservacionismo ecológico irradiado para todas as instâncias sociais, com a defesa da autodeterminação e das tradições congênitas do povo. Quem vai pelo caminho oposto e justifica a política neoliberal do Planalto, anunciando que as decisões de Bolsonaro e seus asseclas ministeriais foram corretas, não possui estima pelo Brasil de modo algum!

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