Sob os rútilos do âmago literário

A indagação sobre o que é estudado nos mais diversos horizontes científicos quase sempre produz respostas instantâneas. A biologia, por exemplo, investiga os fenômenos ontogenéticos, fisiológicos, anatômicos e demais tópicos semelhantes. A matemática lida com a geometria, álgebra, computação, etc. A história faz dissertações referentes ao Período Antigo, Era Medieval, Inconfidência Mineira e outros eventos passados em todas as regiões do planeta. A geografia, por sua vez, trata do meio ambiente, topografia, recenseamento e assim por diante. Já a física aborda temas como o eletromagnetismo, mecânica, ótica e afins. Mas e a literatura? A sua pesquisa se dedica a quê?

Essa pergunta costuma acarretar novas dúvidas porque é algo intermitente na maior parte dos casos. Geralmente é respondida de um modo lacônico, com alusões a livros, autores e movimentos. Entretanto, é perfeitamente válido declarar que a instrução literária é capaz de englobar todas as ciências supracitadas, uma vez que os algarismos, localidades, épocas e pessoas são elementos frequentes em inúmeras crônicas fictícias e bibliográficas.

Tal observação, caso seja minuciosamente refinada, pode viabilizar uma metodologia definitivamente mais concreta e radiante para a educação literária, dado que o conteúdo de outras disciplinas, independente do nível, adentram seguramente na órbita da literatura. Assim sendo, a temática das letras é completamente infinita por virtude dos diferentes assuntos que existem em incontáveis categorias de ensino. Isso traz um dinamismo profundamente inovador a este campo, pois tudo aquilo que contenha fator humano é suscetível a litteris.

Valorizar uma premissa tão distinta como esta é indispensável para que as explicações reservadas ao conceito de literatura surtam efeito. Se a conformação das letras disponibiliza meios de operar sobre a tecitura humana, a semiologia literária deve atuar na ratificação dos mais variados paradigmas do conhecimento a fim de lapidar os postulados e, obviamente, suas progressões.

Considerando que a esfera das letras é uma hipóstase científica irrefragável, a elaboração de múltiplos raciocínios suscetíveis à depuração se faz necessária a partir das obras coadunadas à literatura e todos os itens relativos que estejam presentes. A acepção prática disso é ilustrada através do desenvolvimento da capacidade de pensar e inquirir desde a conjuntura histórica em que um material foi exarado até os relatórios acerca da vida de quem o escreveu, transitando por uma espiral de singularidades que descortina os formatos e estilos dos textos, ou ainda pelas teses literárias compostas sobre um alto número de publicações.

Um livro que permanece apto a decodificar esta holonomia sinestésica com vasta precisão é “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo. Escrita no final do Século XIX, essa obra do versátil diplomata maranhense é, sem dúvida, um clássico perene da literatura nacional. Todavia, o que surpreende é a constatação do volume de análises que seguem incidindo neste fascículo de aproximadamente trezentas páginas impresso há quase cento e trinta anos. A começar pela organização de seu enredo, um dos mais drásticos das crônicas naturalistas brasileiras: sua extensão permite averiguar tanto as seleções linguísticas feitas por Azevedo quanto os processos de construção literária e filosófica dos personagens, atravessando idiossincrasias emocionais e deontológicas. Além disso, surge a oportunidade factual de esquadrinhar a biografia do autor e o seu renque de leituras e pontos de vista, que obtiveram novas resoluções em suas próprias tangentes. Sob outra perspectiva, é também uma clara definição da realidade metropolitana do Rio de Janeiro na iminência do Século XX e o alojamento dos estereótipos da marginalidade nos subúrbios cariocas, que rapidamente se converteram em uma hecatombe para dessangrar o país.

É graças a todo esse algoritmo prepositivo que uma gama de conexões entre obras, autores, períodos e idiomas vêm à tona, haja vista que as traduções e o intercâmbio estilístico também constituem o escopo da literatura; sem ignorar, evidentemente, a relação da mesma com as outras vertentes que, juntas, integram as belas-artes no sentido amplo e que estão adquirindo importância no espaço literário, como a música, a pintura, o teatro e o cinema.

Por intermédio destas sínteses, ainda há muito o que debater sobre a classificação dos estudos literários dentro das ciências humanas e, por consequência, a utilidade do pluralismo filológico para a reprodução científica. Porém, é mais vantajoso incentivar o pensamento crítico acerca da literatura possuir ou não uma taxonomia superior à da instância gramatical, examinando a sua causalidade gnosiológica, do que tentar resolver inquéritos sistemáticos de forma direta.

Qual é a linha de produção epistêmica vinculada a essa demanda ou por que tamanha perplexidade é rigorosamente inferior no que concerne às apurações e desdobramentos nos setores de exatas e de saúde? Ou melhor: uma sociedade que promove a ciência e a informação com o objetivo de aplicar os dados coletados por tais divisas unicamente nas mesmas é interessante para quem, especialmente quando a avaliação da literatura é previamente rejeitada? O que a coletividade social busca desempenhando isso? Legitimar as apreciações orwellianas?

Não é fácil solucionar tantas questões sem ponderar bastante, mas esse confronto também não anula a existência dos pesquisadores literários, que exercem suas atividades nas bibliotecas e nos departamentos de terceiro grau, isto é, as universidades e instituições científicas, onde o saber fidedigno é cuidadosamente arquitetado. Cabe ressaltar que, para os que pertencem à área de humanas, o acesso aos domínios acadêmicos continua sendo uma tarefa extenuante, até porque os resultados concedidos por tal vértice interdisciplinar sofrem com um descrédito brutalmente generalizado e incessante. Isso tudo retrata as sequelas do imediatismo cultural que se alastrou pelo Brasil; que exige celeridade na implementação dos silogismos, o que não é compatível com os métodos analíticos que as letras empregam. Logo, o principal desafio da literatura é impedir que jargões populares — “isso que você faz serve para quê?” — esmaguem a sua campanha.

Contudo, as tréplicas que abrangem tal interrogação devem ocorrer e de maneira iterada a fim de neutralizar essa hostilidade proposital. Aliás, a obrigação dessas nuances pinaculares é motivar uma série de reflexões consecutivas a respeito de como a humanidade tem agido para estar no mundo ao longo do tempo, sobretudo nos parâmetros edificados pelas infusões literárias. Isso jamais será vergonhoso ou irrelevante, não importa qual seja o pretexto dos indecorosos e energúmenos. Resumidamente, é uma boa configuração inicial no tocante à coalescência dos perímetros científicos, pois não há estruturalismo, semântica ou comunicação efetiva quando a literatura é postergada.

Por

piterson.hageland@oestadorj.com.br

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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