Cais do Valongo pode perder título dado pela Unesco

Levantar monumento de enfrentamento ao racismo é uma condição para manutenção do status

Patrimônio da Humanidade, o Cais do Valongo, – o maior porto escravagista da história –, no Rio de Janeiro, está abandonado e corre o risco de perder o título. Essa é a avaliação de organizações da sociedade civil e de especialistas. Entre eles, o coordenador científico da candidatura do Valongo a patrimônio, o antropólogo Milton Guran. Ele é o responsável por apresentar um balanço das ações no complexo do sítio arqueológico à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em 9 de julho de 2017, a Unesco registrou o cais em uma lista com mais de 1 mil sítios tombados, como a Acrópole, na Grécia.

O ponto mais polêmico é a construção de um museu nacional, chamado Memorial da Diáspora. O local, conforme pactuado com a Unesco, no dossiê de candidatura, deveria destacar a importância do Cais do Valongo e explicar o impacto do deslocamento de mulheres e homens africanos pelo mundo, a chamada diáspora, devido à imigração forçada.

Segundo o dossiê enviado ao órgão internacional, o memorial tem de ser erguido no prédio Docas Dom Pedro II, considerado um contraponto ao cais, em frente ao monumento arqueológico. Erguido em 1870, pelo engenheiro negro André Rebouças, que exigiu mão de obra livre, o prédio é do Ministério da Cultura, mas está ocupado pela organização não governamental Ação da Cidadania – fundada pelo sociólogo Herbert de Sousa, o Betinho. O contrato de cessão acabou semana passada, mas a organização recorre à Justiça. O Docas é a sede da entidade e também fonte de renda. O galpão, criado para ser um armazém, é alugado pela entidade para festas e eventos privados, o que já foi contestado pelo Ministério Público Federal.

As organizações do movimento negro e científicas querem que os governos, incluindo a prefeitura, apresentem uma solução para a desocupação rápida do edifício, que é tombado pelo patrimônio nacional e faz parte do complexo do cais, conforme pactuado com a Unesco.

O antropólogo Milton Guran explica que o Memorial da Diáspora foi proposto como instrumento de enfrentamento ao racismo e é uma condição para manutenção do título. Ele acrescenta que a Unesco também não aceita uma organização privada funcionando em um patrimônio mundial tombado. Se essas duas condições não forem cumpridas, Guran afirma que o Brasil pode perder o título.

“O Estado Brasileiro deve à matriz africana um museu (nacional) que reconte a sua história, que dê visibilidade a suas realizações. É inconcebível que o Brasil tenha a segunda maior população negra do planeta, que tenha recebido quase a metade dos africanos da diáspora, mas não tenha um museu sobre isso”, afirmou.

Foto: Agencia Brasil

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