26% dos pediatras sofrem atos de violência no trabalho

Em estruturas da rede pública de saúde, a incidência de tais casos aproxima-se de  30%, atingindo 26% do universo de médicos dessa especialidade

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Dois em cada dez pediatras no Brasil têm sido submetidos frequentemente a atos de violência em seu ambiente de trabalho. O dado está presente em uma pesquisa elaborada pelo Instituto Datafolha, sob encomenda da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que captou, em janeiro, a percepção de 1.211 pediatras de todos os estados. O resultado foi apresentado no 38º Congresso Brasileiro de Pediatria, em Fortaleza.

Em estruturas da rede pública de saúde, a incidência de tais casos aproxima-se de  30%, atingindo 26% do universo de médicos dessa especialidade. Em hospitais e consultórios privados, o indicador é de 12%. Outra revelação do levantamento é que 53% dos profissionais dividem o tempo entre expedientes das duas esferas.

Para a presidente da SBP, Luciana Rodrigues Silva, a lastimável situação é uma realidade que não fica restrita somente aos pediatras brasileiros, constituindo-se na vida da maioria dos médicos. Para que esse quadro seja desenredado, ela diz que os órgãos representativos da categoria precisam se mobilizar.

“Nós vemos que a sociedade se encontra em um momento delicado, porque a violência começa a fazer parte de nossos dias. A situação de trabalho também é muito estressante para os médicos e, além disso, há um volume muito grande de pacientes. Há vários fatores na determinação dessa violência”, afirma Luciana. A médica destaca que as mulheres pediatras estão, “como sempre”, mais vulneráveis.

Os números corroboram a opinião de Luciana, já que, enquanto 17% dos pediatras consultados declaram enfrentar agressões, 24% das profissionais mulheres sofrem com isso. Quando consideradas ocorrências dos últimos 12 meses anteriores à entrevista, a percentagem de mulheres atacadas sobe para 26%. Além disso, o nível de estresse ocasionado pelas condições de trabalho é o maior registrado entre as médicas nos últimos cinco anos: 66%.

O presidente da Sociedade Espírito-Santense de Pediatria, Rodrigo Aboudib, lembra um feminicídio ocorrido em 14 de setembro, em Vitória, que deixou a comunidade da capital consternada. A médica oncologista pediátrica Milena Gottardi foi morta com três tiros na cabeça, quando saía do Hospital Universitário Cassiano Antonio de Moraes. Seu companheiro é suspeito de ser o mandante do crime. “Chama a atenção o fato de ser assassinada no ambiente de trabalho, porque a falta de iluminação e de segurança propiciou que fosse o local escolhido para a execução”, destaca Aboudib.

“A violência contra médicos aumentou muito, especialmente nos pronto-atendimentos, onde as pessoas buscam ser socorridas rapidamente. A falta de condição de trabalho e o exacerbamento da carga de trabalho acabam provocando reações impensadas”, acrescenta.

Soluções

A atual diretora-geral do Hospital Geral Doutor Waldemar Alcântara, da rede estadual do Ceará, Fernanda Colares Borba Netto, conta que, embora tenha escolhido a profissão por seus ideais humanitários, já amargou a violência que atinge grande parte de sua categoria. Após deixar para trás um cargo público no Rio de Janeiro, seu estado de origem, a médica desenvolve atualmente, no hospital que comanda no Ceará, atividades de prevenção à violência, que vão de oficinas com acompanhantes dos doentes crônicos lá tratados a sessões de cinema e de terapia em grupo com a equipe de psicólogos do quadro.

Diferentemente do que observa Rodrigo Aboudib, Fernanda ressalta que o hospital gerido por ela não atende casos emergenciais, mas que, mesmo assim, assiste a conflitos nas internações. A maioria das agressões, destaca a médica, é cometida por mulheres, porque são elas que respondem formalmente pelos pacientes, isto é, prevalecem entre os acompanhantes.

“A gente sabe que a maioria das agressões ocorre por falha na comunicação, a gente tenta entender. No SUS [Sistema Único de Saúde], principalmente com a população mais carente, podemos trazer um pouco de alento, porque sabemos que ela sofre, além da doença, com todo um contexto social. Tem famílias com contraventores e ilegalidade no seu interior, e é nosso dever atender sem discriminação”, diz a médica.

Mencionada por Fernanda como “uma falta de confiança que vem por falta de vinculo”, capaz de descambar para conflitos diretos, Aboudib, por sua vez, acrescenta: “Esses desencontros também refletem um pouco o modelo da nossa sociedade, onde se busca tudo na hora e não se favorece a relação médico-paciente construída no consultório e no ambulatório, que é onde está o melhor que podemos ofertar às crianças”.

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