Sem abelhas, meu mundo fica incompleto

Abelhas com ferrão, sem ferrão. Não importa, desde que elas continuem seu trabalho indispensável

Certa vez, um rapaz disse que uma abelha estava usando polainas, aquelas de balé que as mocinhas usam para esquentas as canelas. Rapazinho, aquilo não eram polainas, já que abelha não faz uso de roupas e tampouco faz algum tipo de dança de salão. AQUILO ERA O PÓLEN, criatura, que elas carregam nas patas com o intuito de polinizar. Ele quase acertou: Pólen vs Polaina.

De acordo com todas as aulas de biologia na escola, a polinização é a transferência de grãos de pólen das anteras de uma flor para o estigma (parte do aparelho reprodutor feminino) da mesma flor ou de uma outra flor da mesma espécie. As anteras são os órgãos masculinos da flor e o pólen é a gameta masculino. Para que haja a formação das sementes e frutos é necessário que os grãos de pólen fecundem os óvulos existentes no aparelho reprodutor feminino. Na verdade, isso deveria ser também pode ser tipo de dança, mas sem polainas, por favor!

Flores e abelhas a isso eu chamo de amor

Desse modo, fui ver algum estudo referente às abelhas, e em como elas estão manejando o seu pólen para que continuem fazendo seu trabalho, que de sujo não tem nada. E o que li foi dramático: nos últimos anos, apicultores e pesquisadores têm se preocupado com a diminuição da diversidade e população de abelhas, sendo que no Brasil, particularmente, são cada vez mais comuns episódios de mortandade desses insetos e de abandono de colmeias como consequência do uso extensivo de agrotóxicos.

De acordo com as pesquisadoras do Instituto de Química de São Carlos – SP, o imidacloprida e o tiametoxam, ambos inseticidas, foram introduzidos na década de 1990 e desde então seu uso vem aumentando ao longo dos anos.

Banidos da União Europeia, eles estão entre os inseticidas mais utilizados nas plantações em todo o mundo, sendo aplicados em culturas de cana-de-açúcar, arroz, cereais, milho, girassóis, batatas, frutas, algodão, vegetais, entre outras. No Brasil, os dois produtos são autorizados para aplicação. Ou seja, açúcar já faz mal, arroz nem pensar, legumes a frutas pra quê? As abelhas não servem pra nada, não é assim que dizem? NÃO, NÃO E NÃO!

Cracolândia na colmeia. Mesmo em baixas concentrações, esses produtos químicos podem afetar o comportamento das abelhas, reduzindo seu tempo de vida e, consequentemente, evitando que elas façam seu nobre trabalho por mais tempo. Para os produtores de mel, por exemplo, identificar previamente se as abelhas estão expostas ou sendo intoxicadas por agrotóxicos é importante para a definição de estratégias que evitem prejuízos, como a transferência de colmeias para outro lugar.

As abelhas são consideradas os agentes polinizadores mais importantes devido ao seu grande número, já que representam cerca de 25.000 das 40.000 espécies existentes. Elas polinizam uma ampla variedade de flores, contribuindo para manter a biodiversidade vegetal na Terra e garantir a produção de frutas e sementes, além da reprodução de várias plantas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO), 85% das espécies conhecidas de plantas com flores e 70 % das culturas agrícolas dependem dos polinizadores para se reproduzirem, principalmente das abelhas. Elas são muito mais que importantes, elas são indispensáveis para a humanidade.

Nesse trabalho realizado no IQSC (Instituto de Química de São Carlos), com apenas três polinizadoras esse resultado já foi possível de se obter, ou seja, um número 50 vezes menor. Já com relação à detecção de agrotóxicos no tecido das abelhas da espécie jataí, abelha brasileira que não tem ferrão, com apenas 10 insetos as pesquisadoras já conseguiram identificar os agroquímicos, enquanto no método padrão seria preciso contar com 5 mil abelhas, número 500 vezes maior.

“Com a utilização de pequenas quantidades de insetos é possível alertar a comunidade científica que esses agrotóxicos estão contaminando as abelhas e que medidas precisam ser tomadas. Em nosso estudo, conseguimos identificar concentrações menores de agrotóxicos que o método tradicional. O apicultor quer saber se o local onde ele tem as colmeias está expondo as abelhas à contaminação e, caso ele descubra cedo que os insetos estão sendo afetados, pode se mudar para outro local e evitar prejuízos financeiros. A ideia é fazer esse tipo de monitoramento utilizando menos abelhas”, explica Eny Maria Vieira, professora do IQSC.

Final feliz para as abelhas, desde que ninguém mais atente contra a vida dessas trabalhadoras sem fim, sem carteira assinada, sem FGTS e o mais importante, apartidárias, que fazem uma diferença danada na vida da gente. Vida longa e próspera a elas todas e a nós também.

Com o auxílio de dados do Jornal da Usp

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e