São Francisco de Assis, mascote de alma animal

Quando um mauricinho se tornou santo e mudou a visão do mundo sobre os menores

Ouvindo histórias diversas durante essa semana, uma delas me tocou muito fundo, por estar bem perto de mim, por ser uma vida que se foi tão cedo entre nós e não, não estou falando de covid-19 ou de um ser humano.

Mas de uma vida felina, minha gata neta, a qual teve um tumor horrível, mas que foi amparada por 5 meses pela família, afinal, aqui na nossa temos o hábito de tratar ate o fim, não importando quanto tempo leve, por mais pesado que seja o fardo. Levamos. Guardamos e, por mais distante que isso seja para nós, oramos. Muito. Nessas horas, tudo o que é levado às orações parece que nos acalma e conforta. São Francisco de Assis que o diga.

Fui buscar motivos para essa história em cima desse santo, mas que em outros tempos era tido e visto como um bon vivant, até o dia em que foi acusado pelo próprio pai de ter roubado tecidos e os vendido. Após ser preso no porão por ele e solto pela mãe (nós sempre limpando as barras dos filhos), Francisco, ainda não santo, decidiu sair de casa sem roupas, as quais entregou a Pietro – seu pai – e foi buscar ajuda em uma igreja da região.

Vamos fazer um preâmbulo da vida desse santo, antes de ser santo: de acordo com biografia histórica escrita por Tomás de Celano, Francisco nasceu em Assis, cidade italiana, em julho de 1182, seu nome foi escolhido pelo pai, nobre mercante de tecido e, por ter feito fortuna no comércio da França, Francesco era o nome mais próximo de “francês” para ser referido ao país que lhe deu a fortuna alcançada. Francisco, portanto ficou.

O jovem, antes um fanfarrão, não gostava de estudar ou trabalhar, se comportava como um verdadeiro playboy da Idade Média, adorava a vida mundana, era apaixonado por roupas caras e da moda, bebia sem moderação e usava linguagem chula, além de ter modos vulgares. Ou seja, um boyzinho sem eira nem beira, como muitos de hoje em dia. Mas onde foi que a santidade entrou na sua vida? Ainda na juventude, Francisco entrou para o exército e participou de duas guerras. Na segunda, juntou-se aos guerreiros de Assis para ajudar os moradores da cidade de Perugia num conflito.

Quase todos os seus companheiros foram mortos, mas o moço sobreviveu e foi feito prisioneiro por um ano. Na prisão, a primeira, acabou contraindo malária e tuberculose, se recuperou e foi libertado após a intervenção (???) do pai. Se não fosse o pai, não teríamos essa figura entre as mais notáveis santidades. Durante o período na prisão, segundo Tomás de Celano, Francisco passou a fazer reflexões e, após a liberdade, teve “surtos” de caridade, que o fizeram, inclusive, doar tecidos da empresa de sua família aos pobres, além de vender alguns a preços muito baixos para obter dinheiro para doações e restaurações de igrejinhas. Logicamente os furtos no armazém do pai eram para isso.

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Ai, meu santinho das causas de quatro patas, protegei também nossos vermes, para que não proliferem e se tornem maus políticos

Em 1182, dizem, Francisco ouviu o “chamado de Deus”, que lhe falou de um crucifixo, na igreja de São Damião, enquanto orava. Isso tudo foi relatado por ele mesmo em “Testamento”, escrito por ele durante sua vida. Um dia, ao abrir aleatoriamente o Evangelho, se deparou com versos que falavam sobre a caridade. Isso fez com que ele decidisse, não por uma visão mística, mas por motivações práticas, seguir sua vocação religiosa a fim de defender os mais fracos e opor-se às injustiças sociais, baseando-se, assim, no exemplo de Jesus. E assim o fez, e graças a ele, temos hoje um santo que protege nossos menores, desde os vermes nojentos até os maiores indefesos, de todas as mazelas, crueldades e injustiças.

Francisco morreu em 3 de outubro de 1226. Dois anos depois, foi declarado santo pelo então papa Gregório 9º e, no dia seguinte, o próprio pontífice colocou a pedra fundamental para erguer a Basílica de São Francisco de Assis, na cidade natal do religioso italiano. 4 de outubro é seu dia.

Mesmo àqueles que não acreditam em santos, ou para aqueles que simplesmente acham que tudo tem sua hora e lugar, hoje eu só posso dizer que tudo faz sentido nessa minha vida. Por uma coincidência nada premeditada, me casei na igreja de São Francisco de Assis sem ao menos saber o que o futuro me preparava. Acho que fui abençoada de antemão.

Uma flor para a Amy, minha primeira gata neta, agora reinando no céu com toda a sua acidez de ideias e toda a fofice do seu caminhar blasé. Que São Francisco cuide dela, a tome no colo e lhe dê todas as alfaces romanas de que ela tanto ama.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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