Sambas-enredo 2020 revelam safra mediana

Na última quinta-feira, o álbum com os 13 sambas-enredo das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro para o próximo carnaval, chegou às principais plataformas digitais, como deezer, spotfy e youtube. O cd físico, que este ano tem uma pequena tiragem para colecionadores, também está à venda.

A audição das obras revela uma safra mediana. Se não decepciona, também não chega a ser daquelas em que o mais empolgado folião vá ouvir sem parar. Não é o disco mais fraco da década, mas está distante dos anos 70 e 80, por exemplo, época de ouro do samba-enredo.

Destaque indubitável para a Grande Rio e sua homenagem ao pai de santo Joãozinho da Gomeia. A tricolor de Duque de Caxias vem com um samba de letra bem trabalhada, que descreve de forma criativa e poética a vida agitada do babalorixá, dentro do que propõe o enredo. E ainda finaliza com um refrão que é um grito contra o preconceito e a intolerância: “Salve o candomblé / eparrey oyá / Grande Rio é Tata Londirá / pelo amor de Deus / pelo amor que há na fé / eu respeito seu amém / você respeita meu axé”.

Outra obra que pede audição obrigatória é a linda homenagem que a Mocidade Independente faz à cantora Elza Soares. O samba, que tem Sandra de Sá como compositora na parceria, promete emocionar a avenida. Uma letra que descreve bem a homenageada e sua luta para vencer preconceitos e tornar-se uma das vozes mais belas e marcantes da música popular brasileira.

A Portela vem com “Guajupiá, terra sem males” e também se coloca entre os sambas fortes para o desfile. Letra bem construída, que descreve o modo de vida da tribo indígena que habitava o Rio de Janeiro antes da chegada dos portugueses. A melodia bem cadenciada encaixa perfeitamente na bateria da azul e branca, que tem essa característica.

A campeã do desfile passado, Mangueira, segue na mesma linha de seus recentes sambas, de crítica política e social. O seu “A verdade vos fará livre” é uma releitura da mensagem do cristianismo, a partir de uma reflexão dos dias atuais. O samba, de letra contundente é de autoria de Luiz Carlos Máximo e sua mulher, Manu da Cuíca. Chama atenção um samba com apenas dois compositores numa época em que se formam verdadeiros condomínios de até 12 pessoas para fazer um samba.

A Beija Flor também se destaca na safra, mesmo não tendo o melhor de sua discografia. O seu “Se essa rua fosse minha” focou mais no aspecto religioso do que numa descrição objetiva dos caminhos que o Homem percorreu em sua trajetória de milhares de anos pelo planeta.

Merecem menção ainda outros dois sambas. Unidos da Tijuca, que conseguiu uma bela melodia para um tema árido sobre arquitetura e urbanismo.

A Unidos do Viradouro também não decepciona com seu samba sobre as lavadeiras baianas do Abaeté. Tem uma espécie de falso refrão que está se tornando um chiclete para ouvidos dos sambistas: “Oh mãe, ensaboa mãe / ensaboa mãe / ensaboa pra depois quarar”.

Enfim, a sorte está lançada e o grande público agora já tem acesso aos hinos que vão embalar as grandes escolas em 2020. Aguardemos esses próximos 70 dias até o carnaval para constatarmos se algum outro samba se destaca ou surpreenderá na avenida.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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