Samba reverencia a sua maior voz

Elza Deusa Soares foi o título do enredo com que a Mocidade Independente de Padre Miguel homenageou, em 2020, a maior cantora de samba do Brasil

Título apropriado para a reverenciada artista, que extrapolou as fronteiras do gênero e se firmou como uma das maiores cantoras da história da Música Popular Brasileira. Por sinal, foi o último desfile realizado, já que não houve carnaval no ano passado e uma das últimas homenagens a artista e das mais justas já realizadas na passarela da Marquês de Sapucaí. A imagem de Elza no último carro alegórico, encerrando o desfile, sentada num trono de rainha, ovacionada pelo público ficou marcada para sempre.

A Mocidade era a sua escola de coração, localizada na comunidade onde nasceu, a Vila Vintém, no bairro de Padre Miguel. Ali também marcou sua trajetória, sendo a primeira mulher a puxar um samba na avenida. Também se consagrou com o samba de quadra “Salve a Mocidade”, um hino à famosa bateria da agremiação.

Elza Soares tornou-se uma intérprete de todos os ritmos, mas a sua raiz é o samba. Seus primeiros discos comprovam isto e a fizeram reconhecida internacionalmente, desde a sua estréia, em 1960, com “Se acaso você chegasse”.
Ela amava e defendia as escolas de samba e gravou vários sambas enredos, como “O mundo encantado de Monteiro Lobato”, da Mangueira 1967 e ” Lendas e festas das Yabás”, União da Ilha 1973. Mesmo antes dos sambas das escolas passarem a ser gravados anualmente em disco próprio, ela apresentou o gênero ao grande público, como “Bahia de todos os deuses “, do Salgueiro 1969.

A discografia da diva é extensa e está em qualquer pesquisa, sem muito esforço. Entretanto, vale destacar dois álbuns que são representativos de sua obra. Eles dão a exata noção da qualidade técnica de Elza, da afinação diferenciada, marcante da sua voz e sobretudo da sua versatilidade.

Destaque para o disco de 1968, “Elza Soares baterista: Wilson das Neves”. Neste álbum em parceria com o genial baterista, ela passeia por clássicos que vão desde a bossanovista “Garota de Ipanema ” e sambas como “Mulata Assanhada”, “Saudade da Bahia” e “Se acaso você chegasse”. Elza brinca com a voz e se consolida como uma das grandes.

Outro álbum é “Do cóccix até o pescoço”, de 2002. Este considerado o melhor da artista. Já numa fase madura, ela extrapola o mundo do samba e se mostra para outros gêneros como rap, hip hop, funk, baladas e ritmos nordestinos. Neste disco, ela grava a aclamada “A carne”, que torna-se um hino do movimento negro.

O álbum também reserva uma rascante interpretação de “Fadas”, além de “A cigarra”, “Flores horizontais”, “Todo dia” e “Dura na queda”. E para completar a cereja do bolo, uma participação luxuosa de Chico Buarque em “Vamos amar “.
Enfim, tudo o que se disser e escrever de Elza Soares será pouco diante de sua grandiosidade e genialidade. Não só como artista, mas como mulher, negra e cidadã deste país. E como diz o samba enredo da Mocidade em sua homenagem: “abra o caminho pra Elza passar”.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e