Samba-reggae no casco

"E sem idolatria / o Olodum seguirá / É, como dizia Caymmi / Insigne o homem cantando a encantar" Canto Ao Pescador- Olodum

Quando eu era pequena, ia com minha mãe à feira e, fatalmente vinha com um bichinho, às vezes era um pintinho, noutras uma tartaruguinha, as quais eu chamava de fedidinha, porque elas eram mesmo. E ia para casa toda serelepe, doida pra ver a verdinha sair da água e correr por ali. Doce desilusão, as tartarugas morriam em uma semana, os pintinhos viravam galos de briga. E eu ficava sem nada. Naquele tempo não se ouvia falar em IBAMA e ninguém dava a mínima pra eles! E a vida seguiu e com ela as novas normas ambientais e sanitárias, que tão bem tentam fazer aos que não têm quase lugar sem garrafas pet pra viver e respirar.

Mais tarde, bem mais tarde, apareceu a Julie, uma tartaruga, ou cágado ou jabuti. Através de uma conversa no telefone com a minha muito amiga Lucia, ela me contou que a Julie veio da Bahia há uns 10 anos (o que não significa mais que 1 décimo da sua vida) dentro de uma caixa e entregue à minha amiga por uma ajudante dela, que a recebeu de um irmão, chegou aqui em São Paulo e foi direto para a casa dela. O que eu soube, é que a Julie chegou aqui com a carapaça toda pintada e deu um trabalhão para retirar tudo. Ora, tartaruga na Bahia, pintada, nada mais óbvio: provavelmente ela era um dos atabaques do Olodum, talvez a mais sonora, mais afinada, já que a casca deles já tem sua ressonância característica. Vida já musical, como tudo o que envolve a Bahia.

Aí aparecem as piadas nada inteligentes: Tartaruga na Bahia, é quase um pleonasmo, assim como dizer que a Bahia tem 4 velocidades: devagar, lento, parado e Dorival Caymmi. Não concordo com essas comparações toscas e sem nenhum propósito, a não ser desmerecer quem vive num paraíso, quente e com praias lindas e sem a menor vontade de acelerar a vida, assim a Bahia pode ser quase totalmente aproveitada. Em tempo: a velocidade máxima das tartarugas é de 1km/h em média.

Voltemos à Julie, que agora vive numa casa maravilhosa, com gato e cachorro e tentando entrar na casa de qualquer jeito. Ora, ela pode ser daquela espécie terrestre, que chamamos de Jabuti e absolutamente não entram na água. Ou mesmo um cágado. Ela só quer um cantinho pra curtir seus últimos 60 anos de vida…

Embora usado para falar de todos os quelônios de maneira genérica, o termo ‘tartaruga’ se refere especificamente aos animais marinhos, sejam eles do mar ou de água doce. Ou seja, tartaruga é a vovozinha, essas do ‘tipo Julie’ são jabutis. Cágados sim, esses são semiaquáticos, com suas patas cheias de dedinhos e membranas, que facilitam a locomoção na água ou em terra firme. Fofos. E, por favor, com acento no lugar certo.

De acordo com o site infoescola, “o grupo dos quelônios é representado pelas tartarugas, cágados e jabutis. Estes répteis apresentam placas ósseas dérmicas que se fundem originando uma carapaça dorsal e um plastrão (escudo) ventral rígidos, cobertas de queratina, que servem de proteção para o corpo. Existem atualmente 13 famílias de quelônios, com 75 gêneros e 260 espécies conhecidas. Até o momento, no Brasil, existem 36 espécies de ‘Testudines’, sendo a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) considerada a maior espécie de tartaruga de água doce do mundo, cuja carapaça chega a 75 centímetros de comprimento.”

A legenda é sempre o melhor jeito de saber quem é quem no ‘mundo quelônio’

Já o Butantan mostra que “o grupo réptil (do latim reptare, ‘rastejar’) abrange mais de sete mil espécies conhecidas, entre tartarugas, lagartos, jacarés, serpentes e outros seres rastejantes, tendo se originado no Período Carbonífero há aproximadamente 300 milhões de anos. Os ancestrais evolutivos dos répteis são os anfíbios. Ao longo de inúmeras mudanças ocorridas durante o processo de evolução biológica, tornaram-se os primeiros vertebrados adaptados à vida em ambientes terrestres.Os quelônios pertencem à ordem Chelonia (do grego ‘kelone’, que significa armadura ou escudos entrelaçados), também conhecida por Testudines, que engloba as tartarugas, cágados e jabutis. As formas atuais desse grupo de animais são muito semelhantes aos fósseis que datam do Período Triássico, cerca de 215 milhões de anos atrás, período em que os continentes se formaram. A maior evidencia que os quelônios não sofreram grandes alterações ao longo de sua história evolutiva, é o fato de que seus parentes antigos já possuíam uma carapaça ou casco.”
Ou seja, até na evolução delas a coisa é lenta.

Pensando na longevidade delas, a idade das tartarugas mais comuns entre nós é mais ou menos essa: Jabuti (piranga e tinha): acredita-se que as duas espécies liberadas pelo IBAMA possam chegar aos 80 anos de idade; Cágado: estima-se que possam viver entre 30 a 35 anos em cativeiro, Tartaruga marinha: o IBAMA proíbe que sejam criadas em cativeiro, independentemente da espécie. Na natureza, estudos mostram que elas vivem, em média, 150 anos. Mas nenhuma delas chegará aos pés, patas ou nadadeiras das tartarugas de Galápagos, tão imponentes criaturas e que devem ser lembradas como as maiores de todos os tempos. Porém o mais longevo ser, aquele que teve a pachorra de viver 507 anos foi um molusco, o Ming. Não sei por quê nem pra quê. Ele pode ter acreditado que uma segunda Arca de Noé poderia acontecer e ter a chance de dar certo. Perdeu.

E a Bahia, com suas areias calmas e ondas macias, é o berçário perfeito para as tartaruguinhas que tentam sair do ócio baiano e se aventurar no mar, que é bonito, é bonito que o Caymmi tanto contou, cantou.

Sorte? Julie que o diga, ou cante.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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