Safra de sambas promete empolgar em 2022

Neste sábado, dia 16, a TV Globo começa a exibir em rede nacional os programas com as finais das escolhas de samba-enredo para 2022

Durante cinco semanas consecutivas as escolas de samba estarão se apresentando, logo após o programa Altas Horas. As gravações foram realizadas nas finais dos concursos promovidos pelas agremiações na Cidade do Samba.

Embora ainda seja prematura uma análise definitiva sobre a qualidade da safra vencedora para o próximo Carnaval, sem dúvida, algumas obras surgem com potencial para empolgar foliões e levarem suas escolas ao sucesso nos desfiles da Marquês de Sapucaí.

Samba-enredo é uma música feita sob encomenda, a partir de um tema definido e cujo propósito só se completa na avenida. Por isso, qualquer opinião formada antes dos componentes pisarem o asfalto do Sambódromo, corre o risco de solenemente ser desmentida após a Praça da Apoteose. Não faltam exemplos disso. Samba-enredo é obra em construção, que só se completa ao som da bateria, no canto, dança, animação de desfilantes e no conjunto visual de fantasias e alegorias. Tudo isso forma aquela aura mágica, entre o êxtase da avenida iluminada e o trágico imprevisível, que pode ser tanto a quebra de um carro alegórico como a queda de uma porta bandeira.

Entretanto, olhando apenas para esta fase inicial das escolhas, onde a avaliação se pauta em letra, melodia e adequação ao enredo proposto, algumas obras se destacam. O diferencial é a diversidade melódica e o esmero poético que os compositores têm procurado dar aos sambas, o que tem trazido uma renovação a este gênero musical.

Destaque para o inovador samba da Unidos do Viradouro, em forma de carta, no qual, alegoricamente, um Pierrô escreve com saudades de sua amada (que no caso é a própria folia). O enredo trata do Carnaval de 1919, o primeiro após a epidemia de gripe espanhola que matou milhões de pessoas em todo o mundo. Um paralelo com o nosso atual cenário, que ocasionou inclusive o cancelamento dos festejos deste ano.

Outro samba também que se destaca é o da Mocidade Independente de Padre Miguel, que homenageia o orixá Oxossi, seu padroeiro. O refrão final promete levar ao delírio os independentes e resume tudo o que a verde e branca quer mostrar: “Arerê, arerê komolodé / todo ogan da Mocidade/ é cria de Mestre  André “, finaliza o samba que não só homenageia o maior mestre de bateria de todos os tempos, mas a origem do toque dos seus instrumentos de percussão, fincada na batida em reverência a Oxossi.

Os sambas de 2022 têm uma forte referência na afirmação da identidade negra e indígena. A rigor, apenas a São Clemente, que homenageia o ator Paulo Gustavo, falecido recentemente, não conta uma história nessas referências. Agora é aguardar o lançamento das gravações oficiais e conferir o desempenho dessas obras daqui para a frente.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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