Que haja disciplina no querido Pavilhão Tricolor em 2020

Todos os seres humanos possuem determinadas certezas nas quais acreditam plenamente. Em meu caso, é a de que sou tricolor de coração. Jamais escondi meu apreço pelo Fluminense Football Club, agremiação pela qual torço desde menino. Não obstante, relativizar impasses nunca foi do meu agrado. Portanto, o único grande clube de futebol do Rio de Janeiro isento de “regatas” em sua denominação precisa ser advertido com urgência.

Verdade seja dita, eu tive o privilégio de vibrar com o Fluminense na conquista de dois Campeonatos Brasileiros; uma Copa do Brasil; uma Primeira Liga e diversos turnos do Cariocão, bem como o mesmo de forma principal. Também amarguei uma infinidade de derrotas catastróficas, sendo o vice-campeonato da Taça Libertadores da América e o da Sul-Americana as mais doloridas. No momento presente, já não me exaspero com as vitórias garantidas que foram descartadas em uma porção de jogos no Brasileirão de 2019, até porque a nova comissão técnica vem trabalhando para diminuir essas falhas bruscas.

Quem acompanhou a maior competição brasileira de futebol no ano passado está ciente dos erros de arbitragem que prejudicaram — e muito — o Fluminense em uma série de confrontos. Mas nem isso serve como pretexto quando o time se atrapalha sozinho dentro de campo, perdendo uma batelada de gols e, consequentemente, as partidas. Se toda aquela bravura insigne da terceira rodada contra o Grêmio em Porto Alegre tivesse eclodido no Tricolor das Laranjeiras em outras nove ou dez ocasiões, o Time de Guerreiros acabaria o Brasileirão com o passaporte carimbado para a Copa Libertadores da América.

Pela quarta vez consecutiva, o Fluminense conseguiu uma vaga para disputar a Copa Sul-Americana. No total, será a nona participação do clube neste torneio. É válido acentuar que o retrospecto do Tricolor Carioca nessa competição tem sido bastante admirável nos últimos anos. Todavia, a classificação ocorreu bem no apagar das luzes — assim como a extinção do risco de queda para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.

Ao contrário do que ocorre na Taça Sul-Americana, o Fluminense vem se apresentando de maneira horrorosa nos campeonatos brasileiros desde 2015, tendo um décimo terceiro segundo como o resultado final menos pior. Este ano, terminou a competição em décimo quarto. É uma vergonha terrível para um clube tetracampeão da elite do futebol nacional.

O montante de quase R$ 13 milhões que o Fluminense recebeu da CBF por sua colocação ao término do campeonato tem sido empregado no pagamento de salários atrasados de diversos profissionais nos quadros da agremiação e demais compromissos. O atraso nos proventos é apenas uma entre várias outras razões que justificam a dificuldade que o Time de Guerreiros encontra para manter o elenco — sobretudo os destaques.

Que a diretoria atual do Fluminense procura saldar os débitos mais perniciosos da agremiação é um fato indissolúvel. Essa gestão, aliás, sobreveio ao clube em ato excepcional e contínuo mediante eleições que foram antecipadas por conta de inúmeras turbulências da administração pregressa. Desse modo, seria injusto projetar na coordenação vigente toda a culpa do desempenho pálido e instável que o Tricolor Carioca expõe no futebol há cinco temporadas. Porém, já demonstra que gostaria de conservar uma disformidade que assola a instituição: a venda de atletas que são pratas da casa por um valor ínfimo.

Os dirigentes da única instituição futebolística que detém a Taça Olímpica no mundo inteiro não devem seguir tolerando essa rotina especulativa que dessangra o Fluminense e ressalta um claro amadorismo político à frente do clube. Por efeito de uma enxurrada de dívidas, a agremiação sofre com deliberações insensatas da sua mesa diretora, que vem realizando acordos sem que haja uma verificação minuciosa das cláusulas para detectar os virtuais ônus técnicos que estes ajustes causariam à própria entidade. Não é possível reger tamanha estrutura sob um prisma tão vulnerável — a não ser que os cartolas tenham como objetivo fazer a Máquina Tricolor permanecer estacionada na zona intermediária dos torneios.

O Campeão do Rio de Janeiro do Século XX não pode deixar que o fascínio acarretado por quantias tacanhas o estimule a doar suas melhores peças, dado que tal procedimento não elimina as adversidades financeiras do clube. O que a situação exige é que um conselho de auditores seja designado para analisar as dívidas e escriturações contábeis do Fluminense com rigor e profundidade.

O Tricolor das Laranjeiras não irá atingir o topo da montanha se desfazendo de jogadores essenciais para o bom funcionamento de seu esquema tático; ainda mais com eles aportando nos times que possuem rivalidade histórica com o Fluminense e que sempre foram seus principais concorrentes em diferentes torneios. É óbvio que as transações envolvendo os desportistas da agremiação constituem uma das maiores atividades do clube, mas se o propósito da instituição é desenvolver os Moleques de Xerém a fim de negociá-los com outras entidades para obter míseros vinténs, o Time de Guerreiros acabará definitivamente fora do escalão superior do futebol que ele ajudou a construir.

Mesmo que essa intenção não exista, o Fluminense está se transformando em um mero integrante de campeonatos, resumido em um sodalício que batalha para escapar do rebaixamento. Se o Tricolor Encarnado não reavaliar seus conceitos logísticos imediatamente, suas chances de angariar títulos expressivos nas décadas ulteriores serão praticamente nulas. E, na condição em que o futebol tem vigorado dentro e fora do Brasil, fica provado que não há mais espaços para aventureiros. O vértice das quatro linhas é, primordialmente, um setor profissional.

Que o renque de torcedores e sócios do Fluminense não se enganem com as partidas iniciais do time contra equipes de níveis inferiores no Campeonato Carioca — o elenco que o adversário da Gávea utilizou no “Clássico das Multidões” era composto por jovens da categoria sub-20 — ao ponto de esquecer que o clube não voltará a ser monumental com seus entusiastas ignorando suas diretrizes administrativas pusilânimes e incúrias. Apesar das questões estarem na órbita do futebol, nem tudo é resolvido com bola na rede.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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