Quando um amigo dá certo

Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, já dizia Milton Nascimento. Agora, amigo de verdade, abre a porta e aproveita a vida sem se preocupar em trancar de novo

Conheço o Juarez Botelho faz uns 40 anos. Isso é uma amizade pra lá de sólida e de muitas alegrias e tristezas também. Nossa amizade já passou por várias situações. Estivemos em grandes eventos, em lados opostos nas arquibancadas do Maracanã, e me refiro ao estádio antigo, onde as arquibancadas eram de concreto, E ao final, nos encontrávamos e voltávamos para casa rindo e brincando um com o outro sobre o que aconteceu na partida de futebol. Tempos bons. Já estivemos afastados por um longo período, quando ele foi para a França se especializar. Foram 3 longos anos.

Depois que voltou, no fim dos anos 90, pudemos matar as saudades e nos divertir por um tempo, pois no início de 2002 ele retornou à Europa e passou longos dez anos. Mas nunca deixamos de nos falar. No passado era mais complicado devido à correspondência demorar a chegar e as ligações caras, não ajudavam. E ele sempre esteve ali, ao meu lado, me incentivando em todos os momentos de minha vida, assim como eu também estive presente na dele.

Lembro-me quando me ligou para falar que se casaria com uma francesa que conheceu no Louvre. Na época achei que poderia ser precipitado, pois havia apenas 3 meses entre o conhecer e o pedido de casamento. E, sinceramente, acho que na verdade eu estava era triste em não poder estar presente no momento mais importante de sua vida.

Algum tempo depois, ele me ligou dizendo que eu estava certo quanto a volúpia em ele querer se casar. Disse-me que na verdade estava querendo uma companhia para passar o tempo que precisava longe de seu país. Eu disse a ele que às vezes nos confundimos com sentimentos e esse é o nosso maior problema, pois em alguns casos selamos nosso destino.

Venha o que vier, meu amigo, a gente sempre vai se encontrar

Passou algum tempo e ele veio visitar o Brasil e aproveitamos e colocamos o papo em dia. Não há nada melhor que estar pessoalmente num bate papo e interagir com as pessoas que gostamos. Mais tarde teríamos a internet para seguirmos atualizando os assuntos. Oh, meu amigo, quantas vezes não choramos juntos diante de tamanhas injustiças e sofrimentos alheios. Quantas vezes nos deparamos com situações que nos tiravam o sono.

Quantas vezes estivemos juntos, lutando por um sonho que nos deixaria a um passo da felicidade. Quantas vezes não choramos sentados à beira do meio fio por percebermos o quão pequenos éramos nessa luta. O tempo passou e as feridas ainda doem. Mas como diz um sábio amigo em comum, “Garoto, a vida é para ser vivida”. É verdade, e estamos novamente numa luta incessante pela felicidade, pelo amor e pela justiça. A vida nos brinda com sugestões todos os dias. Nós é que muitas vezes não enxergamos os sinais. Juarez foi um sinal divino que chegou em minha vida para ser uma espécie de mentor. Ele sempre tem uma palavra confortante ou uma maneira de me deixar mais esperançoso com o mundo.

No início da pandemia ele voltou para o Brasil, e hoje está morando com a mãe dele, o que foi muito bom, pois ela estava vivendo sozinha e com uma idade avançada necessita de cuidados especiais. Juarez voltou só, não casou por lá e hoje ainda solteiro por conta da pandemia. Disse que assim que tudo se normalizar, irá atrás de um grande amor capaz de prendê-lo por aqui; caso contrário, voltará para a França e levará sua mãe. Hoje em dia não sinto muito se isso acontecer, já que temos a internet e toda a tecnologia que nos possibilita mantermos a nossa amizade mesmo que distante.

Muita gente deve estar se perguntando por que resolvi falar hoje de Juarez Botelho e eu posso explicar em algumas frases. Todos nós precisamos ter um amigo em quem confiar. Necessitamos viver cercado de pessoas que nos agregam e nos respeitam como somos. Nos faz crescer quando temos algo assim. Sempre digo que a amizade verdadeira respeita. Respeita pontos de vistas, ideologias, crenças, opiniões, opções e acima de tudo respeita a amizade. Já tivemos alguns “arranca rabos” sim, quem nunca teve? Mas com respeito mútuo. E é por isso que durante esses quase 40 anos de amizade nós nunca ficamos sem nos falar por desavenças.

Enfim, que a nossa amizade transcenda todo esse momento difícil que o mundo passa e que em breve possamos nos encontrar e matar as saudades bebendo aquela cervejinha gelada e aquela resenha gostosa. Em tempo: Espero, de verdade, que ele encontre um grande amor por aqui e possa ficar aqui e teremos mais tempo para nossas resenhas.

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e