Prédio que caiu: morador dormia no trabalho para economizar dinheiro

Os prédios foram construídos em uma Área de Proteção ambiental, em uma comunidade dominada por milícias, sem respeitar a legislação em vigor

O porteiro José Carlos Dantas de Souza tinha se mudado para seu novo apartamento havia seis meses, depois de seis anos economizando cada centavo para realizar o sonho da casa própria, e sair do aluguel que pagava na Rocinha.

Na semana passada, Souza comemorou seu aniversário de 49 anos com a esposa e seus dois filhos no apartamento da família, no prédio recém-erguido na rua Figueira do Itanhangá, o 93-B – que ruiu na manhã desta sexta-feira, carregando seus investimentos de vida e móveis recém-comprados para o chão.

“Aquele foi um dia feliz”, diz, mostrando as fotos da família, sorridente, antes de ele soprar a vela do bolo na frente das novas paredes, pintadas de azul claro.

“Era um sonho. Comprei o apartamento no tijolo e paguei para fazer todo o acabamento. Fiz ele todo no porcelanato, ficou um ouro, um brinco. Você via até o reflexo do rosto no chão”, descreve. “Era um show o apartamento. Era o 402. Era”, enfatiza.

Desespero em busca de sobreviventes

O desabamento de dois prédios adjacentes na comunidade da Muzema, na zona oeste do Rio, ocorreu após as fortes chuvas do início da semana, que colocaram a cidade em estágio de crise e levaram o prefeito a decretar calamidade pública.

Ao longo do dia na sexta, vizinhos e familiares desesperados em busca por notícias dos moradores se aglomeravam na rua, afastados do local por um cordão de isolamento, aguardando ansiosamente notícias sobre as vítimas, e trocando informações sobre seus conhecidos. Até o meio da tarde, os bombeiros confirmavam três mortos e dez feridos no desabamento.

Uma mulher implorava para que bombeiros a deixassem passar porque queria poder gritar o nome da irmã e ver se ela respondia.

Uma família se abraçava aguardando notícias de um casal de moradores, pais de quatro filhos pequenos. Um grupo de amigos conversava sobre os prédios erguidos recentemente no local, conhecido como condomínio Figueira. “É tudo clandestino”, dizia um, balançando a cabeça.

O impacto do temporal foi tão grande na cidade toda que acabou por impedir Souza de voltar do serviço, na zona sul do Rio, para casa – o que salvou sua vida e a de sua família.

Desde terça-feira ( ele, a mulher e a filha de 11 anos haviam dormido no prédio onde ele trabalha como porteiro em Ipanema. Estavam tomando café da manhã quando um amigo mandou uma foto avisando que havia caído um prédio na Muzema. Era a sua própria casa.

“Seis anos de trabalho estão ali embaixo”, diz apontando em direção ao prédio. Ele queria ver o que sobrou mas era impedido de se aproximar por causa do cordão de isolamento com que as autoridades fecharam a área. A seu redor, outros moradores da rua e parentes desesperados de pessoas que estavam no prédio aguardavam a evolução dos trabalhos de resgate.

Souza investiu cerca de R$ 90 mil no imóvel – R$ 60 mil para comprar o apartamento “no tijolo” e outros R$ 30 mil para o acabamento interno. Vem pagando R$ 1 mil por mês com o dinheiro que ele e a esposa, empregada doméstica, conseguiam economizar.

“Teve dia de eu ficar no trabalho para economizar no dinheiro da passagem para vir para casa, com fé em Deus em sair do aluguel”, diz. “Mobiliei todo, parcelando tudo no cartão. Estava realizado. Mas o sonho da casa própria foi por água abaixo. Mas graças a Deus que a gente sobreviveu. A vida continua”, afirma, sem ideia, no entanto, do que vai fazer agora.

Souza é da Paraíba, chegou ao Rio há sete anos e até o ano passado morava em um imóvel alugado na Rocinha.

Medo após o temporal

Segundo a Prefeitura do Rio, os prédios que desabaram eram construções irregulares, não autorizadas por órgãos fiscalizadores. Foram construídos em uma Área de Proteção ambiental, em um comunidade dominada por milícias, sem respeitar a legislação em vigor.

Souza diz não saber de nada disso. “Achei a rua bonita e quis vir para cá”, afirma sobre a área, com prédios novos enfileirados um ao lado do outro, geminados ou com vãos mínimos os separando, na ladeira que termina em um paredão de pedra.

A rocha parecia uma cachoeira durante as chuvas, diz Souza. Ele mostra a força das águas caindo em um vídeo que recebeu de um amigo. A correnteza desceu carregando paralelepípedos e abrindo crateras pela rua – e espalhou o temor de que a estrutura dos prédios poderia ter sido afetada.

Esse medo acabou por salvar a vida de uma família de vizinhos de Souza, do também porteiro Rosoaldo José Messias, de 52 anos. Desde a terça-feira, sua esposa e suas duas filhas vinham dormindo na casa de seu cunhado, um pouco mais abaixo, na mesma rua.

“Elas estavam preocupadas em ir para casa por causa dessa água toda que desceu”, diz.

Já ele havia dormido no apartamento novo, sozinho, e saiu pouco antes de o prédio desabar. Acordou, levou o cachorro para dar uma volta e saiu para o serviço às 6h. Quando ainda estava no caminho, sua mulher ligou avisando que o edifício havia ruído.

“Estamos todos bem, graças a Deus. Mas por pouco não estava todo mundo dormindo lá”, diz, aflito. O cachorro estava em casa, mas Messias tem esperança que tenha escapado e apareça.

Messias se mudara para o prédio em janeiro. Diz que os prédios da rua são todos novos. “Rapidinho foram construídos”, diz.

“A água do temporal desceu da pedra com muita força e foi passando debaixo dos prédios. Foi molhando, molhando… Acho que deve acontecer mais tragédia ainda”, teme.

“Fazer o quê, né? Estou no prejuízo. Mas graças a Deus estamos com vida”, diz.

Outros moradores de prédios vizinhos estão agora impedidos de entrar em suas casas – como a garçonete Virgínia Maria de Araújo Silva, de 36 anos, que acordou com o estrondo do desabamento e saiu às pressas. “Hoje faz exatamente um mês desde que eu me mudei para cá”, conta.

O seu prédio e outras construções estão temporariamente interditadas até que a Defensoria Pública possa realizar vistorias para atestar sua estabilidade. No momento, entretanto, todos os esforços estão concentrados no trabalho de resgate.

BBC

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