Potinhos: os meus, os seus, os nossos

Histórias guardadas no vácuo do tempo. Herméticos ou não, uni-vos

Semana passada recebi um email muito esdrúxulo, para não dizer vazio, a respeito de um comentário meu num texto sobre uma marca conhecida de potes herméticos que não devo mais falar. Nem comprar.

De repente, me lembrei de quando essa marca veio para o Brasil e foi mesmo uma devassidão de vendedoras que vinham em casa vender, junto com a sua doçura, esses potes milagrosos. Eram tão incríveis que duravam mesmo muito tempo.

E assim a vida seguiu, como também seus potes. Guardados os potinhos, esses seres inanimados que desanimam quando chega a hora de guardar no armário. Quantas vezes você já se viu guardando tudo nesses potes, sem tampas ou com as mesmas esmagadas ou perdidas? Devem ser da mesma família das meias que somem dentro das máquinas de lavar.

O povo dá nomes, inventa um outro que não seja o de verdade. Uma moça, há milianos atrás, veio me perguntar se eu queria coisas de Tupué. Mesmo sem saber o que e onde Tupué fica, ou o que é, comprei e realmente durou uns 20 anos na minha cozinha e mais uns 15 na garagem, depois que serviu para limpar o carburador de uma moto.

A verdade é uma só: potes têm nomes e vida própria. Potes de plástico, de sorvete, com marca registrada, sem marca. De sorvete, shampoo, óleo, gelatina, margarina. Esses são os melhores, cabem tudo e, se espremer, cabe mais um pouquinho. Só mais um. E potes de geleia, então? Quem nunca teve uma coleção de potes guardada num canto obscuro do armário, só pra dar pra vovó fazer as tampinhas de crochê?

Quem precisa de marcas quando a criatividade é a que manda?

Um armário sem potinhos não é um armário em casa nenhuma. Impossível não se render a, pelo menos um desses potes que cabem na palma da mão, na boca do gato, na bolinha do cachorro, na ração do macaco, do passarinho, da girafa, da gente sem casa, da marmita rápida, do bolo da festa pra levar embora.

Potes que viram cofrinhos, casinhas, pratinhos, ninhos, experiências, guardam parafusos, arruelas, pregos, gasolina de refugo, óleo velho, daqueles bem rançosos, só pra jogar no lixo – o certo, claro – sem pena de jogar o pote fora, porque já cumpriu sua missão na terra.

E potes de praia, então? Esses voltam pra casa, depois das férias, cheios de conchas, algas, restos de esqueletos de peixe, mato e areia, muita areia, sujando todo o tapete do fusca, junto com a gasolina.

Devo lembrar que esse mesmo pote foi aquele que foi viajar com delícias de farofa, com tortas de palmito, pães de hot-dog recheados de salsichas com molho, pedaços de mexerica descascada. E voltaram para onde vieram, fiéis e cheios de histórias. Que vão para os armários, sem tampa, sem nome, sem marca. Sem frufru. Porque, afinal, todo pote de plástico tem o mesmo sentido: o de ser usado até que se desfaça, se quebre, se rache. Mas que marcou um momento, independendo de onde veio.

Só quem já comprou um pote milagroso, que nunca vaza, dura mais de 10 anos e nunca estraga sabe: ele vaza, quebra e fica largado como todos os de sorvetes, margarinas, geleias, óleos. Lixo reciclado neles. Lembranças coladas na testa, na bolsa, no carro.

Registrada fica só a história, marcas agora já não são lembradas. Joga lá no pote.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 4 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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