Por que ‘Jurassic Park’ não deveria receber esse nome?

A ironia por trás do nome da franquia ser 'Jurassic Park'

Apesar de o título do filme fazer referência direta ao período Jurássico (entre 205 a 142 milhões de anos atrás) a maioria dos dinossauros que aparecem nele pertencia ao Cretáceo (de 145 milhões a 65 milhões de anos atrás). Os roteiristas Michael Crichton (médico autor do livro homônimo que deu origem aos filmes, e único artista criativo a ter obras simultâneas no topo, na televisão com a série médica ”ER”, no cinema com a franquia ”Jurassic Park” e na venda de livros com ”DISCLOSURE”) e David Koepp (roteirista de sucessos como ”Zathura” e o clássico primeiro filme da trilogia do ”’Homem-Aranha”, estrelada por Tobey Maguire), reconheceram o erro cronológico em uma das falas iniciais do Dr. Alan Grant (Sam Neill).

A fala aparece no início do primeiro filme da série, na cena do acampamento de escavações em um deserto do estado estadunidense de Montana (07:46 – 09:00 min do filme), onde ele declama um monólogo científico para um garoto descrente da existência de dinossauros. Na breve declamação ele enfatiza a veracidade e a genialidade da existência do Velociraptor, Dr. Grant diz ao garoto:

“Tente se imaginar no período Cretáceo…”

Monólogo científico do Dr. Alan Grant

Será que os dinossauros só existiram no período Jurássico?. Apesar de a dúvida parecer uma prerrogativa inerte a resposta concreta é não. Os dinossauros não existiram apenas no período Jurássico que corresponde ao segundo período da Era Mesozoica entre 205 a 142 milhões de anos atrás. Ao longo da faixa cronológica que corresponde ao tempo geológico e as eras geológicas, a Terra sofreu inúmeras alterações geológicas, em sua estrutura e na forma de ocupação de vida, o que se fez presente com transcorrer dos milhares e milhões de anos.

Hoje, temos razoável consenso de que os dinossauros surgiram no inicio do período Triássico, tendo seu auge de existência no período Jurássico, e sendo extintos no limiar do período Cretáceo. Quanto a extinção, desde que uma cratera gigantesca foi descoberta na Península de Yucatán, no México, no começo dos anos 1990, cientistas têm afirmado que o choque de um asteroide com a Terra, há 66 milhões de anos, foi a causa da extinção dos dinossauros e de quase toda forma de vida no planeta. Mas o que provocou a destruição nunca foi consenso, e alguns estudiosos têm questionado a teoria, amplamente aceita, da “morte súbita por asteroide”. Esse grupo acredita que erupções vulcânicas massivas, que podem ter liberado gases capazes de mudar o clima numa região do tamanho da Espanha — conhecida como Basaltos de Decão — tiveram um papel significativo na devastação da vida na Terra.

A trilogia Jurassic Park (1993-2001), se notabilizou por ser a franquia cinematográfica que trouxe à vida nas telonas, pela primeira vez, os dinossauros. Nunca, em toda história do cinema, tivemos uma representação cinematográfica tão perfeita das criaturas milenares que foram aniquiladas pelo enorme meteoro que há milhões de anos deu cabo da existência desses seres quase mitológicos. Contudo, resolvi analisar os períodos em que as espécies do filme de Steven Spielberg habitaram.

Em síntese, entre os dinossauros que existiram no período Jurássico, estão: Braquiossauro (Brachiosaurus), Dilofossauro (Dilophosaurus), Estegossauro (Stegosaurus), Compsognato (Compsognathus) e Ceratossauro (Ceratosaurus). Período Cretáceo: Galimimo (Gallimimus), Tiranossauro rex (Tyrannosaurus), Triceratops (Triceratops), Velociraptor (Velociraptor), Parassaurolofo (Parasaurolophus) , Coritossauro (Corythosaurus), Barionix (Baryonyx) e Anquilossauro (Ankylosaurus). Esses são alguns dos dinossauros que habitaram nosso planeta. Ademais, matematicamente, o primeiro filme da trilogia tem em seu portfólio mais espécies do Cretáceo do que precisamente do Jurássico. Eis a ironia por trás do nome da franquia ser Jurassic Park.

Podemos também elencar alguns fatores um tanto curiosos na franquia. Respectivamente, a maioria dos dinossauros deveria dispor de penas no corpo, incluindo espécies como o Tiranossauro rex (Tyrannosaurus), Curioso, né?. Xing Xu chefe do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia de Pequim, paleontólogo chinês que nomeou mais dinossauros do que qualquer outro paleontólogo vivo, descobriu através de fósseis muito bem conservados que a maioria das espécies de dinossauros possuía penas. Um grupo de cientistas chefiados por ele analisou um série de fósseis de aves primitivas com mais de 100 milhões de anos e constataram que parte das espécies possuíam quatro asas ao invés de duas, com penas nos membros traseiros, que em tese eram úteis para voar. A pesquisa também concluiu que o processo evolutivo deve ter feito com que os pares de asas traseiras dessem lugar a patas, que foram tendo penas menores com o tempo. A renomada revista ”Science” também realizou uma análise detalhada da questão. A pesquisa do grupo de cientistas da ”Science” chegou a seguinte conclusão: 11 fósseis recém-descritos de pássaros primitivos, de gêneros como o ”Sapeornis”, apresentam evidências notáveis da presença de grandes penas nos membros traseiros, que integravam um sistema de quatro asas.

Algo que notavelmente não foi reproduzido nos efeitos especiais (um marco na indústria de efeitos especiais) na ”franquia Jurassic Park”, tampouco em sua sequela ”Jurassic World” (2018). Mas, o personagem Dr. Grant do minuto 07:18 ao 07:33 do filme, comenta esse fato detalhadamente dando um rápido exemplo com um fóssil de um Velociraptor.

Cabe um comentário, a construção virtual dos dinossauros, para que contracenassem com o elenco de carne e osso foi o que levou o primeiro filme da franquia a ser um sucesso meteórico de bilheteria (US$1.029.153.882), o que evidenciou profundamente nosso fascínio por essas criaturas pré-históricas enigmáticas e peculiares, é algo incontestável, tais seres instigam nossa imaginação, qual a pessoa que na infância não foi apaixonada por dinossauros?

Segundo fato curioso, enquanto o Tiranossauro rex (Tyrannosaurus) atacava, o Dr. Alan Grant, diz para a neta de John Hammond (Richard Attenborough): “Não se mexa! Ele não pode nos ver se nós não nos mexermos”. Bom, essa afirmação está incorreta. O Tiranossauro rex (Tyrannosaurus) não só conseguia ver mesmo que o alvo não estivesse se movendo, como também há evidências de que ele tinha uma visão excelente, provavelmente melhor que a das águias e gaviões atuais. Sendo assim, permanecer estático na frente da fera como exemplificado em ”Jurassic Park I ”(1993), de fato, não seria uma ideia perspicaz no ato de despistá-lo. O professor Kent Stevens da Universidade do Oregon constatou o seguinte, que além de uma boa visão, o Tiranossauro rex (Tyrannosaurus) também tinha ótimos sentidos de olfato e audição. Na verdade, seus imensos bulbos olfativos, quando comparados com o tamanho do seu cérebro do dinossauro, indicavam que ele tinha um olfato equivalente ao dos abutres modernos, que são capazes de sentir o cheiro de carniça a quilômetros. Agora, a grande polêmica sobre os Tiranossauros rex (Tyrannosaurus) gira em torno da velocidade deles. Vários cientistas acreditam que a velocidade máxima dos tiranossauros ficava entre 27 e 40 quilômetros por hora. Isso faria com que a cena do jipe ficasse um pouco menos dramática.

Dr. Alan Grant distraindo Tiranossauro Rex

Fechamos a lista com um fato cientificamente interessante, a tida clonagem e recriação de espécies de dinossauros através da engenharia genética por uma equipe de geneticistas, tão vangloriada pelo magnata multibilionário John Hammond (Richard Attenborough), respectivo fundador, idealizador e proprietário do parque temático, é felizmente impossível de ser reproduzida. Bora explicar melhor, em ”Jurassic Park” os cientistas da empresa InGen coletavam o DNA de animais extintos por meio da coleta do sangue existente dentro de mosquitos presos em âmbar (resina vegetal fossilizada) há milhões de anos atrás. A partir desse DNA de grandes dinossauros, esses animais eram clonados e, posteriormente, colocados no parque temático Jurassic Park, que seria aberto para visitação.

Todavia, felizmente, provavelmente nunca veremos um Braquiossauro caminhando por nosso planeta, acontece que o DNA degrada-se facilmente no ambiente e estudos recentes comprovam que 50% do material encontrado em fósseis é liquidado em menos de 500 anos. Mesmo em condições ideais, nenhum DNA sobreviveria a mais de 6,8 milhões de anos, o que significa que Jurassic Park é um sonho parcialmente impossível. Contudo, pesquisas recentes de “reversão genética” tenham tentado devolver às aves algumas características de seus ancestrais (uma vez que as aves são um grupo de dinossauros), esses animais nunca serão completamente parecidos com qualquer espécie de dinossauro que já existiu.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

É editor da página Cinema e Geografia, comentarista, colunista e repórter de cinema.

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