Pombos-correio, sua eficiência sem fim e sem meias palavras

Sua fidelidade é tanta, que é só esperar a hora em que voltam para casa. Não importa o tempo que demore, eles cumprem sem papel

Antigamente, mas nem tanto, eu adorava escrever cartas e por elas esperar a resposta por dias, semanas até, mas esperava. E elas chegavam. As notícias vinham sem pressa e a vida era bem menos estressante. Os correios eram bem menos eficientes do que hoje, não havia Sedex, muito menos internet e mensagens instantâneas. Instantâneo era saber que não tinha carta na caixa de correios ou que o telefone não dava linha. Era o que tínhamos. E sobrevivemos! Ainda adoro escrever cartas, hoje e-mails, sem selo e a expectativa da resposta vinda pelas mãos do carteiro, não ter frios na barriga a cada vez que o carteiro passava reto no portão de casa. Hoje ele só entrega as contas.

Voltando aos pombos de grife, Os pombos-correio são uma raça diferente dos pombos comuns. Usados há muito tempo, inclusive na Primeira Guerra Mundial, quando não havia comunicação por rádio, levavam recados entre os batalhões. Os pombos-correio são muito eficazes e utilizados até hoje, por serem mesmo animais especializados, com essa falta de ética e decoro nas mensagens, são mais do que úteis servidores, são mesmo – ou deveriam ser – indispensáveis. Criptografar é um processo caro e não é 100 confiável.

Imagino como deve ter sido o começo do século XX, com suas guerras e disputas de conhecimento e interceptação de dados com um simples pombo-correio, que de simples não tem nada. Os pombos-correio são uma raça diferente daquela que infernizam os nossos telhados, enchem a calha de piolhos e penas e fazem uma tremenda algazarra quando um gentil velhinho que não sabe o que fazer com as migalhas de pão as joga na calçada. Pronto. Para tirá-las dessa mania, ou TOC ou o que seja, é uma tarefa hercúlea, mas deve ser feita simplesmente para que as pombas caseiras tenham uma vida de pombas, não mendigando em cada esquina.

Certamente você já guardou um segredo que um dia vazou e caiu na boca do povo. As pombas jamais abrirão sua boca, melhor dizendo bico, elas só levam e trazem e são altamente incorruptíveis. Claro, quem vai se preocupar com uma pombinha branca voando pelo céu com tantos gaviões e urubus voando ao nosso lado o tempo todo?

Quem não se lembra dele?

Os pombos – estes em especial – são fiéis até a morte, pois sempre voltam para onde nasceram, por isso são dignos de confiança para levar e trazer mensagens. Uma das explicações mais plausíveis é a de que eles se orientam pela posição do Sol, pois possuem uma “bússola natural”, formada por partículas de magnetita no bico. O mineral apontaria o norte da Terra. Assim, eles voltam sempre para o mesmo lugar e é só para lá, não tem essa coisa de dar uma paradinha na padaria pra ver um cumpanhêro ou dar uma fugida pra uma rodada de bilhar ou umas cachaças por aí. Não. Com o pombo o papo é reto e direto, sem curvas ou atalhos.

Veja o Cher Ami (querido amigo, em francês), um pombo-correio que teve seu merecido reconhecimento depois de ter percorrido 40 quilômetros em 25 minutos, atravessando a região ocupada pelos alemães e chegou à artilharia americana gravemente ferido. Alvejado pelos alemães, acabou ficando cego de um olho, teve o peito atravessado por uma das balas e teve uma de suas pernas arrancada! Mesmo assim, entregou a mensagem, que indicava a localização do batalhão e pedia que cessassem o fogo. Os 194 soldados do batalhão sobreviveram, elevando o Cher Ami ao posto de herói. Isso foi em outubro de 1918, durante a Primeira Guerra Mundial. Quer mais fidelidade e amor ao trabalho que isso?

Duvido que, deusmelivre, numa Terceira Guerra, um pombo fosse sequer cogitado para enviar mensagens. Eles não aguentariam enviar falsidades e puxasaquismo o tempo todo, além de drones infernizando sua viagem e fazendo-o perder a rota.

São apenas (??) pombos, têm seu caráter ilibado e ótima reputação. Passariam fácil por qualquer sabatina, em qualquer âmbito. Acumulariam funções, mas nunca se desviariam de sua função. e nem cobrariam

Jamais fariam fofoca ou diz-que-diz. Só leva-e-traz, sem toma lá, dá cá. E sempre pela porta da frente, bem entendido.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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