Pocilgas, alfurja, chavascal, chiqueiro

Vivemos numa pocilga. É assim que vejo nossas cidades quando chove e a sujeira aparece

Chover no molhado. Falar alhos sem bugalhos. Mostrar sua cara feia de manhã. Acessar o esgoto digital e tentar ser feliz. Virtualmente, enquanto o esgoto de ideias vai se esvaindo ralo abaixo. Ou enchente acima, ao lado e em todos os lugares. O que perdemos nessas enchentes vai muito mais além do que “meras casinhas”? Digo meras porque depois delas, aí sim, veio a perda total. De identidade, de vida, de sentimentos. Perdeu geral.

Sem volta, sem nenhuma frente popular que te socorra. Perdeu total. Se você lacrou alguma coisa, ela ficou debaixo do esgoto de todos os petabytes que vieram na enxurrada de idiotices que vemos todos os dias, o tempo todo. Antes que isso vá além túmulo, é hora de desplugar um pouquinho e ver como a vida é na real. Mas nem só de esgoto (sobre)vive o homem. Voltamos à Idade Média e seus arredores temporais, com guerras, epidemias, saques, fome, muita fome, disputas de poder, Príncipes versus Shreks. E esgoto a céu aberto. Sério?

Galinheiros também terão essa sina?

Seriíssimo, com o superlativo aprendido na escola. Poucos se lembram e as novas gerações ou não dão a mínima pra isso ou não têm tempo de resolver alguma coisa. Falar a língua pátria sem erros, sem abreviações e, mesmo assim, falar direito, com coerência? Ficou bem longe depois que inventaram as miniaturas de links, os memes, as figurinhas. Preguiça de pensar muito para montar uma frase certa e sem ser prolixo.

Voltando aos esgotos que, de uma forma geral, vêm de todas as partes e de todas as castas, assim o é desde que o mundo é mundo. Vai continuar sendo, afinal toda a sujeira deve ser descarregada. Os ratos e urubus que se virem, nasceram para esse fim. Os porcos não, esses sabem o que querem, e não vão chafurdar em qualquer lixo, humano ou não.

Lixo é uma coisa, dejeto é outra, assim como chiqueiros e pocilgas. Uma não tem nada a ver com a outra. E os temporais vêm e deixam toda a sujeira à mostra, sujeira essa que vem lá das entranhas do nosso mundo, quando ainda éramos apenas pessoinhas menores. Hoje não. Estamos beirando os 8 bilhões de viventes, mas continuamos escolhendo errado quem deveria por obrigação nos amparar e cuidar para que as sujeiras fossem levadas para o espaço.

Eis que surge a lixeira virtual, onde todos podem falar, xingar, beijar, cuspir, babar e todos ficam felizes em não precisar mostrar quem são de verdade. Enchente, desmoronamento, desabamento, casas caindo. E assim vamos seguindo. Conecte-se na sua rede preferida e deixe que tudo fique lindo, perfumado, perfeito, com todos os retoques, afinal ninguém saberá de verdade quem somos.

Nos primórdios da civilização, diziam que quem tinha um olho era o rei. Hoje, quem tem um olho ou é sortudo ou não vê os porcos passeando por aí, de braços dados com as ratazanas. De realeza não tem nada.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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