Perfil: Mazzaropi

109 anos da face caipira do Brasil

Entre 1952 e 1980, Amácio Mazzaropi escreveu 21 filmes, dirigiu 13, produziu 24, e atuou em todos os seus 32 longas que ainda hoje fazem sucesso. O ator, humorista, roteirista, produtor, cantor e cineasta viveu por 69 anos e faleceu, em 1981, vítima de câncer na medula. O grande Mazzaropi é considerado o maior artista cômico do início da época de ouro do cinema brasileiro, e um dos poucos a ficar milionário produzindo filmes no Brasil. No quesito cinematográfico, Mazzaropi foi responsável por mostrar a face caipira do Brasil (o que muito me orgulha) e os seus costumes no cinema dos anos 50, 60, 70 e início de 80. Amácio construiu uma vasta carreira no circo, teatro, TV e cinema que durou mais de 50 anos.

Segundo Wellington Viana Barbosa do Senac RIO, o cinema de Mazzaropi é a representação objetiva da luta de classes no Brasil e o faz da óptica do flagelado, aquele que não se acanha e, assim, se torna a expressão angelical desse sertanejo matuto que afaga o nosso coração e nos dá essa sensação de nos encontrarmos a cada filme num rancho no final de tarde com café quente e bolo. Especialistas explicam que o grande sucesso dos filmes do Mazzaropi, mesmo que simples, era a identificação que as grandes massas tinham com os personagens. Principalmente as pessoas que saíram do interior para buscar melhores condições de vida em São Paulo a partir dos anos 1960.

Última entrevista de Mazzaropi, Programa da Hebe, Band (1979)

Em 1952, Mazzaropi iniciou sua carreira no cinema, arte que o tornaria reconhecido e aclamado. Seu primeiro filme, ‘‘Sai da Frente’’ (1952), foi rodado naquele ano, e três anos mais tarde ele vendeu sua casa para criar a produtora ‘Produções Amácio Mazzaropi’ (PAM Filmes). A partir de então, passou a produzir, dirigir, atuar e roteirizar em seus próprios filmes, que foram distribuídos em todo o território nacional.

‘‘Mazzaropi compreendeu como ninguém todo o processo de produção/distribuição e exibição do cinema. Sua empresa – a PAM – investiu na infraestrutura da indústria cinematográfica brasileira, adquiriu todos os equipamentos necessários, construindo um estúdio em sua fazenda, na cidade de Taubaté. Ele montou uma distribuidora com negociações com as salas exibidoras, sendo responsável por 20% da arrecadação dos filmes nacionais entre os anos 1970 e 1975. Sua marca costumava ser de 3 milhões de espectadores por filme. Ele ficou conhecido em todo o Brasil, mas seu maior sucesso era em São Paulo – capital e interior – Minas Gerais e Paraná’’, revela a professora Cláudia Mogadouro do Grupo Cinema Paradiso.

Seus filmes fizeram sucesso extraordinário, levando mais de 160 milhões de espectadores aos cinemas em todo o país. Nos últimos anos, as duas produções nacionais com maior público no país foram ‘‘Minha vida em Marte’’ (2018) e ‘‘Minha mãe é uma peça 3’’ (2019), que alcançaram juntas quase 7 milhões de espectadores. Só para entendermos a importância e a dimensão da “franquia Mazzaropi”, os filmes de maior sucesso do cineasta, “Jeca Tatu” (1959) e “Casinha pequenina” (1963), figuram na lista dos 50 filmes de maior bilheteria feitos no Brasil, com cerca de 8 milhões de espectadores cada. De acordo com o cineasta Celso Sabadin, estima-se que Amácio Mazzaropi tenha vendido mais de 200 milhões de ingressos para o cinema somando os seus 32 filmes. Vale destacar que era uma época na qual o Brasil tinha 70 milhões de habitantes. Diferente dos demais cineastas nacionais, Mazzaropi tinha poder para escolher a data e a sala em que seus filmes estreavam (quase sempre no feriado do aniversário de São Paulo, 25 de janeiro). Ele era tão querido que o público sempre esperava suas estreias anuais. Brasil a fora, os fãs lotavam as salas de cinema, com públicos muito superiores aos grandes sucessos da suntuosa Hollywood.

Mazzaropi em ‘‘O Corintiano’’ (1966), de Milton Amaral

Entretanto, na época, os filmes não eram bem recebidos pela crítica especializada, pois seus filmes eram muito simples, baratos, com argumentos e roteiros rasos. Mas o sucesso com o público popular era gigante, sua popularidade derivava do humor ingênuo e autêntico que era apoiado na cultura caipira.

Em plenos anos 1970, Mazzaropi falou às multidões sobre assuntos importantes como o preconceito racial. No filme ‘‘Jeca e seu filho preto’’ (1978), o humorista interpreta Zé, o pai de um rapaz que ‘misteriosamente’ é negro. Seu último filme, “O Jeca e a Égua Milagrosa” (1980) mostra a história de dois fazendeiros, Libório (Turíbio Ruiz) e Afonso (Paulo Pinheiro), que disputam votos para ganharem a eleição para a prefeitura de uma cidade pequena. Eles têm terreiros de umbanda e candomblé, utilizando os espaços para ganharem frequentadores e votos.

Entrevista de Mazzaropi a Marília Gabriela, Rede Globo (1975)

Os filmes do cineasta são frequentemente exibidos na TV Brasil, TV Cultura e TV Aparecida, e costumam registrar audiência mais alta do que o restante da programação da emissora. Uma característica marca a narrativa Mazzaropiana, todos os filmes de sua carismática filmografia mostram o personagem caipira vivendo situações diversas, que vão desde problemas em sua cidade até uma confusão que o leva a Bariloche.

‘‘Assim como o cinema estadunidense perpetuou o arquétipo dos detetives e investigadores, ou seja, personagens de personalidade fria, observadora e sagaz através dos filmes policiais do cinema noir, aqueles em preto e branco tão presentes nos anos 1940 e 1950, mais ou menos na mesma época, no Brasil, nascia um cinema malemolente e despretensioso tendo como protagonista um perfil do nosso povo até então pouco explorado em nossa arte: esse “caipira” sertanejo, que atua no seu tempo, que é alheio à rotina e à burocracia das grandes cidades; um anti-herói que nos muniu de trejeitos e símbolos para caracterizar um pouco mais essa face brasileira’’, lembra Wellington Viana Barbosa do Senac RIO.

Para o público jovem que deseja conhecer esse expoente do cinema nacional, no canal do Museu do Mazzaropi, no YouTube, estão disponíveis gratuitamente vários filmes completos, além de entrevistas e trechos das obras do cineasta. Vale a pena conferir. Os canais abertos TV Brasil, TV Cultura e TV Aparecida também costumam exibir sessões especiais com os filmes deste que é a melhor representação do típico brasileiro interiorano (rende ótimos índices de audiência para as emissoras).

Bora de indicações para maratonar no feriado:

1) ‘‘Jeca Tatu’’ (1959), de Milton Amaral.
2) ‘‘Mazzaropi’’ – Chofer de Praça (1958), de Milton Amaral.
3) ‘‘O Puritano da Rua Augusta’’ (1965), de Amácio Mazzaropi.
4) ‘‘O Corintiano’’ (1966), de Milton Amaral.
5) ‘‘Jeca contra o Capeta’’ (1975), de Amácio Mazzaropi.
6) ‘‘Jecão, um Fofoqueiro no Céu’’ (1977), de Amácio Mazzaropi e Pio Zamuner.

Vocês podem assistir aos seis longas em alta resolução no canal oficial do Museu Mazzaropi no YouTube. Boa sessão e bom feriado.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

É editor da página Cinema e Geografia, comentarista, colunista e repórter de cinema. Escreve para 4 portais e 1 site.

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