Parole, parole, parole…

Palavras são feitas de ideias criadas a partir de uma caneta. Virtual ou não

Tenho um fetiche por canetas. Canetas que vão a um papel, guiado pelas minhas mãos e que viram palavras. Aqui em casa, como toda paranoica viciada por canetas, todas elas somem para indefectivelmente aparecerem nas minhas coisas. Eu nego. Eu escondo. Eu escrevo. Canetas tinteiro, esferográficas, gel, rollerbal, ponta de feltro…todas!!

Agora com o advento da modernidade do computador, rabisco muito menos com as canetas e muito mais com o teclado. Mas o fetiche continua firme e forte, afinal, é como uma mascote de bolso, de bolsa, de vida. Escrever é, para mim, como uma religião, sem padres ou igrejas, mas a fé e a energia que me dão fazem eu sentir o vento das asas dos anjos no meu cangote. Na verdade, podem ser meus gatos passando por perto, respirem atrás de mim e eu acho que são anjos. Mas os gatos também são anjos. De quatro patas, de bigodinhos e rabos quilométricos, mas são anjos. E acabam me dando inspiração para escrever, agora sem as minhas canetas BIC – as melhores -, no teclado que ferve com as minhas ideias delirantes e às vezes sem nenhum sentido. E que no final, todos entendem.

Todos os lugares me inspiram, mas se por perto uma caneta e um guardanapo estiverem dando sopa, é o que preciso para rabiscar umas palavras soltas que um dia virarão algo melhor que uma simples manchinha num papel. Minha irmã mais velha me disse uma vez, lá pelos meus cinco anos -um pouco mais da metade do século passado-, que eu iria crescer e virar escritora. Mal sabia ela que eu fiz tudo ao contrário e, depois que a bagunça se arrumou, eu comecei a escrever de verdade. Foi a única coisa certa que ela me disse. Na verdade, ela pode ter dito mais coisas certas, porém nunca confirmei nenhuma delas.

Ah, as tinteiros e seus mata-borrões

Voltando às canetas, nunca pensei que canetadas pudessem ser traduzidas como demissões, expulsões, exonerações. Para mim, canetadas sempre serão cutucadas com a caneta nas costas, nas mãos, nos pés, nos outros. Palavras são palavras. Únicas, são elas que marcam um momento determinado de vida e norteiam um futuro certo. O seu futuro.

Aprender a compreender faz parte desse jogo. Apagar não. As palavras borram, mas não somem. Escolher errado uma caneta pode te dar a chance de escrever outra linha depois, mas com a caneta e a letra certas. Rabisque primeiro com lápis, se não rolar direito, é só apagar antes de fazer um buraco no papel. Assim a vida segue, poupe as canetas de uma vergonha maior. Escreva com uma BIC como se fosse uma Montblanc. E guarde-a numa gaveta intocável para os outros, a sua gaveta, sem canetar as ideias ou os ideais.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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