Pantanal com Wifi

Gosto muito de histórias de época justamente por nos remeter a uma época diferente da que estamos vivendo. Pantanal era para ser assim, a simplicidade de uma terra, na simplicidade de uma vida

Estava essa semana conversando com algumas pessoas e o assunto era Pantanal. Isso mesmo, a novela de Benedito Ruy Barbosa que encantou o Brasil em 1990. Na minha opinião, a melhor novela de todos os tempos. Foi a junção de ferramentas simples e que dão sucesso quando aplicadas sem medo e compromisso. Natureza, amor, histórias do povo, raiz e por fim, um elenco compromissado com o projeto.

A história foi oferecida à Rede Globo em 1980, ou seja, dez anos antes, mas pela linha editorial da emissora e o formato ser muito diferente da linha seguida por lá, ela foi rechaçada. Colocada de lado. Benedito, naquele instante se viu desprestigiado, mas não se deu por vencido. Uma década depois, na extinta Rede Manchete, ofereceu o projeto, e por lá, que já não andava bem das pernas, a beira da falência, o projeto foi aceito e tratado como a “salvação da lavoura”, pois ingredientes tinha para o sucesso que a esperava. E ao contrário da Vênus Platinada, a emissora da Glória, no Rio de Janeiro, apostou todas as fichas na novela, que viria a ser uma das mais vistas da emissora e a única capaz de bater a Globo no horário.

Pantanal teve quase um ano em cartaz e sua audiência só aumentava, à medida que a história se desenrolava. Os anunciantes batiam na porta da Manchete e os cofres enchiam. Foram momentos dignos de um final feliz. O Grupo Bloch jamais poderia imaginar que uma novela rejeitada pelo melhor canal que faz novelas no Brasil, seria o maior sucesso do seu canal de entretenimento. E foi. Eu posso registrar aqui meu testemunho, pois eu assisti à novela do começo ao fim. Linda novela. Lindo enredo, digno de um futuro filme, quem sabe.

Mas, 30 anos depois, a Rede Globo de Televisão, em meio a uma crise econômica jamais vista na emissora, resolveu apostar no remake da trama. E não era de hoje que o canal 4 do Rio de Janeiro namorava e até assediava seu autor em busca dos direitos da novela. Quando a emissora do Grupo Bloch, a Rede Manchete fechou as portas e teve seu patrimônio físico e suas obras em leilão. Na época, Sílvio Santos comprou as fitas da novela Pantanal e num golpe de marketing, a reexibiu em seu canal, o SBT. A briga corre até hoje nos tribunais. Na verdade, Sílvio Santos não poderia ter exibo a obra, pois comprou apenas as fitas da novela e não a obra textualizada. Não foi a primeira vez que Sílvio Santos tenta de uma forma infantil “roubar” audiência de suas concorrentes.

Em 2002, quando a Globo estreou o Big Brother Brasil, meses antes, ainda em 2001, ela estreou a Casa dos Artistas, fenômeno de audiência da emissora. Mas aí, apesar de ser o mesmo formato, era original. Já as fitas de Pantanal, jamais poderiam ter sido passadas pelo SBT sem o consentimento do autor, que mais tarde a vendeu para a Globo. Pantanal ficou anos engavetada na Globo e foi parar na Manchete. Depois que voltou à Globo, ficou mais um bom tempo engavetada a espera para ser remontada. A princípio, a Globo tentou reprisar, mas esbarrou em alguns problemas contratuais.

A verdade é que para muitos da Rede Globo, um “erro” gigantesco está sendo reparado. Quando lá atrás, a emissora desprezou a novela, não poderia fazer ideia do sucesso que ela faria. Levantou a Manchete por quase uma década. Depois ajudou o Silvio Santos, mesmo que ilegalmente, pois a sua emissora passava por uma crise muito grande. E agora, justo agora, que a Vênus Platinada sofre sua pior crise existencial, lá vem José Leôncio, Joventino e Juma Marruá salvar a emissora do Jardim Botânico. Seria isso, mais um problema para o “Véio do Rio” resolver? Quem sabe.

A primeira versão da novela, como disse, assisti todinha e quando reprisou no SBT, assisti a alguns capítulos, quando dava. Quanto ao Remake, assisti o primeiro capítulo e depois só fui assistir a outro semana passada. Acho que uma obra como essa se remontada, jamais poderia deixar de fora o mínimo ingrediente possível. A começar pela abertura, adoro Maria Bethânia, mas Marcus Viana é a entrada do Pantanal, sem contar em toda a trilha da novela que nos fazia viajar por todo o Pantanal. As músicas que fizeram parte a primeira versão deveriam por obrigação estarem nesse remake. Enfim, é a Globo quem manda.

Os capítulos que vi, me fazem lembrar a antiga história, mas não em sua essência, pois modernizaram a história e isso na minha opinião, já é uma adulteração à obra. Ainda teremos outras tantas mexidas que como diz o neto de Benedito, Bruno Luperi, são necessárias para a atualização do folhetim. Ledo engano meu caro. Não se muda a história, apenas se conta com emoção. Mas vamos ver no que vai dar essa remontagem da maior novela da TV brasileira. É bom poder matar saudades de Filó, Tadeu, Tibério Trindade, Guta, Muda, e tantos outros.

Na próxima semana vou falar mais um pouco das duas versões de Pantanal aqui na coluna. Afinal, teremos algumas mudanças bem sentidas na trama. É importante que possamos debater a necessidade de um remake sofrer alterações em sua essência. Eu já vou dizendo que não gosto, pois tira um pouco da originalidade. O que foi escrito e a forma como foi escrito não deve mudar com o tempo, pois se é para mudar, que se faça algo novo.

“Inté!

Apesar de bons atores, Jesuíta Barbosa e Alanis Gullen não emplacam como o casal perfeito
como foi Marcos Winter e Cristiana Oliveira na primeira versão, em 1990.

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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