Quem abriu a caixa da Pandora?

Ainda bem que os deuses não castigavam os animais, muito menos lhes davam dons divinos

Fim de ano, festas, família, viagens. O que alguns não sabem é que os animais sofrem muito nessa época, a ponto de morrerem. Do coração, por causa das bombas inúteis de fim de ano ou de solidão. Em contrapartida, muitos hoje em dia, e graças a Deus isso vem ocorrendo cada vez mais, seus tutores, donos ou, como eu penso ser o certo, pais e mães desses seres angelicais, que nunca reclamam do gosto da comida, da cama dura ou até de quando nos esquecemos de alguma coisa, se preocupam em levar os amores todos para comemorar o fim de ano todos juntos. E nunca, nunca, sem eles.

Pois bem. Essa semana, um desses tutores, paizão mesmo, daqueles que conseguem levar seus animais/filhos para todos os lugares, teve uma surpresa nada, nada divertida. Sua cadelinha Pandora, estava viajando com ele, de lá de Recife para Navegantes, SC. O garçom queria só comemorar um fim de ano com toda a família, incluindo aí e logicamente a Pandora, sua filhota há 5 anos.

Nas lendas gregas, Pandora foi a primeira mulher, criada pelos deuses Hefesto e Palas Atena a mando de Zeus, que desejava castigar os homens depois que Prometeu entregou a eles o segredo do fogo. Nas lendas caninas isso ainda não procede. Cachorro não tem paciência com essas histórias. Essas são só pra boi dormir, não pra cachorro.

Pandora fugiu no aeroporto de Guarulhos quando era transportada pela Gol - Reprodução/Arquivo Pessoal
Em grego, Pandora significa “aquela que tem todos os dons”. Nada mais certeiro.

Pois, ao fazer a baldeação aqui em Guarulhos, a cadela sumiu. Tinha sido aberta a caixa de Pandora, porém nada aconteceu. Muito menos ela foi encontrada. Sua caixa – gaiola, para ser mais exata, não foi arrebentada, tampouco violada. Mas foi aberta. Sabe-se lá quem foi o infeliz que fez isso; agora Pandora está sumida, numa cidade pra lá de caótica como Guarulhos, achando que ainda está lá em Recife. Torço para que esse novo caso acabe bem, porque tenho visto outros casos indecentes, traumáticos e covardes, de gente que ainda acha que bicho não sofre, não sente dor, nem falta de ar e calor. Infelizmente, alguns de nós temos ainda um ego enorme, uma soberba gigante.

Infelizmente esses seres fazem tudo o que lhes der na telha e nunca pensam no próximo. Próximo mesmo, só se for algo para si. A esses seres eu digo apenas que vão arder no inferno, sozinhos, sem água, sem que ninguém lhes dê atenção, muito menos um agrado sequer. Outro dia outros dois foram negligenciados em aviões e porta-malas. Um morreu asfixiado, outro morreu durante o trajeto, pois era um bebê ainda. E de calor!

Puxa vida, isso não faz parte do nosso ciclo virtuoso enquanto brasileiros. Mas está se tornando um ciclo vicioso de maldades que podem ser erradicadas com apenas um mínimo de bom senso. E isso ainda temos de sobra. Como ninguém pode culpar o outro por ter negligenciado uma atenção ao outro ser vivo, o que podemos fazer para que isso não aconteça? Jogar a culpa na empresa não vale, assim fica muito fácil. Culpar o tutor/pai? Nunca, afinal ele queira apenas se divertir com a família toda.

Só falta agora culparem a Pandora, alegando que ela quis sair, abriu a portinhola – sozinha – e fugiu porque estava apertada. Sabemos o final dessa história: o Radar Pet colando cartazes dela, vendo a empresa de onde ela veio se esquivar de culpa e um pai desesperado, arrasado, porque ele queria apenas passar umas férias de fim de ano feliz, ao lado de seus afins, com rabos, patas ou não. Fico pensando que até quando teremos que pensar num canal digno de respeito, com pessoas dignas de voto para nos representarem sem nenhum desvio de caráter, que possam mesmo fazer a diferença antes de acontecerem essas tragédias todas.

Tenho 6 animais em casa, todos tratados a pão de ló. Têm suas caminhas, casinhas, potinhos, cafunés, passeios, liberdade de movimento, vacinas, ração de primeira, veterinários 24h por dia, de longe ou perto. E o principal: nome e sobrenome. São nossos seres humaninhos e nessa hora, dou a mão à palmatória para Rogério Magri, ex-Ministro do Trabalho do Governo Collor, aquele cara esquisito que em 1990 e alguma coisa foi pego em flagrante transportando sua cadela em carro oficial, não arrumou desculpa melhor do que dizer a antológica frase: “Ela é um ser humano como outro qualquer!”. Não, não é, de fato. Ela era um ser humano melhor, tão melhor, tão humano, que até aprendeu a ignorar quem se dispor a criticar o cara mais ‘imexível’ nos tempos de ouro collorido; seu, aí sim, dono.

Nesse caso, e só nesse, é que reconheço seu bom trato (??) aos animais. Nos outros casos pra lá de escandalosos, sou eu que lhe dou a surra pelas cachorradas que fez.

Ainda abriremos outra caixa de Pandora, essa deve vir com boas novas e que a esperança possa sair dessa vez. Papai Noel que o diga.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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