‘Os Excêntricos Tenenbaums’: Pais narcisistas e o perigo da perfeição

Como pais e mães narcisistas podem afetar a vida dos filhos

O terceiro filme da filmografia célere do cineasta texano Wes Anderson marca por ser a consolidação palpável de seu estilo textual, estético e conceitual disposto em toda sua série de filmes. “Os Excêntricos Tenenbaums” evidencia de forma direta o conceito de excentricidade, delicadeza, subjetividade e experimentação comum em grande parte dos filmes produzidos pelo estadunidense.

Wes aplicou excepcionalmente todo esse conjunto teórico em uma família nada comum, ele conseguiu converter todo um contexto simples em algo relativamente emblemático, belo e sensível aos olhos. Sim, há uma magia nas entrelinhas do argumento de composição do texto, os personagens são versados de forma poética (são únicos e originais), o cenário e a ambientação carregam o charme do ato de ser excêntrico.

Família Tenenbaums

Escrito pelo próprio Wes Anderson em parceria com o ator Owen Wilson, que também integra o elenco principal do filme (indicado ao Oscar, na categoria de Melhor Roteiro Original, em 2002). “Os Excêntricos Tenenbaums” tem como enredo central a história de uma família complexada e estranha, essa família tem em seu núcleo familiar três filhos totalmente diferentes, complexados, inteligentes, prodígios e singulares, que tristemente são adultos frágeis, instáveis, egocêntricos, soturnos, antissociais e solitários. Ademais, não conseguiram suprir as expectativas especuladas pelos pais narcisistas Royal e Etheline. Os pais, respectivamente, estão em um processo louco de divórcio litigioso, e em meio a tudo isso Etheline está iniciando um novo relacionamento. Royal totalmente sem noção resolve regressar para sua antiga casa com a ‘’missão’’ de tentar reunir seus filhos prodígios.

Os prodígios

Espasa (2004) argumentou que necessidades narcisistas insuficientemente elaboradas dos filhos de pais narcisistas, podem ser lembradas e renovadas quando os filhos se tornam pais, trazendo daí os seus próprios filhos para adaptar-se a este cenário parental projetivo. Se essas identificações projetivas são severas e inflexíveis, os pais podem se tornar incapazes de ter empatia com as necessidades reais de seus filhos, e isso pode resultar em condições familiares angustiantes que preparam o base para o desenvolvimento de diferentes formas de psicopatologia na prole. Para exemplo, Rappoport (2005), a fim de ilustrar as estratégias de acomodação de filhos de pais narcisistas, introduz o termo “co-narcisismo”. O autor focou em pais narcisistas com uma autoestima muito baixa, interpessoalmente rígidos, facilmente ofendidos, egocêntricos, sem empatia com os outros e que tentam culpar e controlar os outros e as visões deles para fins defensivos. Crianças co-narcisistas, tentando preservar seu relacionamento com os pais, tendem a agradá-los, diferir seus pontos de vista e ficam muitas vezes deprimidas ou ansiosas, pois podem facilmente ser consideradas egoístas se agirem assertivamente. Curiosamente, conforme relatado por Horne (1998), o narcisismo parental foi considerado correlacionado negativamente com a autoestima da prole, sugerindo que, conforme a hipótese por Rappoport (2005), filhos de pais narcisistas tendem a satisfazer as necessidades dos pais a fim de evitar conflitos relacionais e preservar a relação de apego.

Corroborando com Espasa, Rappoport e Horne, Wes e Owen tiveram cuidado ao desenvolver os personagens, o roteiro foi construído impecavelmente. Aqui, entretanto, a unidade do todo é mantida de modo muito sugestivo e interessante pela ideia de que a excentricidade das personas é aplicada visceralmente em uma família incomum dos Estados Unidos. Os personagens expressam a intencionalidade de Wes. Algo regular em seu estilo único de composição, em tendências gerais, os personagens exercem um efeito psicológico quando olhamos o âmbito familiar em que estão inseridos. Eles são transparentes desde o primeiro capítulo do longa, mas nunca de maneira completa, o que intensifica o charme peculiar da elaboração. Contudo, ao espectador fica nítido quem são e o que motiva cada personagem, durante o filme podemos visualizar e entender o quão significativo e sentido pode ser o abandono de um pai, e como isso afeta diretamente o modo de relacionamento da família, em especial o trio de filhos. Uma vez que o longa insere, assim, personagens deprimidos, inseguros e soturnos que recorrem ativamente à privação de seus sentimentos e de sua própria realidade cotidiana.

Com base em sua experiência clínica (Fraiberg, 1980; Espasa, 2004), sugeriram que pais narcisistas apresentam uma tendência de negar as necessidades de seus filhos e os usar como “adereços” da própria autoestima, atribuindo-lhes um papel complementar. Nesta perspectiva, no longa, podemos notar o seguinte sobre o efeito do narcisismo dos pais sobre os filhos: Chas (Ben Stiller) é o tipo de pessoa que não consegue lidar com perdas, Margot (Gwyneth Paltrow) é misteriosa e opta sempre por esconder seus segredos de toda a família, não consegue ser honesta e direta com ninguém, e Richie (Luke Wilson) abriu mão de uma carreira em ascensão e do convívio em sociedade por não saber lidar com os sentimentos que silenciosamente alimenta por sua irmã de criação Margot. Em resumo, podemos notar que o narcisismo dos pais tornou os três pessoas subjetivas, mortiças, infelizes, depressivas, sensíveis e inconformadas com o sentido de suas vidas.

Os filhos de Royal cresceram como prodígios, idolatrados e superestimados por ele e sua ex-esposa. No entanto, o trauma do abandono criou adultos narcisistas, insatisfeitos e egocêntricos no tocante ao peso que a genialidade lhes impôs. Essa característica ecoa substancialmente em todos os outros personagens coadjuvantes da obra. Finalmente nos deparamos em torno destas considerações, com um fundamento passível de ser comprovado no interior e, em maior escala, no exterior de cada filho do casal. Essa talvez seja, em geral, o que posso aqui indicar como uma crítica intencional ao individualismo moderno, conceito duramente criticado por Wes no filme. O fato é que o trio de protagonistas carrega o peso de um passado notável e um futuro irresoluto, são pragmáticos e compostos de sentimentos intangíveis e fluxos inertes, são seres constituídos de partículas que os preenchem e os deixam vazios ao mesmo tempo. Desse modo, a vida e tudo o que os rodeia se expressa imediatamente em cada um, tal fator determina a condução do destino comum e independente deles. Especificamente, a teoria psicodinâmica postula que crianças expostas a pais hostis e excessivamente críticos desenvolverão sentimentos de inadequação que tentarão compensar explorando e buscando a admiração de outras pessoas (Kernberg, 1975; Kohut, 1977, in Are Parenting Practices Associated with the Development of Narcissism? Findings from a Longitudinal Study of Mexican-origin Youth).

Royal e os filhos

De acordo com Otto Kernberg, a pessoa narcisista mostra na superfície: auto-satisfação, grandiosidade, uma preocupação excessiva consigo mesma, uma tremenda necessidade de ser admirada, embora não haja nenhuma mutualidade no relacionamento e ocorra um amor enorme por si mesma; incapacidade de amar outras pessoas e um senso interno de grandiosidade e vazio ao mesmo tempo.

Vamos falar da parte técnica e artística, no processo de construção artística, a cenografia do filme pode até induzir-nos a pensar que o filme é ambientado na cidade de Nova York, mas se percebermos ao mesmo tempo essa ambientação pode ser projetada em qualquer cidade do mundo. A casa e o figurino dos personagens são organizados para que não tenham década específica, Wes quis organizá-los em múltiplos períodos do recente século e do século anterior e assim desenvolver na trama a condução de personagens perdidos em não lugares.

A fotografia de Robert Yeoman (Indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, em 2015, pelo trabalho na obra “O Grande Hotel Budapeste”, outro filme de Wes) instiga o âmago dos personagens. Wes Anderson é fissurado por simetria e com o apoio de Yeoman, que desenvolveu a cenografia de outros projetos dele, busca dialogar com o público sempre deixando evidente, por meio da centralização, quem é o mais importante em cena. Todos os personagens e cenários estão sempre organizados visualmente desta maneira, com exceção de Margot, que assim como lembra o pai não é filha biológica, por isso ela é propositalmente colocada no canto de tela, fora da dimensão visual projetada pela dupla. Essa construção visual amplia o efeito narrativo do longa, sem contar que dá seguimento ao efeito proposto em todos filmes da filmografia de Anderson.

A simetria da obra

Quando falamos de um longa produzido por Wes Anderson, a fotografia, o design de produção e a direção de arte são pontos fortes que conduzem a trama tanto quanto o próprio roteiro. A paleta de cores selecionada por Carl Sprague para cada personagem também descreve um pouco da personalidade individual de cada um. Além de uma história bem intrigante, o filme conta com uma trilha sonora impecável, com artistas como: Bob Dylan, The Velvet Underground, The Clash, Elliott Smith, John Lennon, Ramones, entre outros.

Estruturalmente falando, o longa é construído como um livro de crônica familiar, onde cada capítulo ilustra um personagem ao mesmo tempo que a subtrama transcorre durante todo esse período. Entretanto, é importante lembrar que é impossível separar qualquer temática que não foque em Royal Tenenbaum, o pomposo e bonachão pai da família. Cabe destacar que todas as situações construídas nas cenas do filme são decorrentes do abandono desse pai. O papel rendeu a Gene Hackman o Prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema de Melhor Ator, o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical, o Chicago Film Critics Association de Melhor Ator, o Boston Society of Film Critics de Melhor Ator, e foi indicado ao Satellite Awards de Melhor Ator em Filme Musical ou Comédia. Contudo, infelizmente, não conseguiu ser indicado ao Oscar de Melhor Ator. Trazendo para 2020, como será que essa família reagiu à pandemia do COVID-19? (risos).

Royal é um personagem dúbio, egocêntrico e egoísta e o roteiro tentou criar essa dúvida sobre o real motivo de seu retorno para casa. Será mesmo que foi pela expulsão do hotel em que vivia ou será que foi o anúncio do casamento de sua ex-esposa que motivou esse retorno? Seja qual for a reposta, a intenção de Owen Wilson e Wes Anderson não mudaria o egoísmo cego e a insensibilidade vil desse complexo personagem, que não pestaneja em brincar com os sentimentos dos outros. Em síntese, Royal Tenenbaum não é apenas um cafajeste, é um embuste de marca maior, que sente prazer quando tudo flui em seu favor. Mesmo que o texto final do filme tente relevar os atos cometidos por ele, é impossível apagar as rasuras que ele deixou na história desta família diferentona.
Em suma, o longa é classificado em comédia dramática, já que o texto consegue arrancar algumas risadas, ao mesmo tempo que apresenta cunho dramático em várias cenas. Owen e Wes foram perspicazes ao escreverem um texto onde ficam nítidos vários temas polêmicos, e é magistral a forma como eles conseguiram apresentar tudo isso de forma tão natural. Wes e Owen abordaram de forma sublime temas como: morte, incesto, depressão, suicídio, traição, abandono do lar, pais tóxicos, divórcio, carreira, sucesso etc. Tanto esmero rendeu à dupla nomeações ao Oscar de Melhor Roteiro Original, ao BAFTA de Cinema, na categoria Melhor Roteiro Original, ao Writers Guild of America Award de Melhor Roteiro Original, ao Phoenix Film Critics Society Award de Melhor Roteiro Original, ao Online Film Critics Society Award de Melhor Roteiro Original e ao Chicago Film Critics Association Award de Melhor Roteiro Original.

Esse terceiro filme da carreira de Wes evidencia o espaço construído por um jovem cineasta ao mostrar que é muito mais do que histórias cotidianas contadas de um jeito inusitado, ele é capaz de reunir um bom elenco e dar espaço para que todos tenham seu momento de importância sem serem ofuscados por ninguém, mas brilharem em conjunto. Esse é o poder da magia de Anderson. É o poder de seu mundo particular.

Referencial teórico do artigo:

SAMMARTINO, Antônio. De que maneira pais e mães narcisistas podem afetar a saúde mental e intelectual de uma criança?. QUORA, 09 de mar. 2021. Disponível em: < https://pt.quora.com/De-que-maneira-pais-e-m%C3%A3es-narcisistas-podem-afetar-a-sa%C3%BAde-mental-e-intelectual-de-uma-crian%C3%A7a> . Acesso em: 09 de mar. 2021.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

Jornalista, comentarista de cinema, correspondente no Brasil para alguns veículos portugueses e bacharelando em Geografia pela Universidade Federal de Alagoas.

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