Os carnavalescos e as revoluções do samba

Entrada de artistas, acadêmicos e intelectuais transformou o desfile das escolas de samba

A partir dos anos de 1960, há uma intensa transformação dos desfiles das escolas de samba, com a entrada em cena de um novo personagem. É o artista plástico de formação acadêmica em Belas Artes, que assume o papel de carnavalesco, responsável por toda a parte visual do desfile.

O pioneiro foi o professor da Escola Nacional de Belas Artes, Fernando Pamplona, que em 1960 assume essa função no Salgueiro, trazendo uma nova proposta de temática para os enredos das escolas. Até então, prevaleciam temas da história oficial, que exaltavam vultos e heróis tradicionais, imperadores, reis, rainhas, princesas, duques e efemérides nacionais.

Pamplona passa a propor enredos relacionados a personagens antes ignorados como Zumbi dos Palmares, Ganga Zumba, Chica da Silva, Chico Rei e histórias da cultura e religiosidade afrobrasileira. Com isso, a Acadêmicos do Salgueiro, até então uma jovem agremiação, fundada em 1955 como fruto da fusão de três outras existentes no morro, passa a inovar e conquistar seus primeiros títulos de campeão do Carnaval carioca.

Com Pamplona e sua equipe, a vermelha e branca tijucana ganha os campeonatos de 60, 61, 63, 65 e 69. Esta sequência de vitórias revoluciona e traz um novo olhar sobre os desfiles.Os carnavalescos ganham prestígio, poder e passam a influenciar fortemente as decisões internas das escolas de samba.

No início da década de 70, Pamplona se afasta do Salgueiro, mas deixa alguns alunos que já compunham sua equipe. No título salgueirense de 1971, o enredo “Festa para um rei negro” é assinado por seus discípulos Joãosinho Trinta, Maria Augusta e Arlindo Rodrigues, contando, ainda, com a participação de uma jovem estudante de Belas Artes que se iniciava naquele mundo, a hoje consagrada Rosa Magalhães.

Três anos depois, iniciando carreira solo, Joãosinho Trinta faz sua própria revolução estética, arrebatando a avenida com “O rei de França na Ilha da Assombração”, outro título incontestável. O bicampeonato salgueirense em 75 com “As minas do Rei Salomão” confirma o surgimento do gênio, considerado até hoje o maior artista carnavalesco dos desfiles das escolas de samba.

Coincidentemente, a sua saída e dos herdeiros de Pamplona sinaliza uma crise e decadência do Salgueiro, que só voltaria a ser campeão em 1993. Nesse período, eles migram e vão ampliar suas estéticas revolucionárias em outras cores. O próprio Joãosinho, na Beija Flor, Maria Augusta, na União da Ilha do Governador, Arlindo Rodrigues, na Imperatriz Leopoldinense, Rosa Magalhães, inicialmente no Império Serrano.

Enquanto isso, uma outra geração de jovens, como Renato Laje, Fernando Pinto, Viriato Corrêa, também ensaiava seus primeiros passos, influenciada por esse grupo. Com um olhar próprio, mas prosseguindo na ideia da revolução visual dos desfiles.

Por

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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