‘Ordinary Love’: A Importância do Companheiro na Luta contra o Câncer de Mama

A cura é muito mais rápida quando a mulher é acolhida por seu marido

De acordo com o portal do Hospital Israelita Albert Einstein, o câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, depois do de pele não melanoma, respondendo por cerca de 25% dos casos novos a cada ano. O câncer de mama também acomete homens, porém é raro, representando apenas 1% do total de casos da doença.

O câncer em si é relativamente raro antes dos 35 anos, acima dessa idade sua incidência cresce progressivamente, especialmente após os 50 anos. Há vários tipos de câncer de mama. Por isso, a doença pode evoluir de diferentes formas. Alguns tipos têm desenvolvimento rápido, enquanto outros crescem mais lentamente. Esses comportamentos distintos se devem às características próprias de cada tumor. Não se preocupe, existe tratamento para câncer de mama, e o Ministério da Saúde oferece atendimento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Cabe comentar, amiga, que a consulta médica é de extrema importância para sua saúde, procure sempre uma avaliação pessoal com o serviço de saúde. O câncer de mama é perfeitamente curável, desde que esteja no estágio inicial. Ele pode ser detectado em fases iniciais, em grande parte dos casos, aumentando assim a possibilidade de tratamentos menos agressivos e com taxas de sucesso satisfatórias.

Os relacionamentos afetivos podem e ajudam de forma muito direta, rápida e positiva no desenvolvimento, retenção e cura do câncer, esse processo é doloroso e marcante para o casal. Por isso, é importante a construção de um diálogo direto entre ambos, a conversa é extremamente fundamental, a compaixão, a empatia, o respeito e o companheirismo dedicados à esposa é algo essencial (PEREIRA JÚNIOR, 2020).

Segundo a psicóloga Carla Ribeiro, o medo da incerteza é algo sempre presente nas mulheres. Dessa maneira, ela afirma que é imprescindível ter o apoio da família e do homem para lidar com a situação.

Corroborando com a visão da psicóloga Carla Ribeiro, a dupla de diretores Lisa Barros D’Sa e Glenn Leyburn em seu terceiro trabalho em conjunto, nos apresentam o filme ‘‘Ordinary Love’’. O filme retrata a dinâmica de um casal enfrentando a triste luta contra o câncer de mama. O longa-metragem é lindamente estrelado por Lesley Manville (Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2018) e Liam Neeson (Indicado ao Oscar de Melhor Ator em 1994), nos papéis de Joan e Tom, casados há vinte anos e cujo sólito casamento é seriamente abalado quando Joan é diagnosticada com câncer de mama.

A cumplicidade de Tom e Joan

O longa-metragem é uma junção perfeita do roteiro visceral e cirúrgico do dramaturgo irlandês Owen McCafferty (Scenes from the Big Picture), com o desempenho impecável e avassalador do casal de protagonistas, dignos do Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz. A atuação de Manville e Neeson é tão sincera, a performance cênica é singela, precisa, real e repleta de texturas, a química em cena é um brinde a mais. ‘‘Ordinary Love’’ é a estreia em longas do aclamado dramaturgo Owen McCafferty, ainda que uma de suas peças, ‘‘ Mickybo and Me, já tenha sido posteriormente adaptada para a telona. ‘‘Ordinary Love’’ é um trabalho muito afetivo, uma vez que McCafferty valeu-se de suas experiências pessoais e conjugais para escrever o argumento e o roteiro do filme, utilizou grande parte das vivências, visões, sentimentos, experiências e fases que ele próprio e sua esposa vivenciaram durante a luta contra o câncer de mama. Nisso, ‘‘ Ordinary Love’’ é uma obra extremamente profunda e visceral. Quem assiste prontamente vai às lágrimas.

A união de Tom e Joan

O longa-metragem tem como pano de fundo os ritos, ações, e ritmos do cotidiano de um casal monogâmico tradicional, um casamento repleto de companheirismo que flui de maneira simples. Contudo, dizer que Tom e Joan se acostumaram com seus hábitos não traduz a verdade, pois supõe que são os hábitos e a rotina, que une os dois. Aliás, desde a primeira pequena rusga entre o casal, um cômico debate sobre quem iria desmontar a decoração de Natal, já fica nítido que os dois ainda se amam. Com efeito, à medida que conhecemos o casal, fica ainda mais nítido que a rotina corriqueira e o cotidiano metódico têm outro propósito. Nas entrelinhas, Owen McCafferty tenta demostrar que a vida conjugal pode ser sutilmente imprevisível e que a felicidade está nos pequenos detalhes do dia a dia. Fora a cumplicidade, amor e lealdade, os dois carregam um drama familiar, sobreviveram a uma dolorosa perda juntos, a morte de sua única filha.

Tom e Joan recebendo o diagnóstico do câncer de mama

Ao receber o diagnóstico de câncer, o primeiro pensamento de Joan é justamente sobre sua filha:

‘‘ Estou contente por Debbie não estar aqui para ter que passar por isso’’.

Ela sussurra, como se até o fato de declarar tais palavras fosse uma traição. Logo depois, ela manda Tom visitar o túmulo da filha, sozinho, mas o veta de dizer à Debbie que ela está doente. A cena do diálogo de Tom conversando e dizendo tudo que sente sobre a situação enfrentada em frente ao túmulo da filha é algo que emociona numa escala inimaginável, só vendo e sentindo a força dessa cena. Tom, no que lhe concerne, trava uma luta consigo mesmo para não abater-se e não sucumbir ao medo e à tristeza na frente da esposa. Entretanto, se olharmos bem e analisarmos melhor podemos notar que Tom está completamente perdido em si mesmo e deprimido, perdido na noção da normalidade de sua vida.

Tom perdido em si mesmo

O primor do roteiro é irrefutável ao longo de toda a produção, mas é particularmente mais intenso quando Joan e Tom se exprobam por algum motivo. Os desentendimentos, muitos deles banais e sem propósito algum, são verdadeiros motivos para escapar da tristeza. Mesmo em um casamento tão longo quanto o deles encontra-se a prova pelo câncer de Joan. É ela, e não ele, quem enfrenta o martírio das sessões de quimioterapia; é ela quem enfrenta as dores em seu corpo; e o mais difícil: É ela quem precisa confrontar a própria mortalidade. Enquanto Tom lida com a situação da melhor maneira que pode, Joan encontra conforto em suas conversas com Peter (David Wilmot), um querido professor de sua filha, e que também está lidando ele próprio com uma doença terminal.

Joan durante a quimioterapia

Após a cirurgia Joan passou por um estado de insatisfação e não aceitação de seu corpo, em todo esse processo com toda sensibilidade Tom esteve ao lado de sua esposa. Nesta fase, o papel do companheiro se torna ainda mais importante. Muitas vezes o desequilíbrio emocional pode tomar conta da paciente. Por isso, o marido precisa ser extremamente paciente com sua esposa, ter paciência e sensibilidade para lidar com as intempéries da situação, especialmente após a traumatizante cirurgia, quando a esposa estará mais desconfortável com o próprio corpo. É muito importante ter alguém, alguma companhia que esteja o tempo todo ali. A fim de dividir tanto as dificuldades quanto as alegrias do tratamento. E se essa pessoa for o parceiro, isso pode ajudar muito, a luta vira dos dois. Um estudo publicado pela American Heart Journal demonstrou que pacientes casadas ou que têm o apoio familiar tiveram resultados melhores após tratamentos ou cirurgias do que pacientes solteiras ou solitárias. O esposo tem grande importância para o tratamento, pois é com palavras e gestos de amor que ele fará a esposa se sentir melhor, com esperança para voltar a ter uma vida saudável novamente. A cura é muito mais rápida quando a mulher é acolhida por seu marido.

Tom apoiando sua esposa

No filme, há uma linda cena de sexo entre o casal, ali podemos ver o sentido real das palavras: carinho, resiliência, paixão e devoção. O olhar de um para o outro é sublime, o ato carnal é puro e necessário, reafirma a conexão inabalável dos dois e fortalece ainda mais o casamento. Depois da cirurgia, é mais atestável que o casal retorne a ter uma vida sexual, essa fase é extremamente necessária para ambos, é nessa fase que o casal irá se reconectar, reavivar sentimentos, melhorar o diálogo e extinguir qualquer tabu que preexista entre eles.

Para finalizar vamos falar da parte artística e técnica, Liam Neeson (que necessita fazer mais dramas e abandonar de vez aqueles filmes de ação clichês), e a impecável Lesley Manville (que em breve estará em The Crown), dão um show de interpretação, estão sensacionais. O desempenho da dupla é magistral, os dois são o grande trunfo do longa. O filme tem uma pegada intimista. A direção de Barros e Leyburn é pontual e certeira, a dupla soube trabalhar bem a cenas e a dinâmica do casal de atores. A trilha-sonora é outra surpresa maravilhosa, David Holmes e Brian Irvine montaram um playlist sensacional que captura profundamente o estado de aprisionamento em que Joan e Tom se encontram, os momentos e tudo que acontece ao redor dos dois.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

É editor da página Cinema e Geografia, comentarista, colunista e repórter de cinema.

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