O show tem que continuar

Em tempos de pandemia e confinamento, esta semana aproveitei para revisitar a obra de Luiz Carlos da Vila

Considerado um dos melhores compositores de samba do país, ele faz parte da geração forjada nos pagodes do Cacique de Ramos, na década de 70. Luiz Carlos Baptista, seu nome de registro, morreu jovem, aos 59 anos, em 2008, vitimado por um câncer no intestino.

Os amantes do Carnaval o conhecem como autor, juntamente com Rodolfo e Jonas, pelo samba enredo Kizomba, festa da raça, um dos melhores de todos os tempos e com o qual a Unidos de Vila Isabel sagrou se campeã em 1988. Antes disso, em 1979, um samba seu pela primeira vez desfilou na avenida. Com os anos dourados de Carlos Machado , no qual a Vila ascendeu ao grupo especial.

Ainda no capítulo samba enredo são de sua autoria, em parceria com Nei Lopes, os clássicos Por um dia de Graça (gravado por Simone) e Nas veias do Brasil, ambos da escola de samba Arte Negra Quilombo, fundada por Candeia.

Aliás, uma das suas obras mais inspiradas é uma homenagem a Candeia: O sonho não acabou. E é nos sambas de meio de ano que aflora toda a poesia lírica de Luiz Carlos da Vila, como em Além da razão, com os parceiros Sombra e Sombrinha: ” Por te amar / eu pintei um azul do céu se admirar / até o mar adocei / e das pedras leite eu fiz brotar…”

Para homenagear a fonte onde bebeu e burilou sua musicalidade fez com o parceiro constante Sombrinha, Doce Refúgio: “Sim é o Cacique de Ramos / planta onde todos os ramos / cantam os passarinhos da manhã / lá o samba é alta bandeira / e até as tamarineiras são da poesia guardiãs”.

A audição da obra de Luiz Carlos é uma verdadeira viagem pelo universo do que há de melhor no samba suburbano carioca. Lembrando que o “da Vila” dele não é pelo bairro famoso de Noel Rosa e da princesa Isabel. Mas sim por causa da Vila da Penha, no subúrbio da Leopoldina, onde morou.

Ouvir, por exemplo o samba Oitava Cor é experimentar uma verdadeira obra prima, pelo primor de melodia e a letra inspiradora: “Mais é muito mais / Que o calor de uma fogueira / Os vendavais que abalam as cordilheiras / Pois entre nós o amor não é de brincadeira, viu (…) É atração de amor e fé / De um mundo sem igual /Aquela emoção inteira / Pois é assim o nosso amor / Do arco-íris a oitava cor”.

Enfim, a obra de Luiz Carlos da Vila é de extraordinária riqueza e não se esgota em poucas linhas. Melhor mesmo é ouvir. Quando ele completou 50 anos, houve um show em comemoração no Teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro. Lá estava ele, todo feliz com aquele jeito bem carioca de ser, amigável e recebendo todos bem humorado. A nata do samba estava presente no acontecimento memorável. No encerramento do espetáculo, todos se juntaram numa só voz para cantar.

O show tem que continuar, um de seus maiores sucessos. Nestes tempos difíceis que atravessamos, nada melhor que relembrar a mensagem e o legado deixado por ele.





















Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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