O samba de quadra resiste

A tradição musical das escolas de samba remete a um tipo de samba voltado não para o carnaval, mas para o convívio social da comunidade e das festas realizadas durante todo o ano.

O samba de terreiro ou de quadra, na verdade, está na origem das agremiações. Grande parte da produção do gênero, que se tornou conhecida e de sucesso, se dá neste espaço. O predomínio do samba enredo, voltado exclusivamente para o desfile, se deu a partir da década de 70, quando o evento passa a despertar o interesse dos meios de comunicação e da classe média. Consequentemente, o samba de terreiro ou de quadra é relegado a um segundo plano. 

Muitos desses sambas são verdadeiras obras primas, entraram para o imaginário dos sambistas, fazem parte da discografia das agremiações e se transformaram em sucessos de artistas de renome, como Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione, Roberto Ribeiro, Martinho da Vila, entre outros, que beberam nessa fonte e alcançaram projeção nacional. Nos anos de 1960, um samba de quadra do Salgueiro fez grande sucesso, gravado por Elza Soares, “O neguinho e a senhorita”, de Anescarzinho e Noel Rosa de Oliveira. 

Quem nunca ouviu “Coração em desalinho”, de Monarco e Ratinho, lançado por Zeca Pagodinho e posteriormente regravado por vários outros cantores, um autêntico samba de terreiro da Portela. Outro exemplo é a série de composições de Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro, inaugurada na voz de Clara Nunes com “Portela na Avenida”: “Portela, eu nunca vi coisa mais bela / Quando ela pisa a passarela / E vai entrando na avenida”. Com a morte de Clara, Alcione deu prosseguimento a série de sambas exaltação, homenageando Império Serrano, Mocidade Independente, Imperatriz Leopoldinense.

Quando esta pandemia passar, poderemos voltar a ouvir nas quadras e rodas estes sambas que encantam. Embora o samba enredo prevaleça, é tradição ainda os ensaios abrirem com sambas de quadra e exaltação. É emocionante ouvir na quadra da Estácio de Sá o “Pavilhão do Amor”: “A saudade apertou / E eu voltei / Pra matar a saudade…”. O mesmo acontece na União da Ilha do Governador com o “Azul, vermelho e branco”: “Se um dia eu deixar de desfilar / Com a União da Ilha/ Vou chorar…”. 

No esquenta da bateria, antes do inicio dos desfiles, normalmente se canta um  samba desses. Quem já foi a Marques de Sapucaí, certamente já se emocionou quando a Mangueira na concentração puxa “Mangueira teu cenário é uma beleza / Que a natureza criou…”. Ou a Beija Flor com “É ela maravilhosa e soberana / De fato nilopolitana / Enamorada desse meu país…”. Ou da Unidos de Vila isabel: “Sou da Vila / Não tem jeito/ Comigo eu quero respeito / O meu negócio é sambar…”. É a senha para incendiar os componentes.

Enfim, é incontável a produção musical de samba de quadra e de terreiro. Todas as escolas de samba, do grupo especial ao menor grupo da Intendente Magalhães contam com compositores inspirados nesse gênero. Infelizmente, uma consequência ruim da hegemonia do samba enredo, com sua dinâmica e poderio econômico, foi a retirada de espaço desse tipo de samba nas agremiações. Mas isto não significou a sua morte. Pelo contrário, sempre há um cantinho da quadra ou botequim do lado de fora onde se possa resistir. 

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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