O samba da crise

Na coluna anterior, abordei o tema da profissionalização do Carnaval e os rumos empresariais tomados pelas principais escolas de samba do Rio de Janeiro e os altos custos que atualmente envolvem essa festa. Como tal, no cenário por que passa o país no momento, com retração de investimentos, as escolas de samba estão sentindo na pele as consequências da crise econômica, que fatalmente já atingem os preparativos para o próximo ano.

As dificuldades pelas quais as pessoas vêm passando, com endividamento, desemprego e corte nas despesas de atividades culturais e de lazer, já afetam o caixa das escolas. Além disso, praticamente os patrocínios desapareceram, o que pode ser comprovado na temática de enredos já divulgados. Os chamados “enredos cep” ou chapa branca, bancados por estados e municípios são agora inimagináveis, num cenário de quebradeira geral e de dificuldades de financiamento com o escasso dinheiro público. Empresas privadas também pisaram no freio.

O que presenciamos agora são a volta dos enredos autorais (para satisfação dos carnavalescos) e das homenagens a personalidades. Nas escolas de samba do Grupo A, por exemplo, nada menos do que oito agremiações vão homenagear pessoas – Viriato Ferreira, João Nogueira, Zezé Mota, Beth Carvalho, Gonzaguinha, São João Batista, Manoel de Barros e Roberto Ribeiro vão desfilar. Este número ainda pode aumentar, porque três ainda não definiram seus temas. Isso dá uma exata noção da crise, pois em época de fartura, este grupo primava pelos patrocínios, principalmente de cidades e estados. Lembrando que por ali já passaram homenagens a Saquarema, Cabo Frio, Araruama, Mangaratiba, Guapimirim, Mato Grosso, Espírito Santo, João Pessoa, Natal, entre outras menos conhecidas. Em 2017 a geografia do patrocínio desapareceu da Sapucaí.

No Grupo Especial, é sintomático que cinco das doze escolas, ainda não tenham escolhido enredo em pleno mês de junho, pois esperam até o último instante o tão sonhado recurso. E quando constatamos que escolas do porte de Beija Flor e Mangueira (a última campeã) enfrentam essa dificuldade é porque realmente não está fácil para ninguém. Das outras sete que já definiram tema, somente a Mocidade, cujo enredo é sobre Marrocos, parece agraciada. Exceção também para a Grande Rio, que com sua homenagem a Ivete Sangalo, parece estar contando com alguma ajuda da cantora baiana.

As disputas de samba enredo, que são a abertura do novo ciclo carnavalesco, também sentem a crise. A tendência é que os custos diminuam, pois as parcerias, mesmo as mais poderosas, estão todas segurando a mão e devem ampliar os recursos somente nas fases de quartas de final, semifinal e final. Além disso, as próprias escolas estão encurtando o período de eliminatórias, pois alegam o alto custo de abrir suas quadras numa fase em que ainda não têm grande presença de público.

Enfim, pelo quadro atual, parece que a crise chegou definitivamente ao Carnaval e tudo leva a crer que 2017 será um ano de vacas magras e contenção de gastos. Mais do que nunca é hora de seguir o conselho do grande carnavalesco Fernando Pamplona e tirar da cabeça o que no bolso não tem.

 

 

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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