O Saci, o negrinho que deveria ser respeitado todos os dias

Monteiro Lobato era o cara. O Saci que o diga

Outro dia mesmo, exatamente da mesma data do Halloween (31 de outubro), temos o dia nacional do nosso querido Saci-Pererê, um cara pra lá de brasileiro, negrinho, baixinho, fumante de cachimbo, sem uma perna, que tem um saquinho mágico com poderes especiais nada ilícitos e que some com as nossas coisas num piscar de olhos. Nada mais brasileiro. Nada mais politicamente errado. No entanto, nunca é lembrado. Os outros, pois eu me lembro dele todos os dias, principalmente quando alguma coisa some misteriosamente aqui comigo. Ok, eu sou mesmo bem desligada, mas existem coisas que, se não tiver sido obra do Saci, foi obra da Curupira. Certeza.

E por onde andará o Saci? Por que ninguém se preocupa em não esquecê-lo? Espero que o racismo não venha atrapalhar também esse ser tão brasileiro e tão engraçado, que ouso até chamá-lo de mala, no quesito pilantra mesmo, afinal, o que mais ele faz além de nos irritar a ponto de criar um conflito aparentemente “caseiro”? Mala sem alça. Quase um Macunaíma.

O Saci, por sua origem, sempre teve diversão gratuita e constante, quando queimava a comida nas fazendas ou “trançava” a crina dos animais à noite. O mais divertido para ele, dizem, sempre foi sumir com as coisas mais banais da casa. Dedais sempre foram seus preferidos. Hoje não se usam mais dedais, temos timers na cozinha, temos seguranças nas fazendas. Mas as coisas continuam sumindo. Se não é obra dele, de quem será?

Além de suas gracinhas corriqueiras, devemos saber que o Saci tem o domínio das matas e, por isso, é o guardião das ervas e das plantas medicinais, pois ele guarda e cuida delas todas e ainda costuma atrapalhar e confundir as pessoas que as coletam sem autorização. Só por isso, ele também deve ser respeitado e jamais esquecido. Se não for respeitado, já sabe o que lhe aguardará num dia qualquer. Deveria ser ele o Ministro do Meio Ambiente. Com o cachimbo pra não esquecer a sua origem.

A lenda garante (e desde quando uma lenda garante alguma coisa?) que para capturar o Saci-Pererê, a pessoa deve arremessar uma peneira dentro dos redemoinhos de vento. Dessa maneira, após capturá-lo, é necessário retirar-lhe o gorro para prendê-lo em uma garrafa. Quanta maldade!

Acredita-se que o Saci nasceu do broto de bambu, permanecendo ali até os sete anos e, após esse período, vive mais setenta e sete praticando suas travessuras entre os humanos e os animais. Por fim, ao morrer (spoiler), o Saci torna-se um cogumelo venenoso.

Monteiro Lobato o guardou na minha memória como a minha mascote preferida nesse tempo pandêmico que não acaba nunca. Coisa de Saci, acredite. Ninguém mandou queimar matas demais.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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