O Rio de Janeiro e a corrosão de suas águas

Em meados da década de 1970, quando houve a fusão do antigo Estado da Guanabara com aquele Rio de Janeiro espelhado pela cidade de Niterói, três instituições públicas de serviços hídricos gerais foram consubstanciadas em uma. Surgia aí a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, popularmente conhecida por meio do acrônimo CEDAE.

Para quem disponibiliza atenção às crônicas nupérrimas da sociedade fluminense, não causa espanto saber que a CEDAE possui, desde o princípio, uma equipe de profissionais com altíssimo grau de instrução técnica e compromisso ético, reconhecida por todo o Brasil e mencionada com absoluta deferência por uma série de organizações internacionais. São pessoas que mantêm a companhia funcionando 24 horas por dia através de um trabalho meticuloso e rigorosamente bem definido, almejando realizar um excelente tratamento das águas que correm pelo território do Rio de Janeiro. Assim, garantem a distribuição profícua da mesma — sob as diretrizes jurídicas vigentes — a quase dez milhões de cidadãos que habitam o segundo ente federado mais importante do país. Vale ressaltar que tal atividade ocorre independentemente de quem esteja atracado no Palácio Laranjeiras ou do bonachão na presidência do órgão.

Mesmo com toda a apologética exordial, também é indiscutivelmente manifesto que boa parte desses esforços é obstruído pela negligência de diversas prefeituras que não estabelecem os acordos necessários com o Poder Executivo Fluminense para gerenciar o saneamento básico dos municípios. A ausência de um projeto de desenvolvimento; a péssima conservação das vias urbanas e a limpeza superficial dos arroios são problemas que, somados à explosão demográfica, terminam sobrecarregando as redes de esgoto. Para completar o drama, essa fuligem se une à contaminação aquática motivada pelo descaso da sociedade para com o meio ambiente. Isto posto, os reservatórios de água potável ficam inteiramente comprometidos, dado que estão conectados às zonas hidrográficas praticamente abandonadas em função da diligência medíocre em vigor.

Uma vez que os cursos de água retenham impurezas por culpa do esgoto não tratado, é de se esperar que a captação indômita dos recursos hídricos que a CEDAE efetua para municiar suas cisternas também contenha material insalubre. Esses apontamentos, juntos, são fatores da mesma vicissitude ambiental e, por conseguinte, faz com que o trabalho da firma seja ainda mais complicado e oneroso, haja vista que a duração do expediente das equipes se amplifica em virtude das fases acrescentadas aos processos químicos, elevando drasticamente as expensas com produtos utilizados nas tarefas.

Todavia, esse infortúnio não é um atributo exclusivo do Rio de Janeiro: os novecentos e setenta e cinco bilhões de litros que compõem o Sistema Cantareira — o maior de São Paulo — recebem um volume de detritos tão escabroso que gasta em torno de R$ 150 milhões a fim de executar os procedimentos cabíveis que atendam à milhões de bandeirantes em diferentes cidades paulistas. No Rio Grande do Sul, as eclusas que coletam insumos do Lago Guaíba no objetivo de constituir reservas enfrentam obstáculos similares; isso sem contar que aproximadamente dois terços dos gaúchos não têm saneamento básico em pleno Século XXI.

Os fatos que permeiam tal questão na órbita fluminense não apresentam contrastes perante as deformações reportadas em outras unidades federativas. Os dirigentes públicos jamais se importaram com a profilaxia dos mananciais do Rio de Janeiro. Sempre postergaram com frequência as atribulações referentes a este campo, destinando todos os entraves possíveis aos governos subsequentes. A verdade é que não convém aos políticos resolver tamanha incumbência, pois isso não oferece lucro para eles. Devido ao enorme investimento que o setor demanda, os cínicos de plantão — que não guardam a menor semelhança no tocante aos epígonos de Antístenes — optam pelos discursos mendazes que asseveram conceitos da engenharia social por intermédio do menoscabo e da burocracia. É dessa maneira que os vanilóquios a favor da privatização do acervo público ganham ímpeto, no pior sentido da expressão. Ao invés de fazerem uso do poder constitucional que o êxito do sufrágio os transmitiu para solucionar as distorções administrativas e corroborar o intento principal da empresa, isto é, fornecer total suporte aos utentes, as autoridades escolhem induzir a população ao dogmatismo das negociatas ambíguas, bradando pela venda das entidades societárias com o intuito de beneficiar um pequeno grupo de especuladores em detrimento da imensa maioria do povo. A água é correspondente à unicidade vital, e isso não tem preço!

Uma multitude de agremiações científicas já qualificaram uma centena de rios fluminenses como irrecuperáveis por efeito das toneladas de esgotos industriais e caseiros despejados em seus leitos diariamente. O grosso dessa poluição incide nos fluxos de água que se interligam aos sistemas que abastece o Grande Rio; especialmente os lençóis freáticos que circundam todo o perímetro do Guandu. Sua jusante é excepcionalmente monitorada por técnicos da CEDAE desde os longínquos caudais que formam os afluentes do Paraíba do Sul até a sua foz na Baía de Sepetiba. Normas de tecnologia ímpar são aplicadas neste ordenamento de purificação hídrica, isso porque o escopo primacial da companhia é entregar um item saudável e de qualidade à população — sem a existência de falhas.

É preciso ter um nível astronômico de integridade e sensatez durante a emissão de declarações relativas à condição da água; sobretudo quando o pânico se alastra mediante boatos disfarçados de notícias veiculadas até mesmo pela grande mídia corporativa, onde os panoramas estão sendo cada vez menos apurados com perspectivas inerentes ao tema. A CEDAE triplicou a fiscalização para que os virtuais contratempos sejam cuidadosamente avaliados dentro de seus prismas.

A cautela, que era uma regra permanente e inflexível, foi transformada em liturgia. As substâncias de potencialidade tóxica são averiguados porque nenhum trabalhador honrado está buscando assassinar os demais cidadãos. A partir do momento que um novo acontecimento extemporâneo vêm à tona — inclusive de modo legislativo —, a inspeção é acentuada com a finalidade de eliminar os coeficientes do óbice em específico. Resumidamente, se a concentração do elemento orgânico geosmina estivesse ameaçando a saúde da população fluminense, o abastecimento teria de ser imediatamente suspenso. Essa é a determinação prescrita em lei. Agora se há um alerta real de perigo ao bem-estar da sociedade, o culpado por manter o serviço é o Governador do Estado do Rio de Janeiro, visto que o estúrdio ainda não ordenou o fechamento das válvulas hidráulicas.

Preservar a ideia de aperfeiçoamento e progresso como meta é algo incontestavelmente crucial. Entretanto, os atos inconsequentes e propositais na intenção de justificar a privatização do complexo de águas fluminense — gentílico advindo justamente da palavra “rio” — decerto irão acarretar em desastres ainda maiores para todo o Rio de Janeiro, bem como o exemplo do conluio que pulverizou Banco do Estado do Rio de Janeiro (BANERJ) e demonstrou ser o verdadeiro responsável pela falência do ente federativo que deteve a capital do Brasil, mas hoje está imerso em dívidas. O descuido da instância privada tem se dilatado nos últimos tempos, acarretando em incontáveis mortes enquanto seus megainvestidores acabam impunes. É desejo do governo estadual se arriscar e tolher à própria reeleição quando fez toda uma campanha eleitoral pró-vida em 2018?

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Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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