O regresso da infeliz normalidade da política brasileira

Eleitores desistiram da "nova política" em um biênio. Proselitistas devem aprender a observar os paradigmas que a realidade social do Brasil produz

Após um processo eleitoral, a busca por motivos capazes de ilustrar o resultado das urnas de maneira plausível é uma reação absolutamente normal. Essa tarefa apresenta uma proficuidade maior quando não há imediatismos transfigurados em comparações voláteis.

Um exemplo é a utilização dos números de sufrágios passados no intuito de hipotetizar os nomes dos virtuais campeões da próxima disputa de cargos nos vértices do Executivo e do Legislativo. Isto posto, a missão de decifrar as mensagens remetidas pelos cidadãos torna-se uma atividade positivamente construtiva.

O primeiro turno das eleições municipais de 2020 reproduziram um foro popular altamente distinto da horda que tolheu a sociopolítica nacional vinte e cinco meses atrás. É verdade que o povo brasileiro segue imerso em um maremoto de fúria contra uma gama de simulacros da esquerda justapostos meramente sobre o petismo no singular e com todos os elementos que constituem a politicagem demagógica que estraçalha o Brasil no plural. Havia razões suficientes — e continuam existindo — para soltarem o fardo em 2018. A conjuntura favoreceu o candidato que prometia recorrer à sua idoneidade moral para acabar com toda essa balbúrdia, conduzindo o país aos campos da glória e da decência mediante a pulverização definitiva do famigerado sistema. Tal protozoário foi convertido no trigésimo oitavo Presidente da República, Jair Bolsonaro.

O que ninguém poderia supor é o ambiente cosmicista que o pandemônio fabricou. Assim como em diversas nações mundo afora, a perplexidade do COVID-19 trespassou o Brasil sem condolências. Então, ao invés de permanecer no rumo que almejava “obliterar toda a maldade que envolve o país”, os brasileiros escolheram drapejar novamente o lema do “rouba mas faz”. A advertência foi expressamente nítida: a sociedade prefere manter o que (aparentemente) funciona, independentemente das consequências. Uma legião de eleitores migrou das esferas neoliberais de revolução dogmática para as instâncias do corporativismo que oferta serviços mínimos. Empreendimentos como obras públicas e suporte financeiro às pessoas afetadas com a explosão de demissões que a pandemia acarretou sobrepujaram o verbalismo ideológico burlesco repleto de incúria e de disparates. Em síntese, prefeitos e vereadores que ocuparam os melhores espaços a fim de captar o foco da grande mídia como “indivíduos excepcionais no combate à intempérie sanitária” foram laureados com a renovação de seus mandatos. Este fato também dissolve a avalanche de contrassensos que bradam sem evidências uma fraude mitológica perpetrada no certame.

A partir deste horizonte de eventos firmado no último domingo, é possível declarar que o fanatismo maniqueísta responsável pela impregnação da atmosfera sociopolítica do Brasil começa a se decompor. Todavia, as circunstâncias não proporcionam meios de que isso aconteça de uma forma legítima. Quem triunfou mais uma vez, infelizmente, foram os situacionistas. O escrutínio nas cinco mil quinhentas e setenta cidades do país — Moraes de Almeida será alçado à categoria de município somente com a aprovação do Palácio Cabanagem — expediram um sinal de alerta que os extremistas localizados nas duas arestas do espectro não devem ignorar se desejam prosseguir com seus ofícios eletivos. Os direitistas precisam erradicar a cólera que os proíbe de trabalhar e conserva a podridão que atrasa o desenvolvimento nacional e intensifica as diferentes condições de miséria que humilham a população. Já os canhotos necessitam abandonar o púlpito do narcisismo que os impede de compreender a realidade inserida, dado que uma nova configuração política vem adquirindo potência. A contumácia do Partido dos Trabalhadores (PT) no monólogo de que são leais e autênticos terminou confeccionando uma mortalha para seus postulantes diretos, e muitos aliados de coligação ou suporte estão com hora marcada na fila do sepultamento.

O principal logaritmo que essa ocasião projetou foi a curva que redireciona entidades fisiologistas ao poder constantemente. Até o momento, as facções vitoriosas são — em ordem aleatória — os Democratas (DEM); os Progressistas (PP); o Partido Social Democrático (PSD); o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Em outras palavras: a teoria do expurgo político se findou devido às urgências do povo brasileiro, que sempre agiu impulsionado por retribuições básicas que o messianismo contemporâneo rotula como tolice, heresia e/ou vadiagem. Em uma crise tão hiperbólica, enigmático seria verificar uma sociedade aflita dispensando os lacaios que a plutocracia forjou com requintes de crueldade para administrar as engrenagens que “movem o país”.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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