O que meu Fusca esqueceu de falar

20 de Janeiro foi o Dia Nacional do Fusca, icônico, brega, fashion. Só o Fusca mesmo, pra sempre em nossas vidas

Quem nunca teve Fusca não sabe o que perdeu. De tempo, sem que alguém o socorresse na estrada, de horas de perfume de gasolina na roupa, e também de diversão em quatro rodas. Ter um Fusca é quase como ter ganhado na mega-sena. OK, só uma quadra, quase.

O Fusca é a mascote brasileira. Saindo na frente de quase todas as outras coisas que nos dão sorte, ter um Fusca é ter um azarão que nunca falha. E, se falhar, nada que um grampo de cabelos não resolva. Porta malas pequeno? Use a sua criatividade, troque sua mala de 1 ton de volume por uma mochila de duas entradas. Se você está indo viajar de Fusca, pense: para onde vou? Onde ficarei? Quanto tempo de estrada? Depois das primeiras dúvidas, legítimas, logo outras virão: vai demorar muito ainda? Podemos parar num posto pra ir ao banheiro? Alguém comprou biscoito de polvilho? Cadê o Rex?

Uma das tatuagens é do câmbio de Fusca (Foto: Arquivo pessoal/ Pâmela Feitosa)
Deu saudades?

Quem teve um Fusca teve nas mãos toda a história de um veículo completamente fora de padrões, fora de estilo. Nunca fora de moda. Ter um Fusca, hoje, é ter uma joia, afinal Ferdinand Porsche não ia colocar as mãos no fogo num projeto que não daria certo. Deu tão certo que atravessou oceanos e veio parar num país em que nada é mais escrachado que o Brasil. Mas o barulho de catarro do motor dele continua lá, impassível. Se ainda não escutou, ou você nunca andou num Fusca legítimo ou é muito novo pra isso.

Eu não aprendi a dirigir num Fusca, mas foi nele que passei muitos momentos estonteantes em todos os sentidos, afinal, era o que tínhamos na época e eu não tinha nem idade, nem carro maior para discutir. Sentei, cotovelos fora, pernas dentro, me encaixei e fui. Fomos. Voltamos. Umas 200 vezes, uns 200 Fuscas e, pasmem, sobrevivemos pra contar história.

Foi no dia 22 de junho, em 1934, que a Associação Alemã da Indústria Automóvel assinou com Ferdinand Porsche o protocolo sobre a fundação e desenvolvimento da Volkswagen. Em 1995, um grupo de fãs do carro participou de uma reunião em Bad Camberg, Alemanha, decidiu que 22 de junho seria “um dia em que o Fusca sai da garagem e vai para o trabalho”. Muita coisa aconteceu antes desse dia, mas depois que o fusquinha tomou as ruas, não voltou mais. E não foi por causa de pane seca ou alguma trava mal colocada. Foi por empatia mesmo. E todos os anos no dia 22 de junho, é celebrado o Dia Mundial do FUSCA.

Linha “fusquiana” do tempo

Nós também temos nosso próprio Dia do Fusca, 20 de janeiro, dia do lançamento oficial do Fusca produzido no Brasil (1959) e que não saiu mais das nossas cabeças, nem das nossas ruas. Sobrevivente, esse bólido já consegui a incrível marca de 3 milhões de fuscas produzidos por aqui. Eu ainda acho que mais Fuscas foram feitos, afinal clones existem desde sempre e desde que desmanches apareceram.

Até mesmo pra quem torce o nariz para o Fusca, acha que ele é um horror, cafona, ridículo teve que se render em algum momento, porque sempre teve um Fusca por perto que quebrou seu galho, sua carona, sua noiva apressada, seu filho nascendo.

O Fusca sabe de todos os seus segredos, até mesmo aqueles que você nunca pôde contar. Ou, se contou, o barulho do catarro do motor dele abafou suas palavras. Feliz 80 e muito anos de supervida, seu gordinho ícone do Brasil!

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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