O nosso café quente num dia gelado pra cachorro

Quando eu, o café, o frio e os bichos esquentamos seu dia

É claro que hoje falaria do Dia Nacional do Café, que é exatamente hoje, 24 de maio. Nada mais me vem à cabeça que um cafezinho quentinho, na beira da lareira, entre meus Golden Retrievers e São Bernardos de pelos longos aos meus pés. Dormindo placidamente, eles mal levantam as pestanas para ver que os meus 5 gatos Maine Coon estão tamborilando nos meus ombros. Na hora tocou o despertador, caí da cama, gelada, e ainda levei uma arranhada do meu gato de pelos curtos que estava no meu colo se esquentando.

Como sonhar ainda é de graça e sem impostos, sonhei também que todos tinham direito a um cobertor, a uma cama macia e a uma lareira portátil, que podia ser carregada por onde você fosse, sem bloqueios, sem filas, sem ladrão querendo te matar pra pegar essa porcaria, sem gente e bichos nas ruas no outono mais gelado desde a Era do Gelo. Obviamente, no meu sonho também tínhamos comida para todos, sopinha quentinha e à vontade, de muitos tipos e cores de legumes, espinafre, com macarrãozinho de letrinha ou com arroz arbóreo.

Tudo do melhor. Tudo do mais quente. Tudo para todos. E não, não sou comunista, socialista ou nada de ista. Nessa minha nova década tenho sido mais ante: amante, caminhante, alarmante. Um pouco de osa também: curiosa, gulosa e maldosa. Sempre no melhor sentido.

Mas voltemos ao café quentinho de todas as manhãs, dias e noites de pré-inverno. Como podemos ajudar quem sempre nos ajuda, latindo, correndo atrás do carteiro, dos pneus do carro, dos fantasmas que passam na rua o tempo todo, das galinhas que vem voar/andar/correr na porta de casa?

Carinho como esse deveria estar na Constituição

Mesmo assim, eles ainda sofrem de frio. Mesmo assim ainda sofrem de fome. Mesmo assim ainda ficam na rua. Mesmo assim. E mesmo assim, ainda tem gente que se preocupa muito com eles, mas não fazem mais do que postar uns “ai tadinhos, ai que judi” nas redes.

O que é isso, companheiro? O que foi feito de você enquanto ser humano? Dá para largar a mão de ser sovina e ir lá embaixo levar uma camiseta rasgada, um cobertor velho, ou até um pedacinho da sua picanha que não entra mais na sua geladeira lotada? Não dói fazer esse bem.

Não faça como alguns, agora bem de vida, nome limpo e família recém refeita, achando que todos devem favor a ele. Não faça isso. O mundo é redondo para que ninguém possa se esconder nos cantos. Nem os bichos de rua.

Então abra a sua mão com seus dez dedos e retribua só um pouco do que você já recebeu de graça com um pouco de calor, um pouco de comida e um monte de amor. E uma garrafa de café, por favor, porque bicho de rua tem sempre um cuidador fiel que nunca sai de perto.

Se não for pedir muito, que tal um Tupperware com um restinho do seu almoço ou jantar? Pode ser de ontem também. Ou de amanhã, que tal? Não dói, não gela. Depois você pode ir tomar seu Café Dalgona e sonhar de novo com sua matilha de malamutes do Alasca e seus pandas comendo bambu no seu tapete persa em volta da sua lareira fake.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e