O militarismo é sinônimo de delinquência e estupidez?

As nuvens intermitentes do vendaval erístico que — mais uma vez — ocupou os espaços cibernéticos de forma violenta na semana passada estão se dissipando. Os temas que incentivaram a última grande discórdia maniqueísta são atinentes à defesa nacional; segurança pública; direitos laborais; milícias e suas atividades criminosas. As questões envolvendo o senador Cid Gomes, dito representante da unidade federativa do Ceará, também foi amplamente comentada. Tais assuntos, como é de praxe, foram abordados com extrema superficialidade e profundo desconhecimento de causa. Isto posto, a destruição de palavras eclodiu e, para a infelicidade da ordem e do progresso, suplantou o debate.

Esta cizânia também foi definida pelos opositores do governo de Jair Bolsonaro, atual presidente da República. O superintendente do Palácio do Planalto acabou sendo taxado de malfeitor e azêmola pela enésima vez em função de sua personalidade estúrdia e por certas declarações que seus familiares e diletantes emitiram acerca do episódio. Muitos atribuíram essa falta de educação e civismo global do líder do Executivo brasileiro como herança de sua temporada no quartel, isso porque tamanha insensatez é, de acordo com o julgamento dos renitentes, uma fístula que atinge a todos os militares com efeito.

Independente do fato de que Bolsonaro é realmente destituído de cognição veridiana e aticismo erudito, a sua figura promove a crença de que um membro das Forças de Armadas ou de Segurança deve ser obrigatoriamente estúpido. Dado as controvérsias que a mídia tradicional produz em sintonia com as redes sociais por intermédio desta fábula, algumas dúvidas vêm à tona: quem é absolutamente infradotado? Há uma investigação científica sobre tal indivíduo, com a asseveração de médicos e antropólogos? Caso a resposta seja inconclusiva, então a mesma serve como nulificador da afirmação de que o militarismo e a parvoíce são objetos imanentes.

É inverossímil que um cidadão apto a raciocinar corretamente não perceba que Bolsonaro sofre de gravíssima insciência premeditada, haja vista que o próprio sente um orgulho desmedido de sua incapacidade heteróclita. Contudo, isso não significa que os demais militares são autômatos com disformidade cerebral. Esse preconceito é desmantelado com a trajetória de Ayrton Capella; Sérgio Xavier Ferolla; Henrique Teixeira Lott; Gelio Fregapani e outros armíferos que integram diferentes programas de análises estratégicas. O princípio que rege este invólucro é o mesmo aplicado em todas as profissões através da seguinte fórmula: se um pedagogo é incompetente, por exemplo, nada assegura com verticalidade que o restante da classe docente será composta por sujeitos estritamente medíocres. Negar esta prolusão é afirmar o consequente, ou seja, provocar falácias retóricas — exatamente o que é feito pelo trigésimo oitavo chefe de Estado do Brasil e seus epígonos.

Um livro que desconstrói a efígie de sujeitos como Bolsonaro, fabricados com o apoio do baixo escalão seduzido por inflexões demagógicas, chama-se “O Soldado e o Estado”, do já falecido cientista político ianque Samuel Phillips Huntington. Traduzido em nova edição pela Biblioteca do Exército, o volume disserta a respeito da influência marcial nos procedimentos constitucionais desde a implementação das primeiras guarnições em territórios extintos até a logística militar contemporânea. É completamente válido traçar paralelos entre os cenários da obra de Huntington e o Brasil hodierno, pois a Doutrina de Segurança Nacional vigora no país há mais de cinquenta anos e seu cânone foi determinado pela Escola Nacional de Guerra dos Estados Unidos.

O comportamento padrão dos militares brasileiros é, por via de regra, voltado à abstração de que o mundo permanece sob a ameaça da União Soviética. Esse devaneio segue inconcusso no ambiente de defesa nacional, inclusive nas unidades de combate e ensino das Forças Armadas que despertou o interesse de Bolsonaro pelo Exército em sua juventude e o levou a prestar concurso para a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Os hábitos institucionais preconizam a opinião de que manter uma aliança com os Estados Unidos e repudiar veementemente tudo aquilo que esteja contra os anseios de Washington — e de Wall Street — é sempre o melhor para o Brasil. É desse modo que o espectro do inimigo latente é conservado: mediante a profanação de grupos internos e pessoas que, segundo a interpretação casuística da esfera, atrapalham a paz social e a garantia das leis. Também é possível verificar uma ojeriza brutal para com elementos afastados do perímetro ocidental e cristão, o que explica a objeção referente aos estudos de táticas belicistas não elaboradas em países da América Boreal e Europa. O apedeutismo dos quartéis não se limita às ciências humanas e as belas-artes.

O que se entende com o sumpto de tantos fatores é que a instrução militar pertence a um horizonte colateral. Por mais que pareça um tarimbeiro, Bolsonaro foi discípulo da academia marcial. Não ascendeu à patente de capitão de maneira gradual. A grade curricular da AMAN equivale a um curso de nível superior; uma graduação. Isso faz com que o hóspede do Palácio da Alvorada tenha sido parte da camada final da “elite da tropa”, simbolizando a linha de frente deste círculo. É óbvio que a idiossincrasia do recinto não justifica a intransigência de Jair Bolsonaro; por essa razão que é preciso abandonar esse vício de rotular os militares como facínoras e desqualificados. São trabalhadores iguais a maioria dos brasileiros e não podem ser insultados por culpa de mafiosos que tomaram o Brasil de assalto em detrimento da sociedade. Partindo da concretude que o Estado opera aquém das necessidades do povo, então todos os funcionários públicos são bandidos ineptos? Ninguém verdadeiramente responsável e inteligente endossa tamanho absurdo.

Agora fica a pergunta: chamar Bolsonaro de imbecil em qualquer ocasião resolve os problemas do Brasil?

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