O “menos pior” e suas consequências

No último trimestre deste ano, iremos comemorar o nonagésimo aniversário do fim da Revolução de 1930, que alçou Getúlio Vargas ao poder através de um golpe de Estado e pôs fim a Primeira República Brasileira. Mas nem tudo mudou, principalmente nos vértices correspondentes ao molde da política nacional e suas comparações.

Vargas controlou a República por dezenove anos, sendo quinze como ditador. Ao contrário do que muitos adoram conceber, o fato do décimo quarto Presidente do Brasil ter sido um autocrata não significa nada; tampouco é argumento intelectualmente suficiente e honesto para inscrevê-lo no rol dos pústulas das crônicas gerais da nação. Os remanescentes da população que viveu em seu governo são pessoas com aproximadamente noventa anos de idade. Eram apenas crianças durante o período e seriam incapazes de acompanhar a trajetória do país com a devida maturidade. Todavia, esses mesmos cidadãos repetem o que seus familiares diziam: “Getúlio Vargas foi nosso último e melhor presidente!”

Assim sendo, nem toda ditadura é, por conceito e princípio, um mal evidente; tal como a democracia não é um bem igualitário e plenamente garantido. Maiores exemplos sobre estão com Lee Kuan Yew em Cingapura e Park Chung-hee na Coreia do Sul contra Ronald Reagan nos Estados Unidos e Silvio Berlusconi na Itália. Mas isso não vem ao caso por aqui, dado que a finalidade do texto não é advogar escusas à regimes caudilhistas. No entanto, o dogmatismo precisa ser indispensavelmente rejeitado quando se faz uma análise funcional da política, já que esta é uma ciência; não uma premissa religiosa.

Sob uma perspectiva elementar, é fácil perceber que, naquela época, a atitude de Vargas foi a decisão correta para suprimir o ciclo maldito da “Tirania do Café-com-Leite”. Contudo, pela jurisdição que todos adoram seguir (ao menos com acusações morais), Getúlio interrompeu um legítimo processo democrático a fim de se encastelar no poder. Suas realizações, como as leis trabalhistas e o voto feminino, eram demandas de uma esfera internacional — que jamais deixou de exercer influência no Brasil — para aumentar a propaganda de novos fatos sociais mediante a produção industrial e reestruturação política ocidental. Com ou sem Getúlio Vargas, essas prerrogativas seriam alcançadas cedo ou tarde e, nesse ponto, não havia necessidade de empregar um autoritarismo para obtê-las.

Fazendo uso da publicidade maciça em torno de si, Vargas extinguiu a federação, centralizou o poder e diminuiu a autonomia das unidades federativas, consagrando o ato na famosa cerimônia de queima das bandeiras estaduais. Também instaurou a lógica paternalista de grosso modo na sociedade brasileira — “Pai dos Pobres” —, e depois, quando finalmente se elegeu através do voto, construiu uma profunda base de apoio em sua volta. Seu renque era composto por aduladores que comandavam grupos de pessoas desamparadas, tais como tutores; cipeiros; dirigentes sindicais; líderes religiosos; etc. Foi dessa maneira que dois círculos acabaram se projetando e que, até hoje, se enfrentam e não conseguem formular um acordo por mera obstinação: os populistas e os neoconservadores.

Os populistas têm a seu favor todo aquele charme fajuto da esquerda fantasiosa, inclusive a presuntiva boa intenção de ajudar os desfavorecidos. Já os neoconservadores portam uma aura ilusória de modernidade capitalista, desprezando os necessitados em caráter básico e invocando o nome de Jair Bolsonaro, atual Chefe do Executivo, como escudo defletor de tréplicas coerentes. Na verdade, tudo o que essas duas facções almejam é o poder até as últimas consequências. Passaram — e passarão — toda a história aplicando golpes uns nos outros, e isso não levará ninguém a lugar algum.

O Golpe Militar de 1964 foi a derradeira vitória dos neoconservadores. Leonel Brizola, tido como o derradeiro epígono do getulismo, tentava sempre uma ressurreição por intermédio disso. Entretanto, os indivíduos que formariam o Partido dos Trabalhadores anos mais tarde souberam tirar proveito da situação e, consequentemente, ocuparam uma das vagas no jogo da manipulação eleitoral do Brasil. O último dos maragatos foi exposto ao ridículo e taxado como um político obsoleto e pessoa folclórica — exatamente como ocorreu com Enéas Carneiro e Plínio de Arruda Sampaio.

Assistindo aos debates e pronunciamentos dos intelectuais petistas da década de 1980, a condenação que faziam ao populismo era incontestavelmente nítida. O PT considerava essa prática como um dos principais motivos do atraso em múltiplos setores do Brasil. Isto posto, verifica-se que apoiá-los era algo bonito e venturoso, pois não havia organização mais austera na conjuntura política convencional da época que o Partido dos Trabalhadores, que bradava oposição aos demais sodalícios. Porém, teve de ceder justamente ao populismo que tanto criticava para elaborar um curral sufragista a fim de chegar ao poder. A agremiação do numeral 13 utilizou do mesmo eixo social que Vargas e Brizola, mas fizeram pior devido aos conluios que estabeleceram com uma série de figuras indecorosas em busca de sustentação parlamentar, inclusive com Paulo Maluf e Michel Temer —velhos ícones da famigerada Quinta República Brasileira.

Atualmente, o PT arroga-se como defensor dos miseráveis sob um estilo ainda mais pretensioso que o de Brizola e o de Getúlio. Verdade seja dita, os petistas são os “filhos” caçulas e rebeldes de Vargas — e fazem uso proposital dos mesmos erros do “pai” com o objetivo de desvirtuar o pouco que resta do Brasil.

Apesar disso, esse paternalismo que incorre no Brasil do Século XXI não erra quando investe em projetos capazes de reduzir os contrastes sociais. Tais programas são ótimos corretivos de desigualdades; as infrações são cometidas por quem opera tamanho arcabouço com o objetivo de ser denominado o “paladino dos brasileiros oprimidos”.

Em uma nação guiada pela retitude, os cidadãos não precisam de governantes, padrinhos ou heróis para defendê-los como se fossem crianças; eles possuem o suporte integral de um Estado sólido e proficiente, com sistemas de proteção diversificados e que fornecem garantias de oportunidades iguais a todas as classes. Os políticos servem apenas para gerenciar estes procedimentos, e nenhum indivíduo se torna refém de maquinações eleitoreiras.

Uma ala governamental realmente disposta a fazer o Brasil evoluir teria de começar descentralizando a arrecadação de impostos e modificando o pacto federativo minuciosamente. Na contemporaneidade, existem mais de duzentos e vinte programas de auxílio municipal engatilhados pela União. Empreendimentos de prismas variados; de desentupimento de bueiros a mostras culturais, singrando o plantio de árvores e feiras do peixe. Em suma, o que ocorre é o seguinte: a contribuição social é recolhida nas cidades e enviada para Brasília, retornando muito tempo depois através de um desses projetos. Nesse longo caminho, o dinheiro que toda a população ajudou a reunir vai sendo desbastado pela corrupção e burocracia. Então, por que os recursos para o básico não ficam no município? Por que características emergenciais reclamam um mistifório tão vertiginoso do Planalto? Se uma parte destas divícias permanecessem em seus locais de origem, a comunidade poderia se encarregar de fiscalizar os seus métodos de aplicação com mais eficiência e praticidade. Seria um verdadeiro incentivo à atuação popular na vida pública, ao invés destes conselhos de seitas políticas medíocres e indecentes, que servem unicamente para sabotar a democracia representativa.

É óbvio que isso não bastaria para que a corrupção fosse “extinta” (aspas por ser algo unicamente virtual), mas, com efeito, seria trespassada pela metade. E para que isso pudesse acontecer, as corporações governistas teriam de renunciar ao poder, especialmente no tocante à autopromoção e aos conchavos. Mas quem neste país é capaz de abdicar do controle sem garantias de obter mais autoridade em troca? Essa ideia seria taxada como um simples absurdo; de execução impraticável. Nem mesmo os que se proclamam liberais aos quatro ventos iriam concordar. Para todos aqueles que detêm bastante influência e ordens de comando, o melhor a ser feito é deixar o Brasil sob tutela infinita e apresentar-se como o benevolente protetor dos indefesos e abandonados, utilizando máscaras ao longo do tempo. Sempre foi assim e parece que está muito longe de acabar — Jair Bolsonaro e sua trupe de infradotados ratificam isso.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e