O melhor cachorro do mundo vira latas, fura sacos, rouba nossa comida. Isso lá é vida de cachorro?

Cachorro doido, lindo, feio, descontrolado, apaixonante e inteligente. Tudo num lugar só, o deles

Imagine quando ele vê você e vem correndo a 150km/h, numa felicidade de invejar o mais feliz dos seres. Ele chega, pula no seu colo com aquelas patas cheirando a terra ou a qualquer outra coisa indefinida. E você não tem voz de comando, simplesmente porque a raça dele é indefinida. Rottweiler? Pitbull? Dogo Argentino? Pastor Alemão? Belga Malinois? Nada disso, ou tudo disso num mesmo tufo de pelos.

Uma pessoinha (sim, pessoinha, gentinha, coisinha) dessas, privilegiada por ter as raças misturadas para que ele tenha qualidades de raças cheias de pompa, de trelelês, de não me toques. Vira-lata é a melhor de todas as raças depositadas ali na mamãezinha e nos papaizinhos deles, porque aquela cadela de rua não pôde ter o luxo de escolher quem seria o pai das crianças, então no sangue deles também outras raças, de outras vidas, de outras manias. Genéricos.

Quando falo de vira-lata, também posso fazer uma mistura simples, desde cocker a labrador, pitbull, rottweiler, shih tzu, lulu da pomerânia ou mais eloquente, de pittbull com poodle e todas as raças ABCDFQ+ xyz, pra não renegar ninguém, que não sou dessas.

Resgatado em lata de lixo, vira-lata Paçoca compartilha sua alegria com  quem mais precisa
O nome desse só podia ser esse:
Paçoca!

Um vira-lata legítimo, com o perdão da palavra, é um cachorro especialmente único, você nunca vai encontrar dois iguais. Talvez possamos criar uma sub-ordem de sub-raças. Eu já criei a raça Barbosa, por terem uma linhagem toda podre, mas únicas ao serem denominadas “cachorros de carroceiro”. Temos também cachorro de boteco, cachorro de posto de gasolina, de padaria, de supermercado, de porta de banheiro, de estrada.

São únicos, originais. Pode ver: uma cachorra igualzinha à sua Lassie, mas não é a Lassie. Um peludão pode ser igual ao Dudu, mas não é o Dudu. E vamos seguindo os caminhos traçados por eles, em busca de mais panos, porque os deles foram mastigados, ou em busca de bolinhas novas, porque as deles já explodiram ou foram ralo abaixo.

Não era para ser o contrário, eles seguindo nossos caminhos? Era, mas vira-lata não se rebaixa a esse ponto de subserviência. Quem não sabe o que um vira-lata faz, nunca soube o que é um abanar esfuziante de duas horas ininterruptas em cima de você, com aquela saudade de quem não te vê há anos, mas que esteve sempre ao seu lado.

Memória curta é uma boa desculpa para momentos inesquecíveis. A espécie vira-lata também tem suas peculiaridades. Raças diversas que se encontram e fazem o impossível ficarem lindos na foto. Fofos e muito inteligentes, também mostram que a diversidade canina é enorme e nem por causa disso eles disputam território ou mais espaço de inclusão.

Eles vêm, abanam o rabo e entram na sua vida. Simples assim, sem papel de adoção, documentos autenticados em 500 vias, nem impressão digital. Só o olhar deles ao seu redor já conquista até o mais rabugento dos seres.

Menos meu avô e meu pai. Esses eram duros na queda. De raça sim, a mais forte.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 4 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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