O matuto e o vereador

O político é corrupto, porque quem o elegeu foi a sua imagem e semelhança: seu eleitor

Sergipano, apesar do nome, morava no interior da Paraíba. Homem de roça e semianalfabeto, seu português era quase nada, falava tudo errado. Mas era um cara politizado e gostava de discutir política com seus conterrâneos da cidadezinha onde morava.

O matuto andava fulo da vida com seu vereador, afinal tinha votado nele e o desgraçado do edil nada fazia para sua cidade, onde continuava sem quaisquer condições de sobrevivência: sem água, sem ruas urbanizadas, sem posto de saúde, nada.

Tutussia era um vereador corrupto que vivia sempre se dando bem. Tinha posto de gasolina, embarcação de mil pés, casa de praia, carro importado, fazenda em Mato Grosso, e só ganhava 17 mil reais como edil e outros benefícios criados pela “Constituição Benéfica do Brasil”. Mas o vereador corrupto resolveu se candidatar a prefeito da cidade e ia fazer um discurso no palanque da única pracinha da região. Sergipano aguardava ansiosamente esse dia.

E então, o dia D chegou, e estava lá o candidato a prefeito Tutussia, todo empolgado e certo que seria eleito – tudo já estava esquematizado no TRE da cidade – acompanhado de seu vice Cantocara, que também não valia um tostão furado. Ambos do mesmo partido. Dias atrás na convenção, o vice tentou dar um golpe no Tutu gastando uma grana preta e, perdendo, foi jogado para o canto pelo seu adversário.

A praça estava lotada de moradores, só que de outra cidade vizinha, já que o candidato havia distribuído 100 reais por pessoa pra fazer presença no local. Moradores da cidade, na verdade, só tinha meia dúzia de gatos pingados e mesmo assim, amigos de Sergipano aguardando o momento de ele arrasar o corrupto candidato.

Banda de música tocando, lambe-botas no palanque abraçados com o candidato Tutussia, que de vez em quando tirava do bolso uma grana para eles ficarem grudados ao seu lado fazendo as suas papagaiadas. O mais conhecido, era um brigão de nome Soama. Uma vez, ele quase perdeu a cabeça quando a colocou na janela do carro em movimento do Tutu, só para lhe dar um beijinho de fidelidade. Era o mais famoso baba-ovo da cidade.

Por fim, Tutussia começou a fazer o seu discurso, e estava lá bem em frente ao palanque seu ex-fiel eleitor politizado Sergipano. Já não aguentando mais de tantas promessas demagogas, desabafou:

– O sinhô é um salafrário, num faz nada pra nossa cidade. Só culoca dinhero no bolso. O sinhô é um currumpido!

E ai, um cidadão que estava ao seu lado, simpatizante da ala LGBT, virou para ele e disse:

– Nossa! É mesmo. Eu também sou…

Nota – Quaisquer semelhanças com os personagens acima, certamente será mera coincidência ou uma grande realidade de nossos brasis afora.

Por

* Publicitário. Comendador em comunicação 2019. Um dos emancipadores de Mesquita. Tenho alguns ditados: - 'A Cultura eleva a alto estima de uma comunidade, engrandece e deixa nobre sua população'. - 'O político é corrupto, porque quem o elegeu foi sua imagem e semelhança: seu eleitor'.

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